Salinha da santa


“Tenho quarenta e seis anos, moreno, cabelos pretos, com meia dúzia de fios brancos, um metro e 74 centímetros, casado, com três filhas e um genro, 86 quilos bem pesados, muita saúde e muito medo de morrer”, dizia sobre si José Lins do Rego. Como o escritor paraibano, um senhor contava a outro paciente (de paciência em escutá-lo, talvez) a sua vida.

O Sol no céu marcava metade de um dia, uma quarta-feira, na região central da cidade de São Paulo. Fui conhecer o Instituto do Câncer Dr. Arnaldo Vieira de Carvalho, que fica dentro daquele lugar enorme chamado Santa Casa de Misericórdia. Aliás, é um nome forte, diria até emocionante. Um hospital com misericórdia no nome. O lema é “uma vida dedicada à vida”.

Lá pela primeira vez, um pouco assustado pelo contato com tanta gente desconhecida e também por estar num hospital, observada aquele senhor conversando com um homem jovem, com aparência de não mais do que 30 anos de idade. Não conversei com ninguém. Apenas observava.

“Eu estou esperando o exame de sangue. Quando a gente faz exame de sangue, mandam a gente tirar o sangue ali, olhe [ele apontava para a direita dele, minha esquerda], na salinha da santa.”

Tirar sangue na salinha da santa? Qual seria o significado disso? Eu não sabia. Estava perdido no ninho, num lugar enorme. Uma adolescente passou por mim e me perguntou se eu sabia onde ficava a farmácia. “Não sei, não”, disse à moça, “mas você sabe o que é aquela sala que fica ali?”, perguntei apontando para a salinha. “É a salinha da santa. Meu avô está lá.”

Mas por que se chama salinha da santa? “Porque tem uma Nossa Senhora lá, uai.”

O óbvio ululante de Nelson Rodrigues, que eu não notei.

Voltei meus olhos para a área de espera, onde o velhinho conversava. Só que ele não mais estava lá. Resolvi então, continuar andando por um outro prédio, para conhecer. Uma ascensorista dizia a quem entrava no elevador: “Cuidado com o degrau e se segure”. Imagine.

Na minha caminhada pela entrada do prédio, comecei a pensar na tal santa. Voltei um pouco para passar por uma lanchonete que vendia alguns salgados muito atraentes.

Nossa Senhora, por que está lá na sala do exame de sangue? Se nós católicos dizemos que Maria é “mãe de Deus e nossa”, não bastou deixarmos que ela visse o sangue de Jesus escorrendo naquela cruz, também deixamos que ela veja o sangue dos pacientes lutando pela vida.

Poético, num ponto de vista da fé, digamos.

Quem tem um doente de câncer em casa, seria como a Nossa Senhora da salinha do exame de sangue: vê a dor e participa diretamente da dor, mesmo sem “feridas”.

Essas pessoas pedem a paciência e a força que Maria precisou para testemunhar o sofrimento de seu filho?

A fé tem respostas no coração de cada um.

Estima-se que a Irmandade da Santa Casa tenha sido criada por volta dos anos 1560. O Instituto do Câncer foi criado em 1920. Nesse tempo todo, talvez eu não consiga sequer imaginar um número de beneficiado por essas fundações filantrópicas.

Mesmo desconhecendo quase a totalidade do trabalho lá realizado, é possível agradecer a alguém de nunca conheceremos, que ficou no passado, mas que deixou isso tudo para o futuro.

Voltei ao quarto andar do primeiro prédio que citei, usando as escadas.

Enquanto subia o último degrau, aquele velhinho passava por mim, sorrindo e falando com uma senhora – imagino que sua esposa. Ele tinha um terço em mãos.

Ele dizia: “Vale a pena esperar”.

Fale conosco: reticenciajornalistica@uol.com.br

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