Minhas férias


O salão era bem grande, tão grande quanto escuro. O piso parecia ser dividido em linhas de duas cores intercaladas. As paredes, eu identificava como brancas – apesar da escuridão, meus olhos míopes se esforçavam para enxergar algo além. Havia uma luz azul, do outro lado do salão.

Caminhei, curioso, atraído por um cheiro de cestrum nocturnum, que aqui na terrinha da garoa chamamos de dama-da-noite. Uma música começava a tocar. Sol, ré, mi menor, dó, sol, ré, mi menor, dó, sol, dó, ré com sétima. (Seja lá o que isso significa, foi o que eu ouvi.)

Do além, diante daquela luz azul, aparecia ela, a primeira Christine Daaé do musical do Fantasma da Ópera, com seu vestido longo e preto. Sarah Brightman, com aquele je ne sais quoi que só ela tem. Cantando, cantando que é time to say goodbye para mim.

Se todas as mulheres tivessem a voz que Deus deu a ela, ah, não existiriam traições, não existiriam divórcios, nem crianças chorando de madrugada. Ah.

Quando sono solo, sogno all’orizzonte e mancan le parole… lê, lê, lê; lê, lê, lê, se eu te pegar, você vai ver. Lê, lê, lê; lê, lê, lê, você jamais vai me esquecer.

Mio Dio, mas quem mudou a música?

Num desespero profundo, acordo e salto da minha cama. O despertador aponta: cinco horas da madrugada. O calendário parte o coração: segunda-feira. Um sonho.

Um sonho muito dos artísticos. E agora eu estou aqui, sentado nessa cadeira nada confortável, com os olhos quase fechando de sono. E você, dona professora, me manda escrever um texto com o tema “minhas férias”?! Oras, vamos!

Sei que a senhora ganha mal, sei que tem que controlar quatrocentos alunos por sala e que tem dois empregos. E seu marido também tem dois empregos. E que os chamados estudantes te xingam, colam chicletes na sua cadeira, enroscam bolinhas de papel nos seus cabelos (ou peruca, tanto faz).

Mas, pela alma de Freud – o cara que queria dar uns amassos na mãe –, custa usar um pouco mais de criatividade na hora de escolher o tema da maldita redação?

Se eu soubesse que o tema deste ano seria o mesmo de todos os outros passados, teria ficado em casa, comendo, dormindo e sonhando com a ex-mulher do Andrew Lloyd Webber.

Anda, vamos, dona professora, não custa pensar. A senhora teve, vá lá, quinze dias de férias, não pensou em nada nesse tempo todo. Até a minha avó, com seus oitenta e todos anos, teria o prazer de escapar do tédio que é esses trabalho que vocês dão aos alunos.

Sinceramente, estou de saco cheio.

Minhas férias foram novidade. O meu trabalho, aqui, este, esta droga, porém, é a mesma sempre. E você nem se interessa, professora.

Não, não, não, não. Deveria ser proibido esse tipo de coisa. É um tapa na cara dos anjinhos (leia-se: alunos).

Dona Dilma, a presidente pop, deveria mudar a frase dela. Pelo amor da educação e da criatividade, país rico é país sem redação “Minhas férias”.

Ma che!

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