To Sir, with cachaça


Quinze de outubro é uma data importante. Hoje se comemora uma profissão que é essencial para nós. Sem essa profissão, o mundo para. Sim, hoje é dia do frentista. Imagine uma São Paulo da vida sem frentistas. Seria o caos.

Mas, se você morreu e ressuscitou há cerca de meia hora ou é um zumbi (aqui não encontrará cérebros), informo que hoje também é dia dos professores. Por favor, pensem na música de revelação polêmica do Superpop (tchan, tchan, tchan).

Essa data de que eu falei no parágrafo anterior é menos importante do que comemorar com os frentistas. Pelo menos para o governo é menos importante. E não precisa ser um gênio para saber que “quem quer dar aula faz isso por gosto e não pelo salário”. Se bem que, vejo eu depois de uns bons anos e uns bons drinks, muitos professores não fazem isso por salário nem por gosto.

Cinco dias atrás, a propósito, neste espaço, coloquei Mario Sergio Cortella falando sobre o fato de ele ser professor e filósofo: “Eu ‘não trabalho’ duas vezes”. Quer dizer, o que faz um professor? Apanha dos alunos, ganha um salário meia-boca e falta, falta, falta (falta, falta e falta) e ganha uma licença-prêmio?

Transmitir conhecimento é algo que está em extinção. Posso dar um exemplo se o leitor quiser – e ainda que não queira, o darei mesmo assim: presenciei, no ano passado, uma professora de História dizer aos alunos da oitava série que a Torre Eiffel era um ponto turístico da Itália. E não, não era uma confusão de momento. Ela insistiu nisso por três ou quatro vezes.

Professor Girafales roubaria a tesoura de Soraya Montenegro para cometer suicídio. Ele e o professor Pasquale, que só reclama (é um chato, mas que tem razão — ou não).

Eu poderia passar todo o dia quinze de outubro falando dos problemas da educação que se referem à má formação dos professores. Só que os professores são, entretanto, criaturas mitológicas, não podem ser atacados.

Por melhores ou piores que sejam – e, meu amigo, acredite, com o tempo você percebe que a maioria deles era muito ruim –, os nossos professores são inesquecíveis. “Pois, ora bolas, Rafael, como você é exagerado, só os professores bons são inesquecíveis, e olhe lá!”, dirá algum leitor desocupado.

Mas eu não estou exagerando. Todos os professores são inesquecíveis. Acompanhe comigo: Ailton, Alex, Alexandre, Ana Maria, Ana Tereza, duas Andreias, Antônia, duas Aparecidas, Beatriz, Benedito, Camila, Cássia, Cecília, Christiane, três Cláudios, Cleuton, Daniele, Dávius, Denise, Dulce, Edgard, Edna, Eliane, Elizabeth, Elza, Ethel, Fabiana, Fábio, Fernando, Gabriele, Gisely, Graça, Gustavo, Janilton, José Mário, Juraci, Leonete, Leonora, Lilian, Lourdes, Lucimara, Lye, Maíra, duas Marcias, três Marcos, Maria do Céu, Mariângela, Marilaine, Marlene, duas Micheles, Moisés, Monica, Nadini, Odair, Paulo, Rachel, Raul, Rebeca, Regina, Ricardo, Rodolfo, Rodrigo, Romilda, Ruth, duas Sandras, Sebastião, Sedeh, duas Silvanas, Silvia, Solange, Sônia, Suely com y e Sueli com i, Suzi, Teresa, Ulisses, Valdete, Valéria, Vanda, três Veras e William.

Eu me lembro perfeitamente de todos esses professores com quem tive aulas desde que ingressei no pré-primário, há muitos e muitos (o caramba!) anos atrás – ainda que isso seja redundante,  afinal.

E não digam que recordo de todos esses setenta e nove professores porque eles foram legais comigo, me deram boas notas e mimimi. A Lourdes me chamou de retardado no dia do meu aniversário, a Silvia me chamou de gordo (e eu já contei aqui), Eliane disse que eu era um tonto por ir à escola com o braço quebrado, a Valdete me colocou para fora da sala sem motivo, a Marilaine me deu uma advertência por “colocar lenha na fogueira” durante brigas da escola, o Raul achava que curupira e caipora eram a mesma coisa e a Graça, mais recentemente, me deletou do Facebook.

O que importa que ela me deletou do Facebook? Nada, mas nos tempos atuais “deletar do Facebook” significa excluir da vida. E eu descobri isso porque lembrei a data de aniversário dela (23 de setembro) e fui procurá-la na minha lista de amigos para parabenizar.

Para os alunos, o professor é uma criatura inesquecível, ou incancellabile, como na música de Laura Pausini. Até acho essa expressão melhor: por mais que você queira apagar, cancelar as histórias sobre um professor da sua vida, você não consegue. São lembrança que dentro me non va più via.

Desses que eu citei, para citar o lado bom (ou ótimo) deles, foi com as professoras Ethel e Elza que aprendi a ler e escrever. Foi com aquela professora Graça que escrevi o meu primeiro poema, no ano de 2002, que encontrei dias atrás. Foi a Leonora que me ensinou a mexer num computador, porque, acredite se quiser, na minha época as crianças aprendiam a usar o computador na escola.

Com os discursos de uma das Sandras, a Rennó, optei definitivamente pelo jornalismo, profissão por que eu sempre fui apaixonado, mas tinha medo de assumi-la diante da não obrigatoriedade do diploma. E, enfim, foi com a Valéria que perdi toda a vergonha na cara que eu tinha, fazendo teatro. Nunca imaginei ter uma professora que me ligava em casa para saber como eu estava. Na verdade, nunca pensei que eu poderia ser amigo de um professor.

Existem ainda aqueles outros educadores, que nem deram aulas para você, mas por quem você tem admiração, caso da Anita, da Ethel (que é filha da outra Ethel), da Iriane, da Jussara, da Rosana e do Sérgio. Cito nomes, porque sei que quando digo esses o leitor pensa em outros.

Ser aluno é difícil, mas ser professor, como diz Claudio Tognolli – um desses três Cláudios que citei antes –, é padecer no Paraíso, mas pode descer na Vergueiro que também fica perto.

The time has come for closing books and long last looks must end. Eu não sei como você, leitor, comemora o dia dos professores, mas eu, com todo este espaço, deixo a minha homenagem e um copo de cachaça. Porque para aguentar uns pirralhos como eu, só bebendo.

To Sir, with cachaça.

Atualizado em 15 de outubro de 2014.

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