Conversa de bar


A manhã cinza era vista por dezenas de pessoas espremidas na plataforma da CPTM. Um sol tímido fora esquecido por causa do vento e da garoa.

Um faxineiro reclamava que os usuários de trem não tinham a mínima educação. “A organização [do Metrô e da CPTM] é péssima”, e com a Linha Amarela só piora a cada dia!

Nos corredores da estação, policiais vagam como almas penadas, afirmando a quem pergunta que “é tudo muito seguro”. Mesmo com os furtos de carteiras e celulares, que são comuns – os próprios contam.

Pelo prédio de 144 anos, passavam dezenas e dezenas de estudantes e seus professores. A maioria deles queria ir embora: não havia nada de interessante, só os trens e o empurra-empurra de pessoas.

No lado de fora, mais gotas caíam do céu. Restava esperar um pouco na entrada da Estação da Luz. Uma música seria bem-vinda: mas o piano de concerto estava em conserto. A outra opção era admirar as luzes da Luz, que apagadas, não iluminavam.

Com o fim da garoa, na rua, um catador movimentava sua carroça, enquanto um usuário de droga – que se identificou como Ricardo – aconselhava: “Não entre na vida, para não ficar igual a mim”. Depois de alguns meses, penso em qual fim devem ter levado…

Do outro lado da rua, um bar. Queria conversar com alguém. O atendente recomendou: “Fale com o dono, que ele tem muitas histórias para contar”.

“O movimento já foi melhor”, começa, reclamando, Humberto Souza Carvalho, um português da Ilha da Madeira. “A ampliação das linhas não mudou muita coisa para o comércio.”

Com um pouco dificuldade para ouvir e para falar, analisa todos com um olhar sagaz, percebendo perguntas antes de serem feitas.

Em frente ao prédio da estação, um travesti entra em um carro. Seu Humberto observa e franze a testa. “Apesar de ter muita prostituição – e isso é de há muito tempo –, hoje em dia está tudo melhor”.

Ele tem o “Bar do Humberto” há mais de 50 anos! Mas não parece se incomodar com a quantidade de tempo. Olha para a parede e parece pensar no que aconteceu durante sua vida.

No alto de seus 88 anos, deixa seus olhos se encherem de lágrimas quando lembra de um dos momentos que marcaram as décadas que passou na Luz: o incêndio de 1946.

“Aquilo foi muito triste para todo mundo, foi muito triste e para mim”, relata. Na época, ele tinha 23 anos. “Me emocionou, tudo aquilo”, diz, olhando para o prédio da estação.

O incêndio, acontecido em novembro de 1946, destruiu quase todo o prédio da Luz. A torre do relógio virou uma chaminé.

Jornal da época, o Correio Paulistano publicou, um dia depois da tragédia (7 de novembro):

Iniciou-se o incêndio na Quarta Secção, ou melhor, no terceiro andar, no extremo da ala leste do edifício. Carlos de Castro, escriturário da SPR [São Paulo Railway] que nas horas vagas também é eletricista, sentiu um cheiro peculiar ao de fio queimado – conforme declarou mais tarde na Polícia Central. E ele, que conversava com o porteiro da Estação, subiu apressadamente as escadas, acompanhado de outras pessoas, para ver o que ocorria. Já então, o fogo consumia tudo, e não mais era possível aos que ali chegavam utilizar os extintores de incêndio.

Houve afobação e os que tomaram conhecimento do incêndio buscaram um telefone. Onde encontrar, porém, o telefone? As casas comerciais das proximidades, como é óbvio, estavam fechadas. E durante algum tempo – cerca de dez minutos – o pânico tomou conta de todos. Até que alguém, mais expedito, lembrou-se de uma caixa de alarme de incêndio que existia ao lado do prédio do Liceu de Artes e Ofícios. Quinze minutos após o início do incêndio, os bombeiros chegavam ao local”.

Os rostos da história estão esquecidos por aí. Estação da Luz, iluminai-os.

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