Pensando sobre o Caso Eloá


Será esquecida em breve mais uma novela patrocinada pelo jornalismo nacional. A mãe Ana Cristina Pimentel não terá sua filha de volta, mas o crime deixa algumas análises a serem feitas sobre os comunicadores. Pessoas precisam morrer para pensarmos em qual é o impacto que os veículos de comunicação têm gerado na sociedade.

O crime

Armado, Lindemberg Fernandes Alves invadiu, no dia 13 de outubro de 2008, acasa de Eloá Cristina Pimentel, onde ela estava reunida com três amigos para fazer um trabalho escolar. Os quatro foram mantidos em cárcere privado. Dois meninos foram liberados e restaram Eloá, e sua amiga Nayara, que seria libertada na noite do dia seguinte e retornaria ao cativeiro no dia 15, com o objetivo de “auxiliar nas negociações”.

Cem horas depois, os policiais do GATE (Grupo de Ações Táticas Especiais da Polícia Militar do Estado de São Paulo) afirmaram ter ouvido um tiro vindo de dentro do apartamento. Explodiram a porta, ao que Lindemberg respondeu com tiros. Nayara Rodrigues foi ferida no rosto e rapidamente se recuperou. Aos 15 anos, Eloá, que levou um tiro na cabeça, teve morte cerebral na noite do dia 18 de outubro, no Centro Hospitalar de Santo André.

Alves foi preso e ficou até esta semana esperando o julgamento.

O julgamento

“Infelizmente, eu atirei nela”, disse Lindemberg. Confessou, afinal, ter atirado. Do lado de fora, depois, sua advogada faria tudo para tirar o foco do acusado, mesmo que para isso tivesse que se expor.

Depois de quatro dias de julgamento no fórum de Santo André (ABC paulista), seis homens e uma mulher – os jurados – se reuniram na “sala secreta”, onde responderam a 49 perguntas que resultaram na decisão da justiça.

Foi condenado por homicídio doloso duplamente qualificado e também por tentar matar Nayara e o sargento Atos Valeriano (presente no local para negociações). No total, o júri concluiu que Lindemberg é culpado por um total de 12 crimes.

A juíza Milena Dias sentenciou-o a 98 anos e 10 meses de prisão. Sabemos que ele não pode ficar mais do que 30 anos. E a advogada de defesa, Ana Lúcia Assad, já avisou que vai pedir a anulação do júri.

A juíza encaminhou ao Ministério Público uma denúncia contra a advogada de Lindemberg, a já citada Ana Lúcia Assad, por ela ter dito que a magistrada precisava voltar a estudar. Se bem que o tal “princípio da verdade real”, apesar de existir mesmo – para a razão da advogada –, não passa de um pleonasmo para confundir mais ainda nós, leigos. Afinal, se é verdade só pode ser real. Ou não, quem sabe.

Depois de tudo isso, sobra o ponto ao qual era preciso chegar. Tudo isso foi acompanhado de perto pela imprensa (a quem a juíza agradeceu pela qualidade do trabalho). E talvez tenha ultrapassado um pouco os limites do que é certo, na época do ocorrido, lá no não tão distante ano de 2008.

A imprensa

Os jovens Eloá e Lindemberg, respectivamente com 15 e 22, na época, ficaram no apartamento trancados, até que o telefone toca. Quem era? A polícia para negociar? A mãe, para falar com Eloá? A irmã de Lindemberg? Não, era – nada mais, nada menos – do que a apresentadora que diz ser o seu um programa de “jornalismo investigativo”: Sônia Abrão.

Em vários minutos de conversa, ela diz:

“Todo mundo sabendo que você sempre foi um cara legal, e que nesse momento ninguém entende o que passou pela sua cabeça, mas por enquanto você não fez mal pra ninguém, que dizer, dá tempo ainda de resolver essa situação”.

O cara sequestrando, apontando uma arma na cabeça de uma menina, e Sônia Abrão conversando, no estilo autoajuda: “Vamos terminar com isso na boa, Lindemberg. Você não é do mal, você nunca foi”.

Lindemberg, o ex-namorado ciumento, conta que antes de entrar na casa, já sabia do risco que ia correr. Mesmo assim entrou. O público podia ver qual era a intenção dele.

“Libera a Eloá, se libera também dessa história, vamos resolver tudo isso! É tanta gente que ama vocês sofrendo aqui do lado de fora, você sofrendo aí”, diz Sônia.

Depois de ler isso, tire suas próprias conclusões sobre o que a jornalista disse, segundo publicado pelo UOL, nesta semana: “Em momento algum me portei como negociadora. Como apaziguadora, talvez”.

A discussão que se fez é: a apresentadora da RedeTV! tem o direito de interferir dessa maneira na cena de um crime, no momento em que um crime está acontecendo?

O Código de Ética da FENAJ (Federação Nacional dos Jornalistas) é claro ao afirmar que o jornalista não pode:

“expor pessoas ameaçadas, exploradas ou sob risco de vida, sendo vedada a sua identificação, mesmo que parcial, pela voz, traços físicos, indicação de locais de trabalho ou residência, ou quaisquer outros sinais”.

A apresentadora entrevistou sequestrador e vítima, vítima esta que acabou morrendo.

Na época, até o tão conhecido por “sensacionalista” José Luiz Datena achou um cúmulo a entrevista, e disse ao vivo em seu Brasil Urgente, na Band:

“Espero que a imprensa não atrapalhe mais esse caso. A imprensa não, alguns repórteres e apresentadores que se meteram a negociadores da polícia e não são negociadores coisa alguma. São apresentadores, são repórteres, e não têm o direito de se intrometer numa negociação policial”.

Apesar de atrapalhar muitos casos e exibir com frequência a imagem de acidentados estirados na rua, Datena tem completa razão, mas não muita moral para criticar o trabalho alheio. Passou o final do julgamento inteiro dizendo que ia “pular de alegria” caso o réu fosse condenado a pena máxima.

No livro “Sobre Ética e Imprensa”, o jornalista Eugênio Bucci afirma que a liberdade de imprensa é um princípio inegociável, ela existe para beneficiar a sociedade democrática em sua dimensão civil e pública. É claro, porém, que não pode voar por sobre os limites do bom senso, em busca da boa audiência – criando o espetáculo da notícia.

Sim, é dever de quem pratica o jornalismo divulgar os fatos e as informações de interesse público, mas quantos assuntos não foram esquecidos para a realização da cobertura 24h? As escolhas pela maneira errada de informar acabam por prejudicar a massa – os veículos de comunicação perdem, assim, sua função principal e ajudam na temida alienação do povo. A alienação, porém, começa dentro da mente de quem organiza a pauta e a transforma no maior acontecimento.

O que os jornalistas fizeram com o Caso Eloá, que hoje chega a um final (porque será esquecido completamente pela mídia e pela humanidade daqui a alguns dias), não foi jornalismo:  foi uma novela, com vilões e mocinhos, da qual Paola Bracho seria a maior fã. O entretenimento roubou a seriedade do noticiário.

Na obra já citada, Bucci ainda deixa o mandamento:

“Se os jornalistas devem ‘respeitar e honrar as palavras’, os meios de comunicação devem respeitar e honrar o jornalismo, não usando seu nome em vão”.

O que presenciamos durante três anos, nesse caso, em outros casos, não é jornalismo – é uma afronta à população e um pedido de perda de credibilidade. Que nunca será perdida, afinal.

Qual será a próxima novela?

Anúncios

8 comentários em “Pensando sobre o Caso Eloá

  1. O caso Eloá é um dos que mais me chocaram e entristeceram. Como o caso de Isabela Nardoni e João Hélio. Ridículo isto da ‘entrevista’ de Sonia, essa mulher não tem talento nenhum nem para apresentadora, vive pagando de culta e intelectual, num programa que só explora os problemas alheios. Datena eu gostava muito, e sei que muitas vezes ele deixava sua opinião bem clara, mas acredito que jamais tenha chegado a um cúmulo como Sonia. A seriedade do jornalismo realmente se perdeu, mas, como você mesmo disse, a mãe Ana Cristina não terá sua filha de volta.

    Curtir

  2. Confesso que os dois aspectos que mais me impressionaram no caso foram a cobertura da mídia, que achei absurda, e a defesa que muita gente fez, à época, do Lindemberg. Aquela velha história, né? Se ele fez isso é porque certamente a Eloá aprontou alguma e daí pra baixo. Mas o cúmulo foi quando algum especialista-em-qualquer-coisa disse no programa da Sônia Abrão que esperava ver os dois casados, algum dia. Quer dizer, sério mesmo? Sério mesmo que ele queria que ela casasse com cara que tava ameaçando a vida dela?

    Enfim, acho muito importante tu levantar a questão do impacto social das mídias, mas acho igualmente relevante questionar a sociedade per se, porque uma sociedade que torce para que a vítima case com o criminoso – ou que contribua para que um cara como o Lindemberg acredite que a ex-namorada seja uma propriedade que possa descartar a qualquer momento – é bem problemática.

    Enfim, esse caso aflora muito meus sentimentos e minha percepção. Hahaha. Excelente texto.

    :*

    http://hey-london.net

    Curtir

  3. Há uma vantagem no sensacionalismo da mídia para fatos como esse:

    “Felizes” os parentes e amigos de vítimas que têm seu caso “adotado” pela mídia, pois esses casos serão julgados e com 99% de chance do réu pagar, mesmo que por alguns anos, pelo(s) crime(s) cometido(s), afinal, são inúmeros os recursos…

    Por alguns dias, há indignação da grande massa…

    Curtir

  4. Matéria excelente! Ainda não conhecia seu blog, mas gostei bastante do modo que relata e escreve. Em relação ao caso, é muito complicado quando o caso é publico, com mídia em cima. O que achei mais interessante no desfecho do mesmo, foi a paciência e inteligencia do Juiz, que conseguiu se segurar e “ignorar” o descontrole da advogada. Dessa forma, atrapalhou dos planos dela, que com certeza queria prorrogar a audiência. :*

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s