Identidade e diferença

Trechos* de “Identidade e diferença: uma introdução teórica e conceitual”, de Kathryn Woodward. In: Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais. SILVA, Thomaz T. da. (org.) 9, ed. Petrópolis: Vozes, 2009.

• Há uma discussão que sugere que, nas últimas décadas, estão ocorrendo mudanças no campo da identidade – mudanças que chegam ao ponto de produzir uma “crise de identidade”. Em que medida o que está acontecendo hoje no mundo sustenta o argumento de que existe uma crise de identidade e o que significa fazer tal afirmação? Isso implica em analisar a forma como as identidades são formadas e os processos que estão aí envolvidos. Implica também perguntar em que medida as identidades são fixas ou, de forma alternativa, fluidas e cambiantes. (…)

• “Identidade” e “crise de identidade” são palavras e ideias bastante utilizadas atualmente e parecem ser vistas por sociólogos e teóricos como características das sociedades contemporâneas ou da modernidade tardia. Já mostramos o exemplo de uma área do mundo, a antiga Iugoslávia, na qual se observa o ressurgimento de identidades étnicas e nacionais em conflito, fazendo com que as identidades existentes entrassem em colapso.

• Alguns autores recentes argumentam que as “crises de identidade” são características da modernidade tardia (…) (Giddens, 1990). Kevin Robins, por exemplo, argumenta que o fenômeno da globalização envolve uma extraordinária transformação. Segundo ele, as velhas estruturas dos estados e das comunidades nacionais entraram em colapso, cedendo lugar a uma crescente “transnacionalização da vida econômica e cultural” (Robins, 1997). A globalização envolve uma interação entre fatores econômicos e culturais, causando mudanças nos padrões de produção e consumo, as quais, por sua vez, produzem identidades novas e globalizadas. Essas novas identidades, caricaturalmente simbolizadas, às vezes, pelos jovens que comem hambúrgueres do McDonald’s (…), formam um grupo de “consumidores globais” que podem ser encontrados em qualquer lugar do mundo e que mal se distinguem entre si. O desenvolvimento global do capitalismo não é, obviamente, novo, mas o que caracteriza sua fase mais recente é a convergência de culturas e estilos de vida nas sociedades que, ao redor do mundo, são expostas ao seu impacto (Robins, 1991).

• As mudanças na economia global têm produzido uma dispersão das demandas ao redor do mundo. Isso ocorre não apenas em termos de bens e serviços, mas também de mercados de trabalho. A migração de trabalhadores não é, obviamente, nova, mas a globalização está estreitamente associada à aceleração da migração. Motivadas pela necessidade econômica, as pessoas têm se espalhado pelo globo, de forma que “a migração internacional é parte de uma revolução transnacional que está remodelando as sociedades e a política ao redor do globo” (Castles e Miller, 1993).  A migração tem impactos tanto sobre o país de origem quanto sobre o país de destino. Por exemplo, como resultado do processo de imigração, muitas cidades européias apresentam casos de comunidades e culturas diversificadas. (…)  Essa dispersão das pessoas ao redor do globo produz identidades que são moldadas e localizadas em diferentes lugares e por diferentes lugares. Essas novas identidades podem ser desestabilizadas, mas também desestabilizadoras.

• A noção de “identidade em crise” também serve para analisar a desestabilização que se seguiu ao colapso da ex-União Soviética e do bloco comunista do Leste Europeu, causando a afirmação de novas e renovadas identidades étnicas e a busca por identidades supostamente perdidas.

• As mudanças globais na economia como, por exemplo, as transformações nos padrões de produção e consumo e o deslocamento do investimento das indústrias de manufatura para o setor de serviços têm um impacto local. Mudanças na estrutura de classe social constituem uma característica dessas mudanças globais e locais.

• As crises globais de identidade têm a ver com aquilo que Ernest Laclau chamou de deslocamento. As sociedades modernas, ele argumenta, não têm qualquer núcleo ou centro determinado que produza identidades fixas, mas, em vez disso, uma pluralidade de centros. (…) Pode-se argumentar que um dos centros que foi deslocado é o da classe social, não a classe como simples função da organização econômica e dos processos de produção, mas a classe como um determinante de todas as outras relações sociais: a classe como categoria “mestra”, que é como ela é descrita nas análises marxistas da estrutura social. (…) [Laclau] sugere não somente que a luta de classes não é inevitável, mas que não é mais possível argumentar que a emancipação social esteja nas mãos de uma única classe. Laclau argumenta que (…) este deslocamento indica (…) muitos e diferentes lugares a partir dos quais novas identidades podem emergir e a partir dos quais novos sujeitos podem se expressar. As vantagens desse deslocamento de classe social podem ser ilustradas pela relativa diminuição da importância das afiliações baseadas na classe, tais como os sindicatos operários, e o surgimento de outras arenas de conflito social, tais como as baseadas no gênero, na “raça, na etnia ou na sexualidade”.

*Trechos selecionados pela docente de Antropologia da FIAM Lilian de Lucca  Torres.