Alô, paixão!


A manhã do dia 4 de julho de 2012 teve um céu azul, com um Sol brilhando amarelo, nas cores do Boca Juniors. O tempo, porém, mandava que algumas nuvens escondessem esse brilho, vez em quando.

A noite do dia 4 de julho de 2012, teve um céu negro, pintado de branco por muitas estrelas, manchado de branco pela Lua. Tal qual uma bandeira infinita do Sport Club Corinthians Paulista. Tal qual uma bandeira eterna, como a do Sport Club Corinthians Paulista.

O filme de momentos importantes, como no final da vida (ou no início de uma vida nova) era exibido diante dos olhos marejados de 30 milhões de torcedores que entoavam o mesmo hino, em uníssono.

Morumbi, 1977. Zé Maria bateu uma falta pela direita e a bola flutuou para dentro da área pequena. A bola ficou com Vaguinho, que a chutou. A bola bateu no travessão. A bola caiu na cabeça de Wladimir, mas Oscar, da Ponte Preta, estava no gol – e também de cabeça, salvou. Os poucos segundos eram mais longos do que a vida eterna. Eis que no rebote de Oscar, a bola (pense em câmera lenta) vai para os pés do anjo Basílio, que mandou a bola para o fundo da rede da macaca. Loucura corintiana depois de 22 anos sem títulos, na conquista do Campeonato Paulista.

Morumbi, 1990. O time de Nelsinho Baptista contra o São Paulo de Telê Santana. No primeiro jogo, vitória. Com gol de Wilson Mano, o Talismã da Fiel Torcida, que saía do banco de reservas para decidir as partidas em favor do Timão. Mas, não. O jogo de volta. Ele, titular, Pedro Francisco Garcia, o Tupãzinho, que nasceu em Tupã, no interior de São Paulo. Tupã, Fabinho, Tupã, por baixo das pernas, Fabinho, bateu para o gol, voltou, Tupãzinho foi e… Disse Osmar Santos: “tirolirolá, tiroliroli (uma pausa dramática), e que gol!”. Tupãzinho é melhor do que Pelé! Diante de quase 101 mil torcedores no estádio do adversário, o Corinthians conquistava o primeiro Campeonato Brasileiro.

Maracanã, 2000. Final. Depois de largar Al Nassr, Raja Casablanca e Real Madrid para trás, chegava a vez de enfrentar o Vasco. No tempo comum, zero. Na prorrogação, zero. A emoção talvez explodisse nos pênaltis. No Corinthians, de Oswaldo de Oliveira, Freddy Rincón foi, bateu na trave e a bola entrou. No Vasco, de Antonio Lopes, o baixinho Romário foi, quase parou nas mãos de Dida, mas fez. Fernando Baiano e Alex Oliveira marcaram, um para cada lado. Luizão fez mais um para o Timão. Gilberto, Gilberto Melo surgiu com sua camisa 13 de azar – posicionou a bola, chutou: Dida defendeu. Já aí as lágrimas começavam a escorrem pelas faces corintianas. Edu e Viola fizeram gols, para paulistanos e cariocas. O Corinthians precisava de apenas mais um gol para vencer. Marcelinho Carioca. Era dele a chance de entrar para a história. Helton, entretanto, defendeu. Para desespero de uns. Para a alegria de outros, surgia o camisa 10 Edmundo, o animal, para a última cobrança da série, em busca do empate. Ele chutou a bola. À direita do goleiro Dida. À sua própria esquerda. Dida voou para o lado certo. A bola também voou. Voou para fora. Ou para dentro do coração dos corintianos. O Corinthians sagrava-se campeão, o primeiro campeão do Mundial de Clubes da FIFA. Inquestionável.  Indubitável.

La Bombonera, 2012. Maradona estava presente. Ninguém evitou Erviti, o argentino violento. Na metade do segundo tempo, Mouche cobrou um escanteio, a bola foi mandada para o outro lado do gol. Santiago Silva tento, de dentro da pequena área e Chicão cortou, no susto. Roncaglia, no rebote, marcou para os argentinos. Tristeza. Depressão. Mas surgia ele, Romarinho, o herói dos maloqueiros e sofredores. Paulinho roubou a bola na defesa. Emerson recebeu e deixou Romarinho na cara do gol. Este, na primeira participação no jogo, deu um toque por cima de Orion. E a bola. E a bola. Foi para o fundo do gol. O Boca se calou em casa.

Pacaembu, 2012. Uma semana depois. Sem Maradona. Sem Pelé, que queria dar a volta olímpica com o Corinthians, mesmo sendo ele santista. Porque a hipocrisia reina na hora de fazer média com a torcida adversária. Mas nada tiraria. São Jorge deu ao time a vontade de destruir os dragões argentinos. E Emerson, ele, Emerson, sim, Emerson, duas vezes, fez o mundo ter a certeza de que vai acabar mesmo neste ano. Tite e seu time medíocre venceram (talvez os hermanos tenham ficado humilhados) o bicho-papão, hexacampeão, Boca Juniors, do técnico Julio César Falcioni e dos jogadores Ledesma e Riquelme, este que, aliás, foi um dos piores em campo. Claudio Tognolli sugeriu ao árbitro: “Pegue o apito e Tóquio!”. Ele assim o fez.

E o Corinthians perdeu a sua virgindade da América. O Corinthians recebeu, pelas mãos de Alessandro, sua primeira taça Libertadores da América.

Acabou toda a graça do futebol. Chega de piadinhas, sentiremos saudades. Afinal, agora temos uma Libertadores e um Mundial (oficial, digam o que quiserem). O Palmeiras só tem uma Libertadores.

Está nisso a delícia do futebol: em provocar o adversário. Desde que isso seja um poço de bom humor e amizade, ainda que repleto de xingamentos.

E também, o meu time tem 100% de aproveitamento em finais de Libertadores. Sinta inveja disso.

O futebol perdeu um de seus grandes tabus. E Niemeyer já pode morrer, então, em paz. Custava ter esperado um pouco mais, dona Dercy?

O samba-enredo da Gaviões da Fiel do ano de 1995 convida: “me dê a mão, me abraça, viaja comigo pro céu”. Agora, levantam a taça, com muito orgulho, para o delírio da Fiel. Viajar para o céu é muito pouco. O Corinthians passa a desbravar outras galáxias.

O título é daquele corintiano que economizou no lanche ou na cerveja, como diria o poeta, tudo para ficar grudado naquele bendito alambrado.

O mundo é do Corinthians. Esqueçam a partícula de Deus.

Mas guarde bem os seus pertences. Porque, alô, paixão, em cada esquina sempre tem um Gavião!

Fale conosco: reticenciajornalistica@uol.com.br

Nota: estamos em férias.

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