O gordo da biblioteca no campeonato escolar


Uma sala de aula empoeirada, com três paredes lotadas de prateleiras cheias de livros, formando o que em algum lugar no planeta chamam de biblioteca. Na quarta parede fica a lousa. A sala ainda é preenchida por uma mesa grande, na qual a professora trabalha (questionável, aqui, mas falaremos depois), e por mesas redondas com cadeiras giratórias laranjas, que fazem um barulho infernal. A saber, eu e os meus colegas adoramos irritar professores, rodando como crianças que somos.

(Anos depois, trago a cena ao leitor. Não gosto de atacar ninguém. Gosto de contar como me atacam. Quem sabe minha história se encaixe na discussão do bullying, que tanto cobram para que eu escreva sobre. Este texto terá uma mistura de tempos verbais, não se assuste, gosto de novas experiências.)

Estamos no começo da década, é o ano dos Jogos Olímpicos “do novo milênio”, realizados em Sidney, na Austrália. Em setembro daquele ano, a atleta do país-sede Cathy Freeman acenderia a tocha.

Na escola pública municipal em que eu acabara de ingressar, a Comandante Gastão Moutinho – cujos problemas mil já relatei alguns aqui –, os Jogos Olímpicos Escolares também seriam realizados. O tempo passado já não me permite dizer com certeza se foi no primeiro ou no segundo semestre de aulas.

Os responsáveis pelo evento dividem todas as séries da escola (inclusive a minha turma, da primeira série do ensino fundamental). São as equipes: Verde, Amarela, Azul e Branca. Os pequenos amigos são divididos. O Vitor foi para a Amarela; o Pedro, para a Branca, junto com o André; eu sobrei na Azul. Revolta passada, era preciso comprar a “camiseta oficial” da competição.

Professora Silvia, daquela biblioteca tenebrosa do primeiro parágrafo, era a responsável por receber o dinheiro e entregar as camisetas. Sem problemas, eu gostava dela. Ela, entretanto, não contava histórias de que eu gostava (aí o meu questionamento de criança, sobre a mesa do professor na Sala de Leitura: para que existir uma lá, se a professora nunca lê o que eu gosto?).

Levo o dinheiro para comprar o meu “uniforme da delegação”. Ela me entrega a camiseta. Eu visto, mas como sempre fui um tanto, eufemicamente falando, mais “forte” que os meus colegas, a camiseta pequena não me serve. Peço para trocar. Ela não quer trocar. Ligo para minha mãe, do orelhão da escola, escondido do auxiliar de período. Se não me engano, era Roberto o nome do professor que cuidava dos alunos – os mais velhos o chamavam de Presunto (ele ficava com a aparência de um, quando nervoso). “Mãe, venha aqui!”

Contei a história à dona Julia, minha mãe, que foi reclamar com a professora Silvia. A responsável pela Sala de Leitura olhou para minha mãe, olhou para mim, pegou a camiseta da equipe Azul nas mãos e disse, com uma voz aguda e arrogante: “Não tenho culpa se ele é gordo”.

Minha mãe sempre foi muito nervosa. Ela discutiu com a professora, depois de me mandar voltar para a sala de aula da professora Solange. Anos depois, me disse que naquele dia falou com a diretora da escola sobre o ocorrido. Nenhuma providência foi tomada – e aliás, a diretora em questão é a mesma daqueles outros dois textos que postei aqui (ver: “Escola cobra R$ 1 para exibir filmes” e “As palavras e a placa“. O tempo passa, mas nem sempre a maneira de agir das pessoas muda.

Consegui, afinal, uma camiseta maior. Com ela, venci algumas provas, e ao final do campeonato, minha equipe ganhou a medalha de prata. A equipe Branca, a de ouro. Não lembro o que aconteceu com a Verde e a Amarela, mas creio que, respectivamente, ficaram com bronze e certificado de participação.

A professora Silvia, depois do episódio, me encontrou no ano seguinte, na Sala de Leitura, no dia de empréstimo de livros. Era uma aula na sexta-feira. Pedi para levar “Reinações de Narizinho”, do Monteiro Lobato (sim, eu nasci na época em que crianças recém-alfabetizadas liam Monteiro Lobato). Ela disse que não havia edição para o empréstimo. Meu melhor amigo (até hoje, a saber) Vitor pediu o mesmo livro emprestado: ela emprestou para ele.

Muitos anos depois, quando eu estava no final do ensino fundamental, ela – já fora da biblioteca – foi responsável por minhas aulas de Educação Física. O programa de aulas dela: “Peguem a bola, façam o que quiserem, só não se matem para que eu não seja processada”. Ao final de cada semestre, reunia os alunos e perguntava: “Qual a média final que vocês querem ter?”. Os presentes, claro, gritavam “P” – a melhor nota, “Plenamente Satisfatório”. Quem faltava, ficava com o azar de receber um “S” – apenas “Satisfatório”.

Ela tentou – e conseguiu – realizar exposições contra o preconceito naquela escola. É, realmente, de preconceito ela entende bastante. Senti isso na pele.

Não sei o que aconteceu com ela, depois do meu último ano estudando no fundamental. Espero nunca saber, aliás.

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9 comentários em “O gordo da biblioteca no campeonato escolar

  1. Não me conformo que coisas assim aconteçam por parte do corpo docente, e que a diretoria do colégio não faça nada. Tem que denunciar esse tipo de coisa, com certeza foi bullying, foi um belo e revoltante texto. Inspirador pra que as pessoas tomem atitude e esse tipo de coisa não aconteça mais. E que bom que você lida bem com isso hoje =)

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  2. Relato cômico, mas ao mesmo tempo preocupante e “realístico” acerca do recorte educacional que você fez, agora.

    A maioria dos professores das escolas públicas – e particulares, também! – espalhadas pelo Brasil afora, tratam os seus alunos da maneira como descreveu: de forma desrespeitosa e sem profissionalismo. Muito triste!

    Um abraço,
    Fernando Piovezam
    http://seuanonimo.blogspot.com

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