As aventuras dos focas ratos


Dos galhos secos de uma árvore qualquer, onde ninguém jamais pudesse imaginar, uma folha soltou-se e flutuou pelo ar até bater na cabeça de um jovem. Susto. Ele para o corpo e gira a cabeça para ver se há alguém atrás dele. Era muito cedo – ou tarde demais – para dizer adeus ao seu cabelo, naquela sexta-feira da semana de trote universitário.

Um corredor escuro, ermo, frio, onde os passos faziam eco no silêncio. Se o jovem havia cruzado com uma placa assinalando “Enfermagem”, aquele poderia, sim, ser o necrotério. Mas não, havia lá uma sala com a numeração “104”. Uma sala pequena, com pouca ventilação, e sem ventiladores, com carteiras velhas e verdes – uma cor ao mesmo tempo nostálgica e medonha, no contexto.

Um homem de cabelos longos e bagunçados estava sentado à mesa do professor. “Turma de jornalismo, primeiro semestre?”, pergunta o jovem. “Não, tio”, responde o homem. O calouro indaga se aquela é, de fato, a sala 104 do prédio 9. O professor, impaciente, apenas responde: “Esse é o prédio 2, você não olha as placas? O 9 é esse da frente, do outro lado da ‘avenida’”. A avenida é um espaço, dentro do campus, que divide os prédios.

Encontrada a classe, o jovem sentou-se num lugar próximo à janela. No mesmo momento, entravam três garotas. Talvez, as três tivessem o mesmo nome de Mariana. Uma dessas abre a boca para a sala, causando uma primeira impressão: “Essa sala é muito escondida. Esta sala é tão escondida, que parece um buraco de rato”. Para a gargalhada geral – para o bem de todos e felicidade da nação –, o grupo foi batizado naquele momento como a Turma da Ratoeira de Jornalismo. (Sim, o leitor atento perceberá que a turma de jornalismo está num prédio cuja placa na entrada informa ser de enfermagem. Qualidade FMU.)

Vida que vem e que vai

Se as Faculdades Integradas Alcântara Machado (FIAM) surgiram em fevereiro de 1972, portanto, completam 40 anos neste 2012, é de se imaginar que desde a época do único e modesto prédio no Jabaquara até as novas instalações dentro das Faculdades Metropolitanas Unidas (FMU) tenham se formado diversas e diversas turmas malucas, com nomes esquisitos, como a Ratoeira. Mas por que raios falar do passado? O que está acontecendo é mais divertido.

Menos, claro, no valor da mensalidade.

E veja que é assim desde a época Fábio Lucas Magnoni Neves, um dos três filhos de Milton Neves (“O que mais se parece comigo, portanto, o mais bonito da família”). O pai famoso do ex-aluno conta, na frente da agora diretora da faculdade e coordenadora do curso de jornalismo, Marcia Furtado Avanza: “É, meu filho estudou aqui na FIAM. Aliás, era caro pra caralho”. Os alunos que ouviram a declaração concordaram, em uníssono: “Ainda é!”. Na mesma noite, que foi de uma palestra, Milton aproveitou para reclamar de outra coisa, da água: deveria ser de outra marca, que patrocina o programa dele. Esse aí não desperdiça uma oportunidade.

Dizem as más línguas (ou as boas, quem sabe?) que a FIAM tem uma parceria com o Grupo Bandeirantes de Comunicação, além da Folha de S. Paulo, cujo chefão, o já falecido Octavio Frias de Oliveira, dá nome à Cátedra de Jornalismo, que recebe profissionais do Grupo Folha.

A Ratoeira marcou presença, inclusive, em debates com Fernando Gallo, então repórter, e Renata Lo Prete, então colunista (ela, por entrevistas com Roberto Jefferson, desencadeou o escândalo do mensalão) – ambos, claro, da Folha. Pouco tempo depois das palestras, os dois mudaram de empregos: aquele foi para o Estadão; esta, para a Globo News ­– segundo os sites de fofocas, digo, sobre jornalismo, ela saiu brigada do jornal. Ela disse aos alunos: “O bom jornalismo é resultado de declarações de gente com interesses contrariados, sempre”.

O grupo de faculdades de comunicação pode até ter nomes lendários no jornalismo no corpo docente. Na contramão, alguns alunos, entretanto, principalmente os da noite, demonstram uma certa impaciência com as palestras. No auditório, os alunos pensam (leia-se: sonham) alto: “Espero que a professora me veja logo, para dar presença e eu ir embora”. A professora idolatrada naquele lugar é Mairê, uma publicitária.

À noite, as aulas começam quando o relógio marca o horário da Voz do Brasil (“Em Brasília, 19 horas.”), mas os alunos se dão ao luxo de chegar uma hora atrasados e ainda reclamar de que os poucos lugares vagos no auditório os deixam separados do restante da turma. Uma gritaria incessante, que até Deus desiste de ceder lugar aos infelizes. Só de castigo. Nem os nossos ratos focas escapam, apesar de estudarem pela manhã.

Palestra em faculdade não é palestra em faculdade se algum aluno do primeiro semestre não pedir dicas para quem está no centro do palco. Na quarentona FIAM não é diferente. Numa vez, já em 2012, Vaguinaldo Marinheiro, repórter especial da Folha, faz as vezes. A dica? Desconfiar. “Desconfiar é fundamental. No jornalismo você não pode ter certezas; se tiver, será um péssimo jornalista. Tem certezas? Vá fazer Exatas, para destruí-las.”

Famosos – ou não

Celso Cardoso, apresentador do programa Gazeta Esportiva (TV Gazeta) e cantor nas horas vagas, também conversou com os ratos. A serelepe turma praticamente obrigou que ele mandasse um recado, ao vivo, no programa.

“Hoje, ministrei palestra na FIAM e quero mandar um abraço para todos, especialmente para a Turma da Ratoeira, muito animada”, disse ele, pasme: na televisão! E ainda nos convidou para um show.

A galera, da FIAM para a Gazeta. Agora falta passar da Gazeta para o YouTube e do YouTube para o mundo. Talvez a Turma da Ratoeira fique tão famosa e mundialmente conhecida como “Reginho e a Banda Surpresa” do jornalismo nacional.

Representada no show, no Centro Cultural São Paulo, a classe de focas serelepes foi obrigada a confirmar: o cara canta bem, comparado a Roberto Justus e a Susana Vieira.

Quanta gente, quanta alegria

A Ratoeira acolheu duas estrangeiras.

Uma delas chama-se Engracia. Julieta, de Shakespeare questionaria: “Que há num simples nome? O que chamamos rosa, com outro nome não teria igual perfume?”. Talvez sim, talvez não. O fato é que a moça é russa, com traços angolanos, coração holandês, sotaque português e “calor” brasileiro.

Os ratinhos descobriram isso enquanto o orvalho caía numa manhã de outono, quando aconteceu “uma amigável tentativa de círculo” ao redor dela e de uma outra moça, como descreveu Natalia Danielle Kitajima.

A outra moça: “Sou Denise, vim de Cabo Verde, tenho 21 anos, vivo com a minha mãe e meu irmão”. A mãe da bela africana é apresentadora de um Jornal da Noite, na TCV daquele país.

Natalia foi quem fez o melhor perfil de Denise – que estudava na Inglaterra –, e conta: “Quando o primeiro-ministro David Cameron autorizou um aumento [de mensalidade] nos cursos superiores e o custo subiu para 10 mil libras anuais [mais de R$ 31 mil], ela ficou impossibilitada de continuar os estudos na London Metropolitan University. Ao mesmo tempo, o fato abriu-lhe a oportunidade de um novo desembarque em terras desconhecidas”. Assim, a cabo-verdiana veio parar no território tupiniquim.

Influenciada pelo jornalista angolano Ernesto Bartolomeu, Engracia viveu grande parte de sua vida na Holanda, onde foi apedrejada por um grupo de skinheads em uma cabine telefônica. Segundo o rato Felipe Szpak, “aqui [no Brasil], ela percebeu que não era como imaginava, cheio de violência e pobreza, e isso a incentivou a ficar”. Porque, obviamente, a imagem brasileira no exterior é aquela do “mundo cão”.

A Turma da Ratoeira é assim.

Todos conhecem um mínimo da vida dos colegas, ao máximo possível (ainda que, vá lá, isso seja contraditório). Recentemente, a propósito, descobriu-se que uma colega doa panetones aos pobres de Parelheiros – com isso surgiu a campanha #PrayForParelheiros.

Na faculdade, apesar das disputas do mercado de trabalho, todos conseguiram estabelecer vínculos de amizade. No final de tudo, todos estarão sentados na rua, tomando cerveja e discutindo o futuro da vida e o futuro dos sonhos, talvez até o futuro do pretérito. Porque, como escreveu o espanhol Pedro Calderón de la Barca, “toda vida é sonho, e os sonhos, sonhos são”.

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