Beco dos milagres


Sob a penumbra, uma senhora idosa clamava: “Aflita se viu Maria aos pés da cruz, aflita me vejo hoje, salvai-me, ó mãe de Jesus”. A mulher estava ajoelhada diante da imagem de Nossa Senhora, ao lado da porta onde há uma placa em memória de Chaguinhas, um santo popular.

Escondida num beco do bairro oriental da Liberdade, a Capela Nossa Senhora dos Aflitos foi construída em 1779, na época em que o Brasil era colônia portuguesa (a independência foi proclamada apenas 43 anos depois). No local, quatro anos antes, fora inaugurado o primeiro cemitério público de São Paulo.

Destruída pelo tempo e por um incêndio na década de 1990, a pequena igreja não tem capacidade para receber mais de duas dezenas de fiéis, estes que costumam “lotar” o templo nas celebrações das missas com intercessão de Chaguinhas.

Sem nenhum milagre reconhecido pelo Vaticano e nenhum processo para que isso aconteça, católicos se perdem entre as ruas da cidade para bater três vezes na porta onde há a placa anunciando a morte de Francisco José das Chagas. Ele era um cabo brasileiro, que liderou uma revolta contra a falta do pagamento aos militares (chamado soldo). Por essa razão foi preso e morto em praça pública.

“A condenação de Chaguinhas foi um marco na cidade”, conta Ilth Maria, secretária da igreja. A lenda diz que, ao ver o corpo desabar da forca, a multidão reunida gritou “Liberdade!” e aí surgiu o nome do bairro.

“Muitas pessoas vêm aqui para agradecer e pagar promessas”, conta Ilth, no momento em que um senhor fazia um ritual de “sinais da cruz” sobre a testa, a boca e o lado esquerdo do peito, numa oração silenciosa que significa: “Pelo sinal da Santa Cruz, livrai-nos, Deus, nosso Senhor, dos nossos inimigos”. Com lágrimas nos olhos, ele faz uma reverência ao altar, se despede da secretária e vai embora. Momentos depois, retorna com café e pão e os entrega a um morador de rua, que observa todo o movimento da capela, atentamente, do lado de fora.

Uma porta descascada com a placa da morte de Francisco das Chagas também é local de ritual religioso: “A pessoa bate três vezes na porta, faz o pedido e a promessa. Há certa emoção e certeza de que será realizado”. Apesar do tempo e do incêndio, a porta resiste aos dias.

Apenas a base do altar e alguns outros detalhes do estilo barroco do interior da construção sobreviveram às chamas, que tomaram conta do igreja dos Aflitos, local que foi tombado como patrimônio histórico de São Paulo.

Com a degradação de toda a estrutura da capela, um projeto foi criado para a restauração total. Foi aprovada pelos órgãos responsáveis pelo patrimônio histórico e enviada ao Ministério da Cultura uma solicitação de R$ 1,5 milhão.

Desde outubro de 2011, quando o projeto foi enviado, até agora, nenhuma empresa se disponibilizou a contribuir com a Lei Rouanet, que beneficia a Capela dos Aflitos. “Parece que a igreja já desistiu da reforma, ali tem algumas latas de tinta!”, observa um universitário, apontado para o que seria uma espécie de mezanino.

Os problemas do pequeno templo, entretanto, não são apenas os da estrutura antiga. O sino da pequena torre não soa: foi fixado de uma maneira para que não seja roubado.

A igreja de Chaguinhas tem fama internacional, há placas de reconhecimento, por exemplo, da Espanha. “Pessoas que fizeram promessas, voltam aqui várias vezes por ano, porque tiveram a graça alcançada”, conta a secretária Ilth.

A Capela Nossa Senhora dos Aflitos, que fica próxima à Rua dos Estudantes, é aberta ao público de segunda a sexta-feira.

Fale conosco: reticenciajornalistica@uol.com.br

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