(Des)Controle


Kassab, talvez, tenha sido quem mandou trocar as luzes da rua em que ele (o nosso personagem de hoje) mora. Ano eleitoral, sabe como é. Iluminação laranja, parece que a madrugada transformou o luar num pôr-do-Sol. Que quando some, é porque o Sol nasceu.

Cinco horas da madrugada. Segunda-feira. O ser humano acostumado com a escuridão – dos olhos fechados, relaxantes; da alma, escondida; das ruas, sem o Sol, que nasceria apenas uma hora e trinta e um minutos depois. Escuridão que não existe mais com a iluminação nova. Oras, de tanto reclamar da falta de segurança, esquece o quanto é bom ouvir grilos e ver o céu vazio, às vezes ocupado por morcegos, na cidade poluída São Paulo.

Um pássaro insiste, toda manhã, em bater com o bico na janela de alumínio de um quarto qualquer. Será que ele encontra seu reflexo? Será que ele por isso se apaixona? Narciso é o nome que deram a essa criatura voadora.

O breu do quarto é extinto com uma lâmpada que é acesa. Na escrivaninha, no dia anterior, um livro estava colocado, pronto para ser lido.

Os olhos lutaram contra a os raios luminosos que se expandiam sobre o pequeno aposento. Passados os ferimentos causados pelo choque do sonho escuro com a realidade de energia elétrica, um par de olhos atraentes (aquele que um olho atrai o outro, como diz Claudio Tognolli) é direcionado para o que seria o ponto de prazer melhor da segunda-feira, onde ele estaria: o livro, colocado sobre a escrivaninha de madeira da cor tabaco.

Uma explosão.

Gritos tímidos dão início a um escândalo: o sumiço de um livro de trezentas e poucas páginas. Não um livro comum, um livro que foi presente, em que estava, na primeira página, uma dedicatória. Onde estaria?

Desespero.

Começava errado o primeiro mandamento: o de acordar com tranquilidade. A pressão de encontrar o livro e o culpado pelo sequestro do livro tornou-se a programação do dia. Impossível gerenciar as tarefas, o tempo, com um problema tão grande.

Mais do que um problema, uma obsessão.

Um ser humano seria privado de sua atividade “física” mais prazerosa, a de estimular o intelecto. Um exercício que nunca, em excesso, seria ruim.

Lágrimas. Vozes. Gritando.

As tensões do corpo não cessavam com as tentativas de relaxamento. Nem o cheiro das flores daquele jardim precário conseguiu “falar mais alto”. Sequer Narciso, o pássaro de rua, distraiu da depressão intelectual que acometia o nosso personagem.

A mente era incapaz de se proteger da aceleração dos pensamentos, um mais destrutivo do que o outro. Qual conspiração existiria no sequestro daquele livro? Seria necessário investir em mudanças drásticas no “esconderijo secreto” dos montes de páginas com histórias, que por si sós já eram um refúgio?

“Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste? Mas perdoe-os, porque eles não sabem o que fazem”, chorava o sujeito, ajoelhado no chão, com as mãos tapando o rosto, o que deixava então sua voz abafada, quase incompreensível.

Raiva.

Como ele queria ter em mãos “O melhor do mau humor”, com as seleções de frases feitas por Ruy Castro. Queria ele poder ler as frases mais odiosas que todo o seu coração pudesse expressar por palavras de outros autores.

Entrou e largou-se no ônibus.

Furou fila para embarcar no metrô.

Recomendaram-lhe tai chi chuan. E ele respondeu que odiava a Xuxa.

Sugeriram-lhe acupuntura. E, então, alertou que enfiaria a agulha num lugar não muito agradável no corpo da pessoa que falou sobre o tratamento.

Outros arriscaram dizer que era estresse. Gritando mando todos para o inferno, citando Fernando Pessoa: “Vão para o diabo sem mim, ou deixem-me ir sozinho para o diabo! Para que haveremos de ir juntos?”.

O nosso personagem obcecado por um livro sequestrado de uma escrivaninha numa madrugada de pôr-do-Sol chorou, esperneou. Fez greve de fome. Reclamou de velhinhos que empurravam outros passageiros na estação da Sé. Voltou para casa, aos soluços.

Dormiu, acabado.

E o livro? E o livro nunca foi encontrado.

Fale conosco: reticenciajornalistica@uol.com.br

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