Só desembarco amanhã de manhã


Não posso ficar nem mais um minuto com você, sinto muito, amor, mas não pode ser. Se eu pegar esse trem, que sai agora, só desembarco amanhã de manhã.

Cerca de 260 mil pessoas utilizam a linha 9-Esmeralda da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), em dias úteis. O intervalo entre trens varia de 4 a7 minutos, nos mesmos dias úteis. Desses milhares de pessoas, 30 mil enfrentaram, às cinco da manhã, uma falha do sistema de energia. Os trens lotados, as plataformas de embarque superlotadas. CPTM toda em velocidade reduzida: espera para embarcar dobrou de tempo. Paulistano e vizinhos com a vida parada. Não feliz com o problema da madrugada, quando o relógio da Estação da Luz revelava que o sino de alguma igreja deveria bater oito vezes na noite, o sistema de tração de um trem falhou. Os usuários caminharam pelas vias.

Segundo o Metrô, 335 mil pessoas utilizam a linha 3-Vermelha; e 291 mil, a 1-Azul, todos os dias. Quase duas horas após o problema da CPTM, o outro serviço de trens também teve com o que se preocupar. Na primeira via citada, uma falha no sistema pneumático de portas e freios; na última, um problema no sistema de tração. Os trens lotados, as plataformas de embarque superlotadas. Metrô todo em velocidade reduzida: espera para embarcar triplicou de tempo. Pelas informações divulgadas, 165 mil seres humanos foram prejudicados. Dentre os quais, este que escreve.

Manhã de quase-outono*

Manhã de quarta-feira, um calor mais ameno que o comum nos últimos tempos, pego o ônibus com uma cadeirante, e dois deficientes visuais – uma, acompanhada por seu labrador de pelos pretos, que sentou-se no meu pé. O meu destino é a estação do trem metropolitano, vulgo metrô.

Aprendi que para fazer a viagem sentado em algum canto do vagão, preciso voltar para o Tucuruvi, para rumar ao Jabaquara, depois. Naquele quarto dia semana, ou o terceiro útil, resolvi ir direto, em pé mesmo, para chegar mais cedo à faculdade. Nunca mais faço isso: todo mundo consegue pelo menos algum trauma na vida.

Às 7h27 (sim, eu olho o horário sempre que entro no trem), embarquei na estação Jardim São Paulo / Ayrton Senna. Três minutos depois, aconteceria o segundo problema, o da linha Azul, em que eu estava. Penando, fui jogado para fora do trem às 8h30, dez estações depois, na São Joaquim. Em velocidade normal, gastaria no máximo 25 minutos no percurso.

Atrasado, pensei em desistir da vida, sair do trem e voltar para casa. E quem disse que eu consegui? Em mais de 15 minutos parado na Armênia, com as portas abertas, o máximo que pude foi esticar o pescoço para respirar um ar mais puro, tentando fugir do romântico aroma do rio Tamanduateí. Tentei sair do vagão, mas não consegui. O “com licença” não funcionava; e ainda era replicado com um “vá para o inferno” (usando uma expressão com eufemismo). Fora a observação de que na plataforma, usuários dos transportes públicos só não subiam em cima dos outros, porque tinham medo de altura.

Já diria o outro que, se subisse a Ivete Sangalo no vagão, a micareta estava pronta, mesmo em tempos da hipócrita santidade do povo na quaresma.

Vencidas pelo cansaço, as cerca de 200 criaturas que se apertavam dentro do veículo só não desmaiavam, porque não teriam espaço para cair.

O metrô parado, e todo mundo com as mãos para cima, segurando naqueles canos de ferro, que servem para apoio. Qual o motivo de se segurar enquanto o trem está parado há uma eternidade, pergunto-me, com as duas mãos para cima. Concluo (e a única conclusão é morrer, diria o poeta) que não descemos as mãos porque não há espaço para que isso seja feito.

O único feliz com essa história é o ortopedista, que deverá cuidar da minha tendinite. E, claro, quem faltou ou foi dispensado do trabalho, voltou para casa e dormiu.

Preferi seguir a vida, com dor nas pernas e nos braços, e comprar salgadinho de tomate e suco de maçã num mercadinho oriental, na Liberdade.

Agora, resta aguardar uma semana para a próxima falha – uma falha acontece a cada não-sei-quantos quilômetros percorridos pelo trem, o que na conta dá uma semana mesmo.

Problemas nos transportes públicos: antes tinha, agora também.

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*Referencia à expressão “manhã de outono” (ver Haicai, ou a tentativa de um), um bordão utilizado pela Turma da Ratoeira de Jornalismo, da FIAM, desde aula de Monica Martinez, no primeiro semestre. Fica a lembrança.

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3 comentários em “Só desembarco amanhã de manhã

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