Quimera paulistana


São Paulo de tudo

A rede de carijó foi a cama da maioria dos nativos de São Paulo até o início do século XIX. De lá para cá, a cidade parou de dormir. Talvez seja o resultado de tantas xícaras de café durante o expediente.

O paulistano, que amanhece na escuridão, adormece na escuridão, e vive à luz de lâmpadas fluorescentes – para manter o seu bronzeado de escritório –, o ícone do estresse, da correria.

O símbolo da sofisticação simples, exaltada orgulhosamente, no meio de tantos preconceitos regionalistas. E que não apareça nenhum indivíduo da Argentina Brasileira para nos atrapalhar!

Pedaço de terra em que se falou o tupi até o século XVIII. Só depois a língua portuguesa se tornou absoluta, incorporando os indivíduos novos: mano, cara e meu.  Tipo, mas só quando vai à padoca comer um sanduba de mortã com uma tubaína sem gelo.

São Paulo do esquecimento.

De céu cinza, o lugar em que o mundo se misturou, vários países amontoados em um pequeno ponto do mapa. Bairros dos judeus, dos bolivianos, dos espanhóis, dos italianos, dos portugueses, dos armênios. Lado dos corintianos e dos palmeirenses. Espaço para agradar churrasquinhos gregos e cavalos troianos dos computadores da firma.

Piratininga da deselegância discreta das meninas – a mentira de Veloso. Nada mais aconchegante do que a formalidade cosmopolita. Que agora se torna rara. Para a tristeza dos poetas outrora apaixonados.

A menina dos olhos que não enxergam mais: a fumaça de poluição não permite.

Os ouvidos que não separam sons, juntam todos numa batedeira: só pelo prazer de produzir mais barulho.

São Paulo do Horto.

As mãos de quem pode tocar o céu, no alto de 151 metros do Circolo Italiano, enquanto lembra a saudosa maloca que poderia ter sido aquilo antes do começo da construção, na década de 1960.

A voz que canta que você está atrasado (a Sinfonia Paulistana, de Billy Blanco) e alguém comenta que um religioso resolveu descer aos trilhos do metrô para ler a Bíblia e profetizar uma bronca do seu chefe.

O gosto do pão com mortadela e do pastel de bacalhau do Mercadão, que em anos, são as únicas coisas de que o pessoal fala de lá.

E o pastel comum da feira? Aquele que só presta se for feito pelo japonês nascido na Coreia, mas que você ainda acha que com um pé na China. Naquela barraca em que o policial come de graça, oferecendo em troca a segurança dos feirantes – obrigação deles. Deveria ser.

São Paulo da Sé.

A pizza de quatro queijos, feita pelo italiano; o pão francês feito pelo português, que faz questão de fechar mais cedo em dia de jogo no Canindé.

Cidade na qual não existe amor.

Lugar em que só resta o amor.

Capital da luz de velas – a energia elétrica não sobrevive à queda de uma árvore, aquela solitária, a única que restou no bairro. E que morreu de depressão.

Ruas das crianças que brincam com um pneu de caminhão na enchente, que nunca ficaram doentes e cujas famílias elegem um prefeito ineficiente.

São Paulo do romântico cheiro podre do rio Tamanduateí.

População que não parou para dormir, a cidade onde o tédio não conseguiu se perpetuar sobre os interessados em viver.

São Paulo da nostalgia.

São Paulo da noite.

Da noite clara.

São Paulo do pôr do sol no asfalto, que se observa entre as estações Tietê e Armênia, quando o trem flutua por cima do Tietê: com a escuridão da noite, o laranja nas avenidas (a junção do vermelho e do amarelo dos faróis), o negro dos prédios, algumas estrelas que sobraram no céu cinza-azulado, sem alegria, com melancolia.

Com saudade.

Inteiro com vida, com olhares lacrimejando.

Sentado num banco, um senhor reclama que a vida de hoje foi melhor ontem e continuará uma delícia amanhã.

São Paulo do que não tem sentido.

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4 comentários em “Quimera paulistana

  1. Eu tenho uma amiga morando em São Paulo. Ela sempre conta sobre suas aventuras e desventuras por lá.
    Sou do RS e já perdi várias oportunidades de visitar SP. Mais por vontade da situação do que por vontade própria.
    Mas eu ainda quero conhecer essa selva de pedra que tem tantas belezas quanto coisas ruins.
    Adorei o blog. Você escreve muito bem!
    :D

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