Teste a legibilidade do texto


Se lemos algo com dificuldade, o autor fracassou. (Jorge Luis Borges)

Em grego, hedone. Em português, hedonismo. Numa e noutra língua, o significado se mantém. É prazer. A sensação gostosa virou doutrina da filosofia. Segundo ela, o prazer deve ser considerado o objetivo principal dos atos humanos.

Alguns concordam. Outros não. Mas uma coisa é certa. Ninguém gosta de sofrer. A regra vale para a leitura. Texto difícil não tem vez. E não é de hoje. Montaigne, no século XVI, disse com todas as letras: “Ao encontrar um trecho difícil, deixo o livro de lado”. Por quê? “A leitura é forma de felicidade”, respondeu ele.

A observação não se restringe a livros. Engloba jornais, revistas, cartas comerciais, redações escolares, receitas de comidas gostosas. Sem fisgar o leitor, adeus, emprego! Adeus, nota boa! Adeus, sobremesa dos deuses! Por isso, roguemos ao Senhor. Que Ele ilumine mentes, penas e teclados. E cada um faça a sua parte.

Como avaliar o índice de dificuldade do escrito? O assunto começou a preocupar os americanos há uns sessenta anos. Pesquisas sobre a leitura do texto jornalístico despertaram o interesse de professores e alunos de várias universidades. Um dos resultados dos estudos foi o teste de legibilidade. Alberto Dines, então do Jornal do Brasil, adaptou-o para o português.

Eis a receita:

1. Conte as palavras do parágrafo.
2. Conte as frases (cada frase termina por ponto).
3. Divida o número de palavras pelo número de frases. Assim, você terá a média da palavra/frase do texto.
4. Some a média da palavra/frase do texto com o número de polissílabos.
5. Multiplique o resultado por 0,4 (média de letras da palavra na frase de língua portuguesa)
6. O produto da multiplicação é o índice de legibilidade.

Possíveis resultados:

1 a 7: história em quadrinhos
8 a 10: excepcional
11 a 15: ótimo
16 a 19: pequena dificuldade
20 a 30: muito difícil
31 a 40: linguagem técnica
acima de 41: nebulosidade

Testemos o parágrafo abaixo:

“Em boca fechada não entra mosca”, diz a vovó repressora. “Quem não erra perde a chance de acertar”, responde o neto sabido. Ele aprendeu que, nas organizações modernas, a competição é o primeiro mandamento. E, cada vez mais, impõe-se a necessidade de falarem público. Muitos servidores, porém, concordam com a vovó. Estremecem só de imaginar a hipótese de abrir a boca diante de uma plateia. Dizem que não nasceram para os refletores. Falta-lhes vocação. A ciência prova o contrário. Falar bem não é dom divino. Falar bem – como nadar bem, escrever bem, saltar bem – é habilidade. Exige treino.

Confira:

1. Palavras do parágrafo: 101
2. Número de frases: 12
3. Média da palavra/frase (101 dividido por 12): 8,41
4. 8, 41 + 12 (número de polissílabos) = 20,41
5. 20,41 x 0,4 = 8,16

Resultado: legibilidade excepcional

Agora, avalie um texto seu. Pode ser uma carta, um artigo, uma reportagem. Antes de começar, lembre-se: aplique a receita de parágrafo em parágrafo. Se o resultado ficou acima de 15, abra o olho. Facilite a vida do leitor. Você tem dois caminhos. Um: diminua o tamanho das frases. O outro: mande algumas proparoxítonas dar umas voltinhas por aí. O melhor: abuse de ambos.”

(SQUARISI, Dad; SALVADOR, Arlete. A arte de escrever bem. São Paulo: Contexto, 2005.)

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4 comentários em “Teste a legibilidade do texto

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