És mortal


“Eu sei, você sabe, se a gente tiver humildade, a gente cresce”, disse Mario Sergio Cortella, em um auditório cheio de universitários da área de comunicação.

Comentarista da rádio CBN, ele explica que a melhor maneira de ficar vulnerável é achar que está invulnerável, que a melhor maneira de ficar inseguro é não ter dúvidas. “O Comando Militar do Sudeste tem medo de ficar ultrapassado, por isso estamos aqui: pela coragem de enfrentar esse medo”, afirma em tom ousado, diante de um general, na abertura do VI Ciclo de Comunicação Social realizado pelo Comando (CMSE).

Depois de cantar o Hino Nacional, com militares e estudantes, Cortella desabafou: “Tenho uma certa irritação com alguns hinos nacionais. Eles são belicistas. O nosso tem uma poesia: verás que um filho teu não foge à luta. Mas nem sempre, porque a gente dorme eternamente em berço esplêndido”.

Um dos autores do livro “Política para não ser idiota” (a obra também é assinada por Renato Janine Ribeiro), o acadêmico explica que para os gregos, o idiota era quem não participava da política. “Nós, no Brasil, conseguimos inverter isso: [achamos que] idiota é quem participa da política.” Para ele, entretanto, isso não pode ser uma máxima, porque os ausentes nunca têm razão.

Doutor em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo, onde também é professor, ele diz que não trabalha: “Afinal, o que faz um filósofo? Quando eu digo que sou filósofo, me perguntam com o que eu trabalho. Agora, digo que sou professor. Quer dizer, eu não trabalho duas vezes”.

Sobre a filosofia, ele diz que ela é puramente autoajuda. “O lema socrático é ‘conhece-te a ti mesmo’!” Por isso, na visão dele, a inteligência depende da humildade, mas não da subserviência. “Gente grande sabe que é pequena e, por isso, cresce. Gente pequena acha que é grande, por isso, continua pequena, e sua única maneira de ficar maior é diminuir os outros.”

Enfático na questão de humildade, Cortella exemplica falando sobre o Império Romano, que tinham uma tradição: todas as vezes que um líder voltava de uma dura batalha com uma grande vitória, ele ia para a Roma e deixava o exército fora da cidade. O homem, então, subia num carro de combate, puxado por dois cavalos conduzidos por um escravo (a chamada biga). Assim, o “general” era levado até o senado romano, onde recebia uma bandeja com folhas de palmeira em cima, a maior honraria da época. No caminho, era aclamado pelo povo. A cada 500 jardas, o escravo tinha que subir na biga e dizer ao ouvido do líder vitorioso: “Lembra-te que és mortal!”.

E completa, fazendo a plateia explodir em risos: “Qual é o outro nome que a gente dá para uma bandeja de prata? Salva. O cara ia receber no senado uma salva de palmas. Viu só quanta coisa inútil que eu sei, mas vocês não sabem?”.

Mario Cortella critica que nós não podemos ser tão iguais, tão superficiais, tão “mais do mesmo”, como o elevador. “Eu tenho medo do ‘mesmo’. Que nem no elevador. Algumas pessoas deveriam ter a placa na cabeça: antes de entrar, verifique se o mesmo se encontra”. Em tom de brincadeira, ele diz da família que se reúne para sair de casa e ir jantar comida caseira: “Isso é sinal de demência!”.

Enquanto uma aluna do Mackenzie dormia no fundo do auditório, o filósofo falava que é preciso sempre admitir a ignorância para crescer: “Não nascemos prontos, vamos nos fazendo. E só existe um tipo de pessoa concluída, ou perfeita: o cadáver. Portanto, eu, Mario Cortella, em 2012, estou na minha nova edição, revista e ampliada [diz, olhando para a barriga]”.

Antes de terminar a palestra, realizada na manhã do dia 24 de setembro, ele deu dicas sobre como lidar com elogios: “Quando alguém te elogia, diga uma coisa especial: ‘obrigado’. Não desqualifique o elogio. Mas, cuidado! Gente que só te elogia, só concorda, ou não te respeita, ou gosta de você, ou está se preparando para puxar o seu tapete”.

Mario Sergio Cortella, com sua grande barba, está no ar de segunda a sexta-feira, às 6h32, na “Academia CBN”, e, às terças e quintas, às 10h15, na “Escola da Vida”, ambos na rádio CBN. “É importante saber que nada sabemos.”

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