Corredor do necrotério


Esta é a crônica de uma imagem eternizada na mente de uma criança. O horror no qual permaneceu todos estes anos pode ser mais irreal do que natural, do que comum, afinal.

Outro corredor que me assusta é o do filme “O Iluminado”.

Na manhã daquele domingo, 10 de novembro de 2002, minha mãe acordou meu pai com a notícia: “Rô [de Roberto], seu pai [meu avô e, evidente, sogro da minha mãe] morreu” (esse monte de colchetes deixou a frase mais leve). Meu pai acorda sem reação, aparentemente: “Morreu… morreu!”. Do meu quarto, eu ouvi essa conversa.

Eu tinha oito anos de idade, estava parado num corredor, escorado na parede daquele lugar. O chão era cinza; perto da porta de entrada, o sol deixava a marca de sua luz, mas não o retrato de seu calor. Havia três portas divididas pelo corredor: uma à esquerda, duas à direita (estas mais distantes da entrada). Fiquei perto da primeira porta.

Era a primeira vez que lia a palavra “necrotério” em um lugar onde eu entrava. Não sabia o que havia ali dentro. O segurança, o único do local, falou que eu podia entrar e ficar parado naquele lugar do corredor, próximo da entrada (que seria muito mais interessante tratar aqui como a saída para o nunca mais). Sempre fui muito curioso, porém. Resolvi brincar de passar o dedo por uma faixa azul escura da parede branca, que seguia por todo o corredor ­­– que ficava mais escuro conforme me afastava da entrada. Só para saber o que existia ali.

No final do corredor, portas duplas, com janelas de vidro. “Entrada proibida” – não exatamente com essas palavras, não lembro exatamente o que estava escrito. As luzes estavam apagadas. Estávamos no horário de verão, poderia ser alguma economia…

A porta da segunda sala da direita estava aberta. Alguém fazia a limpeza de uma “pia” (pelo menos, parecia uma) enorme que ficava no centro daquele espaço. Como fosse um laboratório de química da escola, pensei que ali faziam experiências com ETs. Nunca ninguém me provou o contrário.

Minha mãe me viu e “Rafael, vem aqui agora!” foi o que ouvi. Cruzei os braços, irritado, e fui para o meu primeiro posto chutando o chão. Mandaram que eu sentasse naquele chão gelado.

Minha avó, minha mãe e mais alguém, de quem não me recordo, estavam naquela sala grande, de onde saía um ar gelado. O segurança estava na porta. Perguntei o que tinha ali. “Não é da sua conta, baixinho”, respondeu o guarda, rindo e me despenteando.

Ele – o segurança – foi falar com um médico, todo de branco, que usava luvas e uma máscara cirúrgica.

O tempo que eu precisava para correr para dentro da sala.

Aí se congela a cena.

Como em câmera lenta, eu olhei para tudo. Ninguém falava nada dentro daquele lugar. Frio, com cheiro de hospital.

Várias macas. Três em cada parede, quatro no centro. Todas estavam cobertas com um lençol azul claro. Menos uma.

Em quinze macas (estou descontando a do “menos uma”), parecia que algo estava embaixo daqueles panos. Dessas coisas desconhecidas, umas maiores, outras menores, algumas mais altas, outras baixas.

Uma apenas não estava com o lençol azul. Na frente dos meus parentes, o meu avô. Esparadrapos nas mãos e no umbigo. Algodão no nariz e nas orelhas. A boca inchada, próxima do bigode fino dele.

“Sai daqui menino”, disse o guarda. Eu corri para fora. Sem ar.

Abri a porta de entrada, ou da saída para o nunca mais, olhei para trás, o corredor vazio, todo mundo naquela sala. Corri para fora daquele lugar.

Nunca mais voltei. Nunca mais espero voltar.

Criança, adolescente ou adulto, os medos continuam os mesmos. Mesmo que a entrada lá seja inevitável por um único e derradeiro dia de nossas vidas. Ou de nossas mortes.

Fale conosco: reticenciajornalistica@uol.com.br

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10 comentários em “Corredor do necrotério

  1. Uma lembrança como essa que ficará para sempre em sua mente.
    Adorei seu texto Rafael. Você conseguiu descrever bem.

    Sinceramente, eu senti o que você passou.

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  2. Rafa, você escreve muito bem.
    É, essa visão do IML é horrível e inesquecível. Parece que fica uma marca como mancha em nossa memória.
    Imagine que tive que reconhecer o corpo do meu filho, morto em acidente de carro, naquele lugar horroroso. Até hoje, algumas noites acordo sobressaltada com aquela visão.
    Bj.

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