Repórteres são idiotas


Se o jornalista perder a capacidade de sonhar e ser um agente da utopia, é melhor mudar de ramo, segundo Ricardo Kotscho, o repórter do pipoqueiro. Com Gilberto Dimenstein, em 1990, publicou “A Aventura da Reportagem”.

Dividida em duas partes, a obra se compromete a demonstrar que por trás do talento individual de cada jornalista podem existir princípios e técnicas que permitem chegar à “melhor versão da verdade”, em expressão utilizada por Carl Bernstein. Este, com Bob Woodward, ficou conhecido por “desvendar” o caso Watergate, que causou a renúncia do presidente dos Estados Unidos Richard Nixon em 1974.

A maioria dos assuntos é tratada de maneira superficial, dado o tamanho do livro – 99 páginas – em relação ao tempo abordado: desde antes da Ditadura Militar (que durou de1964 a 1985) até pouco depois da campanha eleitoral de 1989, entre o vencedor Fernando Collor e Luiz Inácio Lula da Silva, que foi assessorado por Kotscho à ocasião e futuramente seria eleito presidente do Brasil.

Nas primeiras páginas, a apresentação é de Clóvis Rossi (várias vezes lembrado no livro como ex-jogador de basquete), que afirma que os repórteres são seres idiotas, mas às vezes conseguem até ser felizes na sua estranha maneira de viver a vida. Mais do que idiota, um dos autores ressalta que o repórter é como um goleiro: “se não tiver sorte, dança”.

Apesar de ter sido publicado há 22 anos, a temática é atual, dados os grandes problemas políticos e os de violência, como Kotscho, por exemplo, conta em suas últimas páginas, com o título de “A agonia dos sem-terra”.

Contando “As Armadilhas do Poder”, Dimenstein usa de sua experiência em Brasília para dar uma pequena aula, principalmente aos focas (iniciantes no jornalismo), de como é a malícia no relacionamento promíscuo entre jornalistas e representantes do poder. “Quando o poder e a imprensa se dão muito bem, o leitor se dá mal.”

A publicação mostra também de como é difícil o relacionamento entre os próprios governantes. “Os repórteres ficam atentos para saber quem está brigando com quem, a fim de obter inconfidências ou documentos.” Com isso, aumenta a necessidade da checagem de informações, porque em todas as matérias o denunciante tem os motivos desconhecidos para acusar: as fontes podem ser pessoas com interesses contrariados.

“No olho da rua”, Ricardo Kotscho revela como entrou na profissão: de jornaleiro a jornalista. A maior lembrança, entretanto, é a do estilo por que ficou conhecido: “Enquanto todos cobriam o palco, eu ficava pela plateia, dando uma espiada nos bastidores”.

Curiosidade e simplicidade definem o tipo de reportagem de Kotscho, que com as chamadas “amenidades” acaba chocando muito mais do que muitos grandes escândalos, os quais o leitor não compreende as raízes. “Se eu não entendo, o leitor também não vai entender.”

A obra é composta por um texto simpático e com grande quantidade de conteúdo em suas poucas páginas, contudo apenas fomenta o interessado a procurar saber mais sobre os assuntos abordados, que não são aprofundados em sua grande maioria. Ainda assim, o livro permite que o leitor tenha uma visão do empregado (jornalista) e não do patrão (jornal).

Os autores

Gilberto Dimenstein é membro do conselho editorial da Folha de São Paulo; no mesmo jornal, foi diretor da sucursal de Brasília. Além disso, assina coluna na Folha.com. Escreveu livros como “A República dos Padrinhos” e a “A Guerra dos Meninos”. Ganhou dois prêmios Esso e dois Líbero Badaró de Imprensa.

Ricardo Kotscho, ganhador de três prêmios Esso e dois Vladimir Herzog, entre outras obras, já publicou “O Massacre dos Posseiros” e “Explode um Novo Brasil”. O jornalista é do conselho editorial da revista Brasileiros, de que também é repórter especial, comentarista da Record News e blogueiro no Balaio do Kotscho, hospedado no R7.

A Aventura da Reportagem

Autores: Gilberto Dimenstein e Ricardo Kotscho

Editora: Summus

Valor: R$ 30, em média (99 páginas)

Avaliação: regular

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