Lente do telescópio


A lente de um telescópio, isso eu desejaria ser.

Não para poder observar sempre com nitidez e para trazer para perto as estrelas que cintilam ao longe, perdidas no infinito que se expande em si, insofismavelmente (ou não).

A lente de um telescópio, isso eu desejaria ser para mirar ao contrário dentro do aparelho. Mirar para dentro do corpo cilíndrico. Nessa possiblidade de foco, pois, encontraria e poderia visualizar um fenômeno muito mais eterno do que os corpos celestes que flutuam pelo espaço. O olhar.

O olhar humano desnudo de suas máscaras, procurando numa pequena janela circular o que se esconde detrás dos mistérios do universo.

Eu queria ser a lente de um telescópio, mas na posição de um anjo que olha o primeiro observador da outra ponta. Para desvendar as dúvidas da alma. Sentir olhos secos, consequência de rinite. Ajudar a emocionar os olhos que brilham a água que excede os limites do globo ocular.

Entre as lentes do telescópio se ocultam os sonhos da humanidade que procura no infinito ver um Deus invisível.

Quantas histórias foram caladas pela eternidade dentro de um simples tudo. Tantas palavras que foram escritas no suor úmido dos vidros que aproximam.

Vidros que nos aproximam do que existe apenas no pequeno conhecimento dos cientistas, no menor ainda conhecimento leigo.

Quantas paixões não reveladas morreram, ou adormeceram simplesmente, na escuridão de um céu com Lua cheia e quantas lágrimas se deixaram escorrer numa noite com um piano dramático.

O reflexo do olhar.

O reflexo do olhar que se pode captar no vidro da lente do telescópio e que aos poucos perde espaço para as estrelas. Como se estas penetrasse naquele olhar perdido. Como se planetas, galáxias ululassem dentro de um corpo celeste e terrestre, acomodado no jardim, repousando numa cadeira de plástico.

O olhar se mistura com as estrelas.

O olhar se mistura com as estrelas frente à lente do telescópio.

Frente à lente do telescópio, a vida passa a ser uma realidade vista do futuro, onde estaremos, o que faremos.

O que faremos quando todo o incerto do nosso vago destino humilde se concretizar, o que faremos quando tudo se tornar amor, o que faremos quando este texto largar os clichês e tratar de fazer algum sentido.

Algum sentido, dentro do olhar de alguém que ficou esquecido no presente, porque já é passado.

Passado como as estrelas que agora se apagam para abrir espaço ao que faz com que elas brilhem.

Brilhem no nada.

Nada impede que o Sol substitua as estrelas.

Estrelas que somem do olhar quando o dia clareia.

O dia clareia, fazendo sumir o reflexo de um olhar na lente do telescópio.

A lente de um telescópio, isso eu desejaria ser.

Fale conosco: reticenciajornalistica@uol.com.br

Nota: post dedicado à Bruna Alves.

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