Livro de família (parte 1)


Marcas de meio século

Cinco anos após sua primeira filha ter nascido, Julia teve uma gravidez ectópica (quando a gestação ocorre fora da cavidade uterina). Ela não sabia que estava grávida. Sofreu vários desmaios e quando foi ao hospital, constataram uma hemorragia interna.

“Quase bati com as dez, mas sobrevivi; e perdi uma trompa”, diz, para depois completar com a informação que os médicos deram: “Eu nunca mais poderia engravidar. Era impossível eu ter mais um filho”.

Depois de sete anos, engravidou. Mas a esposa de Roberto não aceitou a gravidez. E só descobriu que estava grávida aos seis meses: nenhum exame diagnosticou a gestação. Foi um parto de grande risco para a vida do bebê e da mãe, por causa da idade dela, 37 anos.

As contrações começaram no dia do aniversário de Julia, 31 de maio de 1993. “O médico disse: ‘A senhora não trouxe bolo para comemorar o seu aniversário, então seu filho só vai nascer amanhã’.” E foi o que aconteceu. Aos 30 minutos de 1º de junho, nascia Rafael (este mesmo que escreve), a quem a mãe chama de “minha menopausa”. São inseparáveis.

Sangue espanhol

Julia Iglesias dos Santos, 55, é filha de espanhóis radicados no Brasil. Nasceu na rua da Graça, no Bom Retiro, com a ajuda de uma parteira – que era responsável pelo salão no qual Julia frequentou bailes durante a juventude.

Seu pai, José Iglesias Iglesias – fruto de um casamento entre tio e sobrinha –, foi cavaleiro do exército franquista. Ele foi obrigado a “defender” o país (em épocas de Guerra Civil e Segunda Grande Guerra): “Mandavam ele cavar buraco e depois fuzilar as pessoas”.

Ela recorda de que a frase preferida dele era “Me cago en Diós”, o palavrão dos que poderiam ser excomungados.

Um resumo do patriarca, para Julia, é afirmar que ele só dizia o necessário; e que entendia as tímidas demonstrações de afeto dele. “Nós éramos muito apegados.”

Mãe de Julia, Urbina Perez Iglesias era prima do marido. Eles eram vizinhos, em uma cidade do interior da província de Pontevedra, na Espanha.

Com o grande índice de desemprego naquele país, eles resolveram tentar a vida em território tupiniquim: primeiro, vieram José e o sogro, Avelino. Seguindo a tradição, o restante da família só viajaria quando eles enviassem, por navio, aviso de que estavam bem no outro lado do oceano. Chegado o recado, Urbina e sua primeira filha, Maria Esther, navegaram até o Brasil: “Elas contavam que do barco só se via água e céu. E quando chovia, balançava, entrava água dentro do navio; que era muito assustador”.

Dona Urbina, 81, com sua timidez, diz apenas que Julia “é uma filha muito boa e que gosta muito dela”. Julia ouviu isso por telefone, com os olhos cheios de lágrimas, durante a entrevista. A frase foi traduzida, pois a espanhola, apesar de estar no Brasil há quase 60 anos, não fala português. “Mas entende tudo!”

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Livro de família

Em comemoração ao dia das mães, o Reticência Jornalística publica em maio uma série de cinco textos que formam um perfil da mãe do autor do blog.

Parte 1: 10 de maio de 2012 – Marcas de meio século / Sangue espanhol

Parte 2: 15 de maio de 2012 – Lembranças infantis

Parte 3: 20 de maio de 2012 – Alianças

Parte 4: 25 de maio de 2012 – As dificuldades

Parte 5: 31 de maio de 2012 – A vontade de ajudar

Agradecimentos

Ao jornalista Claudio Julio Tognolli, pelas críticas e sugestões. À Amanda Rolim de Souza, amiga que ouve todas as minhas ideias. E à minha mãe, claro, que resolveu contar essa história que agora relato para vocês.

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8 comentários em “Livro de família (parte 1)

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