As palavras e a placa


Não foi numa noite fria e calculista, de chuva horizontal, como diria o professor e jornalista Claudio Tognolli, mas aconteceu numa tarde de quinta-feira, junto com o início do pôr-do-sol de inverno, com uma temperatura muito quente e com uma leve brisa típica do outono.

Eu estava esperando o momento, encostado num muro, tomando um sorvete. Decidi que era o momento. Olhei para os dois lados, atravessei a rua, me dirigi à secretaria da escola. “Gostaria de falar com alguém, tem alguém que possa falar comigo?” A secretária prontamente me respondeu: “Está todo mundo aí, com quem especificamente você deseja conversar?” “Oras”, disse eu, sorrindo, “quero falar com quem quiser me receber”.

Fui conversar  com a direção de uma escola municipal sobre um fato acontecido na instituição. Fato que apurei, e que a Secretaria Municipal de Educação julgou errado e deu “umas boas palmadas” nos responsáveis pela asneira.

Convidaram-me a adentrar à temida sala da direção, que no imaginário é um lugar escuro, cheio de teias de aranha, com uma bruxa sentada de costas, que se vira numa cadeira giratória. Nada muito diferente da realidade. A sala, amarela, com luzes fortes, computadores, comida e muitos papéis aparentemente bagunçados. E a porta, que foi fechada às minhas costas. Pela janela, podia ver professores passando de um lado para o outro, sem nenhuma classe no recreio. Perguntava-me: “Ninguém trabalha neste lugar?”.

Sabia que não seria recebido de maneira amistosa: meu trabalho de divulgar informações de interesse público gerou problemas para quem fez coisas erradas. As primeiras palavras da senhora diretora: “Não te respeito como jornalista”. Educado que sou, não respondi, apenas fiquei olhando para aquela senhora amargurada, que não aceitava o erro nem admitiria ter errado. Num instante de distração, após a frase doce e simpática da toda-poderosa, olhei para uma lousa que estava na parede da direita, vista de onde eu estava sentado: havia uma placa, na qual lia-se as palavras “Respeite para ser respeitado.”, em vermelho, com fundo branco.

Bela contradição de uma pessoa que trabalha, acima de tudo, com a educação.

Anúncios

9 comentários em “As palavras e a placa

  1. Pois é, Rafael, acontece. Há bons e maus profissas em todos os lugares. Mas afirmo, como professora, que ali se trabalha sim — trabalha-se desumanamente, trabalha-se muito. Trabalha-se em dobro, aliás: para convencer os alunos e a imprensa de que não somos inimigos. Pelo contrário. O professor luta por si e por eles, labuta para se sustentar e sua para persuadir a classe de que a está auxiliando a conseguir sustento. Paralelamente, o professor tem de desfazer a má impressão que as reclamações alunescas (não sempre, mas normalmente motivadas por preguiça e comodismo) causam aos olhos dos pais e, em consequência, daqueles aquem os pais recorrem. É um cansaço que você não tem ideia. Não que isso justifique, mas provavelmente foi isso que tornou a diretora em questão tão escaldada, tão receosa, tão machucada. Não sabe como voltamos para casa feridos, aviltados, ofendidos, maltratados todos os dias. Somos gladiadores. Mas falhos — porque, por engano, nascemos também humanos. Beijos e sucesso no blog, querido! Não julgue mal nossa classe; passe um dia inteirinho, uma semana inteirinha dentro de uma sala de escola municipal e entenderá esses sofrimentos de Prometeu diariamente bicado no fígado…

    Curtir

  2. Credo, que criatura arrogante.
    Mas acho que acontece com qualquer pessoa que tenha o caráter fraco, ou mesmo nulo: morrem de medo de apurações, reproduções, algo que se aproxime do julgamento. Pois isso para ele não seria avaliação, mas sim sumária condenação.
    Quem não tem caráter, bom senso, respeito pelo próximo, por mais que as vezes pareça que não, SEMPRE sabe que estão errados. Mas preferem se manter assim por pura arrogância.

    Também sou jornalista e entendo sua indignação diante dessa situação.

    Vou nessa,
    Abraços!

    http://redutonegativo.blogspot.copm
    http://cafeeagua.blogspot.com
    @rejane_marques

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s