Anotações sobre Gastão Moutinho


Em setembro do ano passado, este blog publicou que a Escola Municipal de Ensino Fundamental Comandante Gastão Moutinho estava cobrando para exibir filmes. Cobrando para exibir filmes durante o horário letivo. Durante o horário letivo para que os alunos conseguissem arrecadar o dinheiro necessário para a festa de formatura.

A reportagem foi publicada no dia 15 daquele mês, após quase trinta dias de apuração. Antes disso, no último dia de agosto, uma crônica foi postada revelando o processo de apuração como “curiosidades” dos bastidores. Nesse texto, relatei que uma contradição da diretora que estava em exercício à época. (E que já era diretora da mesma unidade escolar – ainda que fosse extremamente ausente – no período em que estudei lá, de 2000 a 2007.)

As primeiras palavras da senhora diretora: “Não te respeito como jornalista”. (…) Após a frase doce e simpática da toda-poderosa, olhei para uma lousa que estava na parede da direita, vista de onde eu estava sentado: havia uma placa, na qual lia-se as palavras “Respeite para ser respeitado.”, em vermelho, com fundo branco. (Leia a íntegra da crônica.)

À época, o recém-nascido Reticência Jornalística entrou em contado com a Diretoria Regional de Educação Jaçanã/Tremembé, órgão da Secretaria Municipal de Educação. Eles não haviam sido informados da iniciativa da escola. Escola que não quis mostrar as atas das reuniões que autorizaram a realização do projeto. Os pais afirmavam, entretanto, que o assunto foi de fato tratado na reunião, mas que “não levavam fé” de que fosse ser realizado.

A ideia, que surgiu com o grêmio estudantil (geralmente, o grupo de alunos bagunceiros que se reúne para perder algumas aulas em prol do benefício de alunos) era muito nobre em sua raiz. Mas foi mal realizada.

Não tive uma formatura no ensino fundamental, foi o modo como uma professora resolveu atacar aos alunos. Realmente, quando deixei a escola, nós alunos, consenso, decidimos que não faríamos festa. Tudo bem, apenas a festa de nunca mais ter que estudar naquela escola. Enfim, não vem tanto ao caso.

O grande ponto da crítica que fiz e na qual fui acompanhado pelos pais que entrevistei foi a realidade de os alunos perderem o horário letivo para bem do entretenimento. Principalmente dos professores. Num dia de seis aulas, nas três primeiras os professores faltavam; nas três últimas, cujos professores estavam na escola, os alunos eram mandados para outro lugar, para assistirem aos filmes.

Sim, já fui aluno, sei que fazemos de tudo para não ter uma aulinha aqui, uma aulinha ali. Mas quem manda na escola não é o aluno. Não é disso que os professores tanto reclamam? Que não conseguem dar aulas porque os alunos acham que são os donos do mundo. A direção não teve a capacidade de perceber a tamanha (com o perdão da palavra) besteira que fazia. A coordenação, sensata, disse: “Erramos”. Ainda que num tom apaziguador.

Outro ponto questionado foi a utilidade dos filmes para o conteúdo das aulas. A diretora afirmou que “todos os filmes tinham teor educativo”. Daí que contei para ela que eu sabia quais eram os filmes e os listei para ela, que não teve como negar. Ela continuou com a ideia de que “todos os filmes podem ser usados nas aulas”.

Sim, claro, o filme “A Órfã” (2009), dirigido por Jaume Collet-Serra. Sim. Uma mãe professora, desempregada, que tem problemas com bebidas alcoólicas, perdeu um filho durante o parto, adora uma criança com nanismo, que é vítima de bullying, resolve “dar uns pegas” no pai adotivo e depois mata todo mundo. Bastante interessante para crianças com 14 anos. Para incentivar o bullying, deixa-las com medo, talvez. O professor de ciências poderia bem dizer: “Isso é o que acontece com um anão”. Nada mais nos surpreenderia.

Sim, claro, o filme “Arraste-me para o inferno” (2009), dirigiro por Sam Raimi. Sim. Uma analista de crédito que nega um empréstimo para uma senhora, que joga uma maldição na pobre coitada. E ela tenta fugir da morte. Com toda a teoria do fim do mundo para 2012, é um bom filme para os professores de história e geografia deixarem seus alunos interessados? Não, não é. Porque é hipocrisia dizer que os alunos assistem a esse filme de terror, com grandes sustos, para estudar para duas matérias chatas na metodologia usada no ensino fundamental. Ou não. Porque nada mais nos surpreenderia.

A escola foi obrigada, por intervenção de uma supervisora de ensino, a devolver o dinheiro para os alunos. E isso foi feito, segundo a escola informou e os próprios alunos e a Secretaria Municipal de Educação confirmaram.

“Constatada a recomendação imprópria à faixa etária”, informa nota do órgão, “a direção foi orientada a proceder notificação de penalidade direta à professora responsável, nos termos do Decreto 43.233 de 22 de maio de 2003”, que pode resultar na exoneração da funcionária pública. (Leia a íntegra da reportagem.)

Semanas depois, a diretora se aposentou.

Quase dez meses depois da reportagem e da denúncia, ninguém foi punido pelas asneiras feitas com máscaras de boas intenções. Afinal, boa intenção seria a escola disponibilizar espaço, fora do horário de aula, para que essa iniciativa fosse realizada.

O ensino, porém, parou de ser prejudicado.

Não tanto, já que os professores adoram faltar bastante.

Mas esse é o futuro da nossa educação – o futuro do presente da nossa educação.

E este é um ano de eleições. Alguém nos proteja.

Fale conosco: reticenciajornalistica@uol.com.br

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