Livro de família (parte 2)


Lembranças infantis

“Quando eu era criança, a gente brincava nos canos de esgoto, quando estavam asfaltando a rua”, conta Julia, sentada perto de um modesto jardim, onde – como diria Sérgio Porto – outrora houvera uma roseira que morreu de solidão.

Sua primeira professora era “alta, tinha cabelos curtos, castanhos, e era muito bonita; se vestia muito bem e devia ter muito dinheiro”. Ela diz ter uma imagem perfeita da educadora na mente, apesar dos mais dos mais de 50 anos de distância no tempo. Nessa época, Julia tocou numa bandinha da escola. “Eu não lembro qual era o instrumento, acredita?”

Mas nem só de brincadeiras viviam as crianças da segunda metade do século passado: Julia tinha também um bichinho de estimação: um porquinho. A família tinha criação, em pleno centro de São Paulo, de porcos e galinhas, para consumo próprio. O amor com o bichinho, contudo, acabou numa véspera de Natal.  “Eu era apaixonada por um dos porquinhos; minha mãe ia matar logo ele para a gente comer na ceia. Eu chorei muito, enquanto o porco não morria e ficava gritando de dor.”

Julia começou a trabalhar “quando já tinha passado da idade de começar”: com 14 anos. Foi arquivista de uma gráfica e passou a estudar à noite, para ajudar os pais, que eram donos de uma mercearia. E dividia o tempo de trabalho com a escola e os amigos.

Dona Urbina não tinha dinheiro para comprar roupas e viu-se obrigada a aprender o ofício de costureira. “Mamãe costurava os uniformes, que naquela época eram obrigatórios – não era que nem hoje.” As meninas vestiam-se com saia azul marinho pregueada, camisa branca, gravata azul marinho, sapato preto, meias três-quartos brancas e fita na cabeça.

Apesar de ter sido campeã de queimada e tênis de mesa, além do Concurso Interno de Matemática da Escola Estadual Roosevelt Freire, Julia recebeu um convite nada agradável: “A diretora me pegou cabulando aula com os amigos – para ir ao cinema – e me deu cartão vermelho: me convidou a deixar a escola – e os meus amigos, nada”. Ela estava na 6ª série.

Quando peço que conte o tema de suas conversas com amigos, ela cita a música “Je t’aime moi non plus” (eu te amo mais ainda), cantada na década de 70 por Jane Birkin e Serge Gainsbourg. “Essa música era proibida.” E eles a ouviam porque falava de sexo, e era a única maneira de eles ouvirem algo relacionado a isso, naqueles anos.

“A gente vivia de bailinhos no fundo de quintal. Nosso divertimento era esse”, relata. Outra diversão era “navegar dentro de pneus sobre as águas da enchente”. A brincadeira com seus amigos nunca resultou em afogamentos nem em doenças. “Acho que a água do rio era mais limpa, sei lá.”

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Livro de família

Em comemoração ao dia das mães, o Reticência Jornalística publica em maio uma série de cinco textos que formam um perfil da mãe do autor do blog.

Parte 1: 10 de maio de 2012 – Marcas de meio século / Sangue espanhol

Parte 2: 15 de maio de 2012 – Lembranças infantis

Parte 3: 20 de maio de 2012 – Alianças

Parte 4: 25 de maio de 2012 – As dificuldades

Parte 5: 31 de maio de 2012 – A vontade de ajudar

Agradecimentos

Ao jornalista Claudio Julio Tognolli, pelas críticas e sugestões. À Amanda Rolim de Souza, amiga que ouve todas as minhas ideias. E à minha mãe, claro, que resolveu contar essa história que agora relato para vocês.

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7 comentários em “Livro de família (parte 2)

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