Devaneios no silêncio inexistente


Quando foi a última vez que você se calou para ouvir os pensamentos do vento e a fúria nostálgica da chuva?

Há muito o silêncio não faz parte pelo menos da minha natureza (que dizem ser) humana. Carros, gritos, televisão, fones de ouvido, tchu-tcha-tcha-tchu-tchu-tchas da vida. O barulho exterior e interior da minha mente, os ruídos comunicacionais dentro de mim mesmo não me permitem ficar na paz com minhas incongruências existenciais mais íntimas.

Aquela gota de orvalho que cai sobre os seus cabelos, os seus óculos embaçados pela neblina das manhãs de outono se perderam na eternidade do barulho do motor de um ônibus trabalhando, na avenida.

Esquecemos o tempo em que a solidão resolvia nossos problemas, no escuro do quarto, com o máximo do silêncio que impera entre as notas musicais tocadas em algum piano. Sozinhos, com o barulho, tentamos nos esconder de mundo: ah, para isso, a falta de concentração…

Aonde foram os passarinhos que assobiavam nas nossas janelas e que tentavam ultrapassar a transparência dos vidros, chocando-se contra eles? Nem os vira-latas que se hospedavam nos pontos de táxi resistiram à rotina.

Fugiram. Fugiram para o silêncio. O lugar de cujo caminho nos perdemos. Se é que algum dia nós soubemos o caminho. O metrô sonoro sofreu uma pane no sistema e nos deixou à deriva na plataforma de embarque. Guardem a garrafa de champagne para quebrar no próximo navio! Vada a bordo, Rafael!

Olhos se cruzam, falam sem dizer, olham sem ver, observam sem analisar.

E como diria Umberto Eco, “como podes ver, ainda falo demasiadamente, e isto é sinal de que não sou sábio, porque a virtude se adquire no silêncio”.

Estou perdido na minha mente. “Pai, afasta de mim esse cálice!”

Deus, não me deixe no silêncio, no meio da multidão, com um papel, e uma caneta, e uma pauta. Porque dará, como deu, nisto. Não vou amassar este papel e jogá-lo fora. Não há nenhuma lata de lixo por perto. Descerei na próxima estação. Quem sabe na rua eu encontre.

Mergulho eternamente para dentro de você, barulho que me enlouqueceu! Con te partirò…

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