Escola cobra R$ 1 para exibir filmes


Durante a aula, sessões de cinema seriam para arrecadar fundos para a formatura dos alunos.

A menina, alta, de longos cabelos negros, saiu da escola às 11h50, ainda que o horário oficial da saída fosse 10 minutos mais tarde. Depois de entrar em sua casa, bateu a porta, jogou a mochila no sofá, sentou-se na cadeira giratória e, enquanto empurrava o tênis para fora do pé direito com o tornozelo esquerdo, publicou em sua rede social: “Hoje teve filme na escola. Nossa, que chato!”. Surge a pergunta: “O que aconteceu?” E a resposta:

Uma escola pública paulistana passou a cobrar, neste semestre, R$ 1 dos alunos da 8ª série para exibir filmes durante o horário de aula. O objetivo era arrecadar fundos para uma pequena festa de formatura que seria realizada no final do ano letivo, permitindo assim que os alunos carentes pudessem comemorar a promoção ao ensino médio.

O Grêmio Estudantil da EMEF (Escola Municipal de Ensino Fundamental) Comandante Gastão Moutinho – que fica no bairro do Mandaqui, na zona norte de São Paulo –, para atender a vontade de 146 alunos (número do site da Secretaria Municipal de Educação, a SME) que desejam realizar a conhecida colação de grau, levou à direção escolar a seguinte ideia: seriam exibidos filmes, a cada semana, sendo cobrado o valor de R$ 1 por exibição, de cada aluno; os filmes seriam sugeridos pelos alunos e selecionados pelos professores. O pedido dos adolescentes foi à pauta da reunião de pais, na qual nenhum pai presente se opôs ao que seria realizado. Posteriormente, como informou a coordenação do colégio, aprovado pelo conselho escolar, o projeto foi posto em prática.

Foram exibidos filmes como “Arraste-me para o inferno” e “A órfã”; o último, com classificação indicativa para maiores de 16 anos; a média da idade dos alunos é de 14 anos.

Há que se destacar: os alunos que não pudessem pagar poderiam assistir aos filmes e participar da festa do fim de ano como todos os que contribuíram.

Entretanto, a mesma aluna — que tem 14 anos — que reclamou em sua rede social que é muito integrada às atividades escolares, afirma que a professora responsável pelo projeto “olhava feio e virava a cara” para quem não contribuía com a iniciativa, e que “aulas importantes estavam sendo perdidas” por causa disso.

Para exemplificar o que contou, a estudante do último ano do ensino fundamental relata que há seis aulas por manhã; em um dia, os alunos ficaram com as três primeiras aulas vagas (motivo: falta de docentes) e nas três últimas, das quais os professores estavam presentes, todos assistiram filme.

Procurada, a direção da escola afirmou que “é uma boa iniciativa de inclusão”. Não há o que questionar. Contudo, quando perguntada sobre a perda de aulas, que seria ruim para os alunos, com um olhar de cigana oblíqua e dissimulada disse a diretora (que se aposentou uma semana depois da conversa): “Não acredito no que é bom ou ruim, acredito na dialética. Todo o material exibido pode ser trabalhado em disciplinas”. Só que ela não se lembrou de que escolas públicas não podem cobrar por materiais de aula, no caso os filmes. Fora a questão de direitos autorais: cobraram para exibir filmes dos quais não pagaram os devidos créditos.

A Diretoria Regional de Educação (DRE) Jaçanã/Tremembé, órgão da SME, reprovou a iniciativa, afirmando que “toda e qualquer atividade realizada na escola deve estar prevista no Projeto Pedagógico, sempre respeitando a legislação vigente” e que “ações relacionadas às verbas devem ser previamente discutidas, aprovadas pelo Conselho de Escola e registradas em ata de acordo com o estatuto da APM [Associação de Pais e Mestres]”.

Como a DRE não foi informada da iniciativa da escola (a diretora não utilizou a dialética que disse acreditar), a supervisora escolar foi ao colégio para devolver aos estudantes o dinheiro arrecadado com a exibição dos filmes. “Constatada a recomendação imprópria à faixa etária”, informa nota do órgão, “a direção foi orientada a proceder notificação de penalidade direta à professora responsável, nos termos do Decreto 43.233 de 22 de maio de 2003”, que pode resultar na exoneração da funcionária pública.

 

 

 

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23 comentários em “Escola cobra R$ 1 para exibir filmes

  1. Que coisa absurda. Sala de aula virou cinema, é isso?
    A educação já anda muito boa, então nada melhor do que matar umas aulinhas que em nada vão fazer falta, para assistir filmes. Excelente ideia. E parabéns aos pais que permitiram…

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  2. Isso é realmente um absurdo!
    Dou aulas num cursinho comunitário gratuito, organizado por alunos e docentes da Unifesp, e eles tem queixas parecidas quanto ao descaso e a falta de organização e compromisso da escola e dos professores quanto ao seu aprendizado!

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  3. Sinceridade, não vejo nada de mas porque se eles estão juntando dinheiro pelo menos deve ser por uma boa causa, sei que escola a que você se refere, e só escuto elogios e mais elogios, sempre dizendo que essa seria a melhor escola da região.

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  4. Acredito que tudo tenha os dois lados, estudei no gastão e sinceramente não é uma escola ruim comparada a outras da região até mesmo do município. Houve um erro sim da forma que foi organizado porém não se deve crucificar da forma que esta ocorrendo. Acho muito proveitosa essa ideia de arrecadar fundos para realização da colação de grau… pois sabemos que muitos alunos tem este sonho e não o podem concretizar, porém devido a grade curricular estes filmes não deveriam ser aplicados durante o período de aulas, sim depois do horário sendo facultativo o fato de assistir ou não.

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