“Falo as coisas e me arrependo”


Vaguinaldo Marinheiro é jornalista da Folha de São Paulo há 23 anos. Já foi secretário de redação e, atualmente, é repórter especial. Antes de escrever no principal jornal do país, trabalhou na revista Veja.

“Escrevi em todos os cadernos, desde a Folhinha até a Ilustríssima, com exceção do Tec [suplemento de tecnologia], para o qual uma vez me convidaram, mas não rolou”, conta. “Tudo isso porque eu sou um cara muito curioso.”

Marinheiro foi correspondente em Londres, mas era responsável pela cobertura de toda a “pequena” Europa. “É um problema geográfico da Folha.”

Odeia fazer suítes (a continuação de uma reportagem), porque o legal é aprender sempre, “com pesquisas, pesquisas e pesquisas” sobre o assunto, para ao final de um dia inteiro escrever 20 linhas – que ainda serão editadas. “Não tem coisa mais divertida!”

Também odeia Julian Assange (“Mas é pessoal.”), a quem acusa de não fazer jornalismo. O australiano, diz, se coloca como o “messias do jornalismo, o paladino da liberdade de expressão”, mas o que o WikiLeaks realmente faz é “basicamente é fofoca”. Apesar disso, Vaguinaldo acha interessante o que eles fazem.

“Eu falo as coisas e me arrependo depois.”

Colegas de trabalho

Oito horas de uma noite de calorem São Paulo, e a Cátedra de Jornalismo Octávio Frias de Oliveira realiza a sua primeira palestra do ano de 2012.

Antes, porém, na plateia, tentamos descobrir quem é o tal de “Pampers, fugido da APAE” (um apelido de muito mal gosto, a propósito), a quem os colegas futuros jornalistas da fileira de trás chamam incessantemente.

Não existe boa educação no jornalismo – desde a faculdade.

Na quinta fileira, estou ao lado de pessoas aparentemente desanimadas – aquelas que talvez tenham lido algum post deste Reticência Jornalística.

“Espero que a professora me veja logo, para dar presença e eu ir embora”, pensam alto os esperançosos alunos do período noturno das Faculdades Integradas Alcântara Machado (FIAM), que em 2012 celebra quatro décadas de existência.

À noite, as aulas começam quando o relógio marca o horário da Voz do Brasil (“Em Brasília, 19 horas.”), mas os alunos se dão ao luxo de chegar uma hora atrasados e ainda reclamar de que os poucos lugares vagos no auditório os deixam separados do restante da turma. Uma gritaria incessante, que até Deus desiste de ceder lugar aos infelizes. Só de castigo.

A professora Marcia Furtado Avanza, diretora da faculdade, coordenadora do curso de Jornalismo, doutora, mestre e tudo quanto é coisa mais, abre a palestra com seis minutos de atraso, o tempo de praxe em todas as atividades.

Vida de correspondente

As pessoas veem certo glamour em ser correspondente internacional, “mas não é nada disso”. As filhas de Vaguinaldo Marinheiro já disseram que ele deveria se aposentar, para ficar mais tempo com a família, contar histórias para as meninas dormirem.

Uma das vantagens de trabalhar no exterior – segundo ele – é acompanhar de perto a mídia do lugar, ver como são feitas as coberturas e compará-las com as do país em que nasceu. É importante também notar qual é a imagem do nosso Brasil lá fora, com relação aos destaques de grandes eventos (Copa-2014 e Olimpíadas-2016). “Desconfiança. O mundo inteiro desconfia do Brasil.”

O debate dentro do jornalismo inglês, atualmente, é sobre a ética. O motivo, claro, é toda história já conhecida do News Of The World, de Rupert Murdoch – o tabloide saía aos domingos e vendia 2,9 milhões de exemplares. O jornal sensacionalista da News Corporation foi fechado em julho de 2011, quando Londres estava terminando as obras dos espaços esportivos dos jogos olímpicos (o que, sinceramente, fica avulso neste parágrafo, mas a gente aproveita o gancho da data).

“Esses jornais trabalham com detetive”, informa, referindo-se ao jornal acusado de fazer escutas ilegais (até o primeiro-ministro David Cameron foi vítima). Daí até a discussão de tantos escândalos de traições, relacionamentos de jogadores famosos com prostitutas, baixarias no geral – “Eles contam detalhes anatômicos!” –, o que “os ingleses adoram”. Pelo menos alguma coisa em comum com nós, brasileiros, né, Nelson Rubens?

Mesmo o jornalismo do Reino Unido sendo o melhor da Europa “disparado”, falta ética aos repórteres. E sem ética na cabeça, “a gente é um péssimo jornalista”.

Avisando que vai cometer uma heresia, Marinheiro é franco ao afirmar que a liberdade de expressão não é um direito absoluto. Quando é vista como tal, dá no que deu na terra da rainha.

Olimpíadas de 2012

Os londrinos não querem os jogos olímpicos. Ninguém quer se preocupar com problemas no trânsito, nos transportes públicos, na tranquilidade do chá das 17h. “A rede hoteleira acha que haverá menos turistas do que o habitual”, ou seja, ao invés de ajudar, o evento mundial vai atrapalhar.

Apesar da ampliação dos trens ainda não estar concluída, todos os centros esportivos que serão sedes de competições já estão prontos. Se o Brasil não der conta dos preparos para a Copa, “podem mandar para Londres, que a cidade está preparada”.

Se no Brasil temos chute na bunda, na Inglaterra as arenas já estão passando pelos testes finais para os jogos, desde o ano passado, até nas áreas mais “pobres”. A zona leste daqui de São Paulo tem (mais) coincidências com a zona leste de lá.

Como brasileiro, Marinheiro acha que o Brasil deveria aproveitar essa época de eventos “megamidiátios” para provar que “o brasileiro não é vagabundo, que o jeitinho brasileiro não existe”, mesmo sabendo que esse jeitinho existe.

Jornalismo

“A vantagem e a desvantagem desta nossa profissão [de jornalista] é ser um trabalho coletivo”, porque sempre alguém vai depender de outro. E o trabalho nem sempre fica como o funcionário da Folha quer.

“Se você não tomar cuidado, tem neguinho botando besteira no seu texto”, desabafa. E ainda reclama que, no outro dia, o leitor chama o repórter de estúpido. “E você não pode responder ‘não fui eu’.”

Palestra em faculdade não é palestra em faculdade se algum aluno do primeiro semestre não pedir dicas para quem está no centro do palco. Na quarentona FIAM não é diferente.

A dica? Desconfiar.

“Desconfiar é fundamental. No jornalismo você não pode ter certezas; se tiver, será um péssimo jornalista. Tem certezas? Vá fazer Exatas, para destruí-las.”

E para completar, pede que o jornalista aprenda a perguntar para si próprio, além de para os entrevistados, principalmente para saber o que é importante ou não publicar, já que de modo proposital ou não, o jornalismo passa a servir pessoas com interesses contrariados. “Toda vez que alguém [uma fonte jornalística] diz ‘não diga que fui eu’ ou ‘não sei se você deve publicar’, é porque o cara está louco para que publique.” Entra aí a ética dita anteriormente e a função do profissional de imprensa em organizar as informações que serão levadas ao público.

Para o repórter especial da Folha, a mídia sofre de um problema chamado “ejaculação precoce”: a vontade de publicar uma notícia assim que a tem, antes do concorrente. Até mesmo por disputa de minutos. Os erros acontecem por essa pressa, porque não há uma checagem adequada. Um grande furo de reportagem, conta, não altera a circulação de jornais como a Folha em muita coisa, por isso, os veículos de comunicação sobrevivem das assinaturas, além de, evidentemente, publicidade.

Essa falta de apuração gera para Vaguinaldo Marinheiro uma ideia de nova função para as redações: cada jornalista deveria derrubar uma matéria por dia. “O mais legal [na redação] é derrubar matérias. Mais legal do que escrever.”

“Os jornais só vão conseguir sobreviver se existirem pessoas como o meu pai, que acredita em tudo o que está nos jornais, mesmo eu dizendo para ele não acreditar”, para depois dizer que acha um possível “marco regulatório” da imprensa, argumentando que seria um retrocesso ao período da censura.

Censura que foi cometida com o principal concorrente local do veículo para o qual trabalha. A família Sarney, dos poderosos chefões, conseguiu o impedimento de reportagens do Estado de São Paulo. “Eu acho que o Estadão gostou [da censura]”, porque iniciou-se a discussão e a observação para os motivos do senhor José.

Vaguinaldo Marinheiro, sobre o que é o jornalismo atualmente, finalmente conclui: “A gente é pior do que a pior imagem que têm da gente; a gente é melhor do que a melhor imagem que têm da gente”.

Anúncios

9 comentários em ““Falo as coisas e me arrependo”

  1. Acho que não existe nada bom ou ruim, acho que tem coisa com lados bons e lados ruins. No caso dele, o que ele diz ser prejudicado por, não é ruim é mal administrado esse sentimento. Abraços!

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s