Quero ser primavera, depois morrer


O bandido é igual a você. O bandido é igual a mim.

O bandido, você e eu temos cérebro, somos dotados de inteligência. O bandido, você e eu temos rim (dois, um, depende), pulmões, coração, fígado, estômago, veias, sangue. O bandido, você e eu temos o que a religião e a filosofia chamam de alma. O bandido, você e eu temos vida.

O bandido, como você e eu, também pode escrever poesia. É isso que mostra o jornalista Caco Barcellos em “Rota 66”, um dos grandes livros-reportagem do país e dos meus preferidos: já preocupada com a demora do filho, a mãe entra no quarto dele e começa a mexer nas coisas. Barcellos relata que o menino adora escrever e que a mãe se emociona ao ler o último texto no caderno:

“Sinto saudades do tempo que não existiu para nós.
Saudades dos teus olhos que não me viram passar.
Saudades do carinho que não veio de você.
Do encontro que tivemos e não nos encontramos.
Sinto saudades até das saudades que não sentimos.
Da vida que não vivemos.
Quero ser primavera.
Depois morrer.
Só o silêncio é sincero”.

Nunca seremos primavera se precisarmos, depois, morrer.

Se, para os criacionistas todos surgimos de Deus, e se, para os evolucionistas surgimos do macaquinho bagunceiro do zoológico, todos viemos, afinal, de algum único universo na história do passado infinito. A mesma essência, portanto, é o que temos. Somos iguais, então, teoricamente.

Pois bem. Outro dia, naquilo a que chamam de rede social, o Twitter, comentei sobre um evento da campanha eleitoral de José Serra (PSDB), na Casa de Portugal (bairro da Liberdade), no qual estive presente com o objetivo de fotografar. No palco, com os políticos e os profissionais do jornalismo, fotografei o candidato tucano ao lado do ex-coronel da Rota Paulo Adriano Lopes Lucinda Telhada.

Reportagem do Diário de S. Paulo, assinada por Cristina Christiano, afirma que Telhada perdeu a conta de quantos bandidos matou ao longo da carreira. “Só sei que, em um ano qualquer foram 13”, disse ele à repórter.

José Serra, coronel Telhada (à esquerda) e Agnaldo Timóteo (à direita)

A foto do candidato a prefeito com esse candidato a vereador é uma ligação subjetiva que se pode fazer. Um dia antes, o governador de São Paulo e correligionário de Serra, Geraldo Alckmin, disse que “quem não reagiu está vivo”, após uma ação da Rota que matou nove suspeitos. Suspeitos. Um afirmação fria, que demonstra claramente que a preocupação dos políticos é aquela de que “bandido bom é bandido morto”.

Se todos somos essencialmente iguais, inclusive perante a lei (que lei? no Brasil?), me causa repulsa e muito medo o futuro da população na mão de gente que pensa dessa maneira.

Inclusive, simpatizantes do coronel Telhada estão ameaçando o jornalista da Folha André Caramante. Segundo André Maleronka, da Vice, “a matéria estopim dessa onda de ataques ao jornalista reportava que o candidato fazia apologia à morte de suspeitos em sua página oficial numa rede social”.

Mas, ora tatu-bolas da Copa do Brasil, não bastasse esse candidato, o Russomanno (PRB), que era do partido do Maluf – este que agora é amiguinho do Haddad (PT) e do Lula –, tem o apoio do também matador, também da Rota, Roberval Conte Lopes. Este, disse uma vez, segundo o mesmo livro de Barcellos: “Agora não adianta chorar. Está morto, acabou. Olha bem pra mim: fui eu que o matei”.

Olhe bem para ele, agora, foi ele quem matou tanta gente, assim como o tal Telhada.

Pombas, por que cheguei até aqui? Ah, sim, o Twitter.

Uma tal de senhora, que se descreve como amiga da Polícia Militar do estado de São Paulo, “especialmente do Choque”, atacou o comentário, dizendo: “Não sou igual a nenhum dos marginais mortos. Espero que você também não seja”.

Eu sou igual aos marginais mortos. Sou um ser humano, como eles. E marginais? Mas eram apenas suspeitos nesse caso da Rota, em que citei o governador Alckmin, não?

Se não somos iguais aos suspeitos, somos o que, ETs? Com a pele verde, antenas na cabeça, dedos finos e longos, com olhos esbugalhados? “Tem razão, senhor. Somos ET, a maioria esmagadora da população do meu Estado e eu”, respondeu a tal mulher.

Acho que estou equivocado ao considerar que a polícia brasileira é violenta, porque se até o Conselho de Direitos Humanos da ONU pediu a luta contra esses “esquadrões da morte”, em maio deste ano.

Aliás, além de violenta, podemos dizer que a polícia é um pouco burra quanto à lógica. Cito ainda Barcellos, que informa: “para salvar um toca-fitas, os homens da Rota estão gastando, por minuto, o equivalente ao preço de mais de noventa toca-fitas”.

É preciso, especialmente neste período de eleições, ficar atento a quem se atenta positivamente aos Direitos Humanos, para que não vejamos mais cenas como aquela no menino da poesia citada no começo deste texto, que sofreu tudo a seguir por um roubo de toca-fitas de carro. “Os policiais da Rota metralharam o motor (do carro em que estava), o vidro traseiro, que se estilhaça”, conta Caco Barcellos. Os policiais atingem em cheio a cabeça do jovem. O impacto da rajada lança o corpo dele para frente. Num mesmo movimento, ele bate contra o banco do motorista, depois vai se inclinando à esquerda até o rosto encostar no vidro lateral, que fica manchado de muito sangue.

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