Livro de família (parte 5 – final)


A vontade de ajudar 

Com o filho em escola municipal, em 2002 Julia iniciou — com outros 11 pais e mães de alunos –, uma equipe de voluntários, já que a Escola Comandante Gastão Moutinho (aquela mesma de alguns posts polêmicos) não tinha funcionários suficientes para atender às crianças.

“A direção da escola recebeu muito bem a gente. Mas, claro, não sei o que falavam de nós por trás”, desconfia.

Julia conta as mais diversas histórias sobre a escola. Um dia, a amante do pai de uma criança foi buscar uma menina durante a aula. A coordenação avisou à mãe, que veio até o colégio. Quando se encontraram, as duas se estapearam, numa briga em que sobrou tabefe até para a diretora em exercício (que na realidade era a assistente de direção, já que a titular do cargo era mais ausente do que deputado no Congresso em semana de feriado).

A mãe de Fernanda e Rafael viveu momentos de tristeza durante o voluntariado: “Um inspetor de alunos, que era gay, estava na casa de um namorado quando o amante desse namorado entrou e deu um tiro no olho dele. Foi muito doloroso para nós, que éramos muito amigos”.

Mas nada foi tão chocante quanto a história de um aluno – cujo nome ela não revelou. O pai de um menino estava preso e quando foi solto, esperou os filhos saírem para estudar e matou a esposa com facadas. Os filhos (um aluno de 8ª série e um pequeno, do pré-primário), ao voltarem da escola, encontraram o corpo da mãe, do jeito que havia sido deixado pelo assassino. Professores da escola, que foram ouvidos para confirmar detalhes da história, concordam que o choque foi realmente muito grande para todos, inclusive para os alunos.

Julia deixou o voluntariado depois de seis anos, quando nasceu o seu segundo neto, Matheus – filho de Fernanda, como já foi contado nos “capítulos” anteriores.

Atualmente, ela cuida de uma idosa portadora da Síndrome de Down, que é irmã da madrinha de seu filho. “Comecei a ajudar, porque todas as pessoas boas merecem. A família confia muito em mim, e eu confio muito nela”, desabafa, tomando uma xícara de café, quando o sol começara a desaparecer.

“Parece que vai chover… É que, sabe, eu lavei os vidros hoje”, reflete, ao ouvir um zumbido temível do vento.

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Livro de família

Em comemoração ao dia das mães, o Reticência Jornalística publica em maio uma série de cinco textos que formam um perfil da mãe do autor do blog.

Parte 1: 10 de maio de 2012 – Marcas de meio século / Sangue espanhol

Parte 2: 15 de maio de 2012 – Lembranças infantis

Parte 3: 20 de maio de 2012 – Alianças

Parte 4: 25 de maio de 2012 – As dificuldades

Parte 5: 31 de maio de 2012 – A vontade de ajudar

Agradecimentos

Ao jornalista Claudio Julio Tognolli, pelas críticas e sugestões. À Amanda Rolim de Souza, amiga que ouve todas as minhas ideias. E à minha mãe, claro, que resolveu contar essa história que agora relato para vocês.

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2 comentários em “Livro de família (parte 5 – final)

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