Embarque nesse carrossel


A menina ficou sozinha no pátio, acolheu com as mãos um lanche abandonado e o comeu.

Tudo começou quando Maria Joaquina Medsen contava às colegas que a cozinheira contratada por sua família era a melhor da cidade – e por isso fazia os melhores lanches. Esta menina, entretanto, ao pegar seu sanduíche, constatou que a tal empregada da família não havia usado queijo fresco – o pão recheado, portanto, não seria digno de que ela o comesse. Deixou o lanche, por isso, jogado sobre um banco do pátio do colégio.

Carmen Carrilho olhou timidamente para a comida jogada. Esperou que as meninas, suas colegas, saíssem de cena. Caminhou lentamente. Rumo ao lanche. Sentou. Pegou o sanduíche. E o comeu. A mãe da menina não tinha dinheiro para comprar o lanche do recreio de Carmen.

A história narrada foi ao ar na novela “Carrossel”, do SBT. Não recordo se a adaptação desse caso é fiel ao roteiro original, o mexicano. Mas desune os catetos da hipotenusa (Jaime Palillo não curtiu isso), para que possamos ter margem para discutir em que ponto está essa realidade.

Durante os últimos dias, conversei com funcionários de escolas, professores, pais de alunos e com os próprios alunos, sobre essa questão. Em escolas públicas, é comum a resposta afirmativa à pergunta: há alguma criança, ou adolescente, que tem dificuldades para se alimentar, em casa? Alguns – os funcionários, principalmente – relatam que é comum ver crianças que “só entram na escola para comer”. “Tem aluno que foge de aula e vai ao refeitório, tentar pegar alguma fruta ou o que tem para comer”, conta uma servente.

Os alunos dizem que isso acontece mais pelo desleixo dos pais, que deixam os filhos sozinhos em casa durante todo o dia, sem uma comida preparada. Os pais se defendem: é preciso trabalhar para colocar a tal comida dentro de casa.

O fato é que estudantes (não é possível dizer muitos, nem poucos, diante de uma observação sem comprovação por pesquisas), sejam eles crianças ou adolescentes, aproveitam bastante do momento escola para aliviar a fome. Segundo professores, meninos e meninas do ensino fundamental, que almoçam na escola – independentemente do horário –, se preocupam mais com o cardápio das merendeiras do que com o boletim bimestral ou semestral com o resultado das avaliações.

Uma professora, de uma escola que distribui alimentos gratuitamente e também tem uma cantina que vende lanches, reclama que uma vez emprestou 2 reais para “um aluno qualquer, sei lá”, sabendo que ele tinha fome e não condições financeiras: “O moleque nem me devolveu o dinheiro, nem agradeceu e disse que não queria comer no refeitório, porque ‘o que vende na cantina é muito melhor’. Quem entende?”.

Em “Carrossel”, os pais das crianças amigas de Carmen, sugeriram construir uma lanchonete que distribuiria comida aos alunos, sem custos. Na nossa realidade, os governos e as prefeituras (por piores que sejam), contribuem com a alimentação nas escolas – inclusive, é admirável que ainda distribuam leite em pó na rede pública municipal, uma coisa que começou com um cara nada do bem –, mas os olhares precisam ser voltados ao que há além da escola: as condições de cada caso de cada família.

Com os Carrilho, da Carmen, da ficção, o pai abandonou a mãe e os dois filhos, e por estar desempregado, não paga a pensão. Na “vida real”, esse problema também é grande, mas não é único. A falta de oportunidade de estudos em outras épocas para os pais, a exploração de mão-de-obra e a pseudovontade dos representantes do povo em ajudar totalmente o desenvolvimento familiar podem ser perspectivas jogadas dentro do caldeirão, com tantas outras mais.

Costumam dizer alguns educadores que o bom futuro das crianças começa, principalmente, em casa, antes da escola. E não é diferente nesses casos.

Criticar é infinitamente mais fácil do que dar soluções. Eu mesmo, não tenho a mínima ideia sobre o que é possível fazer. Mas essa não é a minha função individual. O ideal que todos embarquem nesse carrossel de pensamentos sociais. Como diria Cirilo, eu só quis dizer…

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