Livro de família (parte 4)


As dificuldades

Rafael, o filho caçula, também conhecido como eu,  tinha um ano quando Julia teve que cozinhar do tanque, com carvão, por quase um mês. Não por falta de dinheiro, mas por problemas na distribuição de algo essencial. Na época, as empresas não estavam distribuindo gás de cozinha, todo mundo tinha botijões cheios e ela acabou ficando sem.  “Ninguém me ajudou”, lembra do triste ano de 1994. “Mas hoje é gostoso olhar e ver como era essa época, apesar disso, era uma beleza. Tudo uma aventura.”

Roberto, marido de Julia, acabara de perder o emprego nas Lojas Americanas. Ele implantava auditorias em lojas de todo o país. A falta de dinheiro fez com que Julia usasse sacolas de supermercado para usar como calça plástica para o bebê. “Era de bem qualidade do que as ‘verdadeiras’, se você quer saber.”

“Eu não pedi ajuda para ninguém nem falei da minha vida – até hoje, minha mãe não sabe dessas histórias. O problema era meu, e era eu quem tinha de resolver. E resolvi.” Com essa publicação, dona Urbina — mãe de Julia — continuará sem saber, já que não conhece sobre computador mais do que o próprio nome da máquina.

Num bairro desconhecido, longe da família, Julia começou a trabalhar como faxineira à tarde, enquanto Fernanda, então com 13 anos, cuidava de Rafael.

Após anos de uma significativa melhora nas condições econômicas da família, Fernanda engravidou. Julia não aceitou. E disse que não criara a filha para isso. “Ela olhou para mim e pediu desculpas.” Quando a neta nasceu, foi uma festa enorme, junto com grande felicidade: “A criança não tinha culpa”.

Julia não precisou dizer para Fernanda ir trabalhar, a menina o fez por conta própria, mudando os estudos para o período noturno, enquanto a mãe cuidava de Luana, como foi batizada a criança.

Luana completará 15 anos em 2012. “É chata e difícil como a mãe.” A primeira filha de Julia, depois de anos, resolveu dar outro presente à mãe: ficou novamente grávida, agora, com planejamento.

No dia da consciência negra de 2008, Fernanda passava pela avenida Paulista quando a “bolsa” estourou. Mudança de rumos para a maternidade. Matheus nasceu às 12h12 — aos três anos, hoje ele é fã de Chaves. “A enfermeira que falou com a Fernanda, quando ela chegou ao hospital, se chamava Florinda”. Cose della vita.

Julia conta, rindo, que a filha “fica brava quando dizem que a primeira palavra do Matheus foi ‘titio’ e quando ele começou a andar os primeiros passos foram para você”. O “você” sou eu, o melhor tio do mundo.

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Livro de família

Em comemoração ao dia das mães, o Reticência Jornalística publica em maio uma série de cinco textos que formam um perfil da mãe do autor do blog.

Parte 1: 10 de maio de 2012 – Marcas de meio século / Sangue espanhol

Parte 2: 15 de maio de 2012 – Lembranças infantis

Parte 3: 20 de maio de 2012 – Alianças

Parte 4: 25 de maio de 2012 – As dificuldades

Parte 5: 31 de maio de 2012 – A vontade de ajudar

Agradecimentos

Ao jornalista Claudio Julio Tognolli, pelas críticas e sugestões. À Amanda Rolim de Souza, amiga que ouve todas as minhas ideias. E à minha mãe, claro, que resolveu contar essa história que agora relato para vocês.

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4 comentários em “Livro de família (parte 4)

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