Cómo nace el amor


Sentado em frente a uma carteira, daquelas grandes da escola, ele copiava da lousa para o caderno os exercícios da aula de história. Como para todo menino de 12 ou 13 anos, nada era mais tedioso. A cada cinco minutos, ele mudava de foco: parava de escrever, ia até a última folha do caderno e treinava sua assinatura – o nome completo sem abreviações transpassado por uma linha que fazia círculos no infinito. Rabiscava a última página até ser repreendido pela professora. Esse acontecimento era um ciclo.

Não culpemos o aluno pela falta de atenção ao conteúdo de aula. Afinal, nenhum adolescente se interessa em saber que “a partilha da África teve início durante a Conferência de Berlim, convocada pela Alemanha em 1884. Nessa conferência, ficou estabelecido que o continente africano seria dividido entre as nações europeias. Os europeus tinham motivos econômicos para se dedicar a essa empreitada”. O exercício que a professora passava na lousa mandava que o aluno imaginasse que fosse um desses líderes políticos europeus presentes na Conferência de Berlim – e escrevesse uma declaração explicando as razões que os levaram a promover a partilha da África.

O menino não se importava com a aula porque os professores de história nunca souberam – na opinião dele – preparar uma aula dinâmica e interessante. E nisso ele encaixou todos os professores de história que teve, desde o começo do ensino fundamental (quando as aulas de história e geografia eram chamadas de “estudos sociais”) até anos depois desse dia, quando se formou no ensino médio e ingressou na faculdade.

Era preciso, porém, passar de ano. E ele tinha consciência de que precisava estudar na sétima série para não se ferrar no oitavo ano. Quando começou a prestar atenção ao que a professora explicava, entretanto, o sinal tocou e a aula acabou. A sala tinha, em teoria, mais de trinta matriculados. Nosso personagem era o 27º da lista de chamada. Mais da metade da turma, naquele dia, foi para o corredor da escola na troca de aula. Cerca de dez aguardavam a professora de ciências, que sempre estava atrasada, mais ainda em um dia como aquele, uma quarta-feira.

Com raiva por ter prestado atenção à professora no momento em que a aula acabou, o garoto arrancou aquela última página do caderno, em que ele treinava sua assinatura e rabiscava alguns poemas cheios de clichês e rimas bobas de que ele gostava. Amassou com tamanho ódio que sentiu uma dor aguda na palma da mão direita. Canhoto, ele tinha força menos na outra mão e, assim, demorou pouco mais de cinco segundo para amassar a folha de caderno.

Com a bola de papel amassado na mão direita, com a consciência da força da outra, num piscar de olhos a trocou de mão. Olhou para uma menina que odiava. Jogou a bolinha de papel com toda a força que pôde. No momento, ela se abaixou para pegar uma caneta vermelha que caíra no chão. A bolinha acertou outra garota, que ele nunca tinha olhado com tanto cuidado. Em câmera lenta, ela pegou a bolinha e gritou: “Seu imbecil!”. Mas ela parecia não ter notado que fora ele. Xingou por força do hábito. E colocou a bolinha sobre a mesa. Foi a primeira troca de olhares entre os dois a primeira e possivelmente a última.

Na saída, o garoto reparou que a menina abrira o papel para ler o que estava escrito: o nome dele e algumas pieguices do tipo “Você não me deu o tempo que eu precisava para dizer que eu quero e que eu preciso te amar. Que por um beijo, ou apenas um abraço seu, eu poderia conquistar o céu e buscar as estrelas e deixar todo o resto da minha vida para trás”. Onde ele teria buscado inspiração para isso, nem ele sabia. Deve ter ouvido em algum lugar e transcreveu da maneira que lembrava.

No papel, suas assinaturas revelavam o seu nome. Mas nada importava para ele, a bagunça era seu divertimento. Ela guardou o papel.

Antes de continuar a história, é preciso explicar ao leitor que o título disso tudo, o espanhol de “como nasce o amor” serve para dar um toque de novela mexicana aos acontecimentos aqui escritos. A primeira fase dele e dela, os anônimos estudantes, terminou aqui.

Na oitava série, eles não estudaram juntos, nem se cruzaram pelo corredor. Depois, no ensino médio, ele foi estudar numa escola pública; ela, numa particular. Ele estudou, foi o melhor aluno da sala e conquistou amizades com pessoas que nunca imaginaria conversar. Ela, bem, não podemos dizer, afinal, se eu, o narrador, estava em um lugar do mundo observando, não poderia saber o que ela estava fazendo, em um outro local. Na próxima história prometo ser um pouco mais eficiente.

Seis anos se passaram desde aquela quarta-feira da bolinha de papel. Ela estava vagueando pelos corredores vazios da internet, quando leu algumas palavras que lhe pareciam conhecidas. “Você não me deu o tempo que eu precisava para dizer que eu quero e que eu preciso te amar. Que por um beijo, ou apenas um abraço seu, eu poderia conquistar o céu e buscar as estrelas e deixar todo o resto da minha vida para trás.” Ela, então, correu até o armário. Pegou uma agenda e retirou um pequeno papel amassado. Que não estava amarelado, porque seis anos não representa muito tempo para a humanidade, mas uma vida para aquela mulher que já completara seus 19 anos. Lá estava a mesma frase. E o nome do autor. O nome completo do autor.

E, veja só, ela o encontrou naquele tal de Facebook. Mas lá ele não estava com o nome completo. Apenas o nome e o primeiro sobrenome. Ela o reconheceu pela foto. Apesar do que ela julgava uma eternidade, os seis anos não fizeram com que ele mudasse tanto. Nem ela também, afinal. Ela o adicionou. Ele se lembrou da existência dela e a aceitou.

O leitor pode pensar que isso tudo é um grande devaneio de um sábado à tarde, mas tirando algumas falhas da memória ou outros exageros poéticos e dramáticos pontuais, essa história aconteceu. Ou não. Na verdade, está acontecendo. Ou não. E agora, como narrador, é possível que eu tenha a capacidade de observar os dois lados, porque os dois lados começaram a se unir.

Quando eles começaram a se conversar, por causa daquele papelzinho amassado, eles concluíram que nunca se falaram na época da escola. Nunca. Tirando a vez da briga. Ou será que não? Ele confidenciou a ela: ela já falara com ele, uma vez, uma única. Disse “olá”, por educação, já que ela entrava na sala enquanto ele estava parado na porta. Foi uma maneira de ela pedir licença para passar. Ele não respondeu à saudação. Mas a guardou na memória durante esses anos.

Ele também revelou que ainda se lembrava da voz dela e do brilho do olhar, que na única vez que foi ao encontro dele, tomado pela raiva, o fez suspirar. Ela ficou sem reação e a partir daí começaram a se conhecer, até que resolveram sair para ir ao teatro. Um homem e uma mulher, agora adultos, compraram ingressos para ver “Romeu e Julieta”.

Creio, leitor, que este é o momento de traçar as últimas linhas desta história que está apenas começando, afinal, para os dois. Não cabe a um reles narrador invadir a intimidade de um casal. Casal? Sim, depois de alguns meses, eles começaram a namorar. E, dizem as línguas boas, que é sério, sim, muito sério. Quem diria que o amor poderia nascer de um ataque de bolinha de papel feito por um aluno inconveniente e bagunceiro a uma das alunas aplicadas e do grupo das mais lindas da sala?

O Bill Gates pode achar que a internet é uma coisa passageira. Mas para esses dois, a internet passou e deixou uma eternidade. Eternidade? Sim, eternidade.

Porque ele tomou a coragem que precisava, com um queijo de aperitivo e um vinho espanhol, e na noite de ontem, olhou nos olhos dela novamente. Entregou uma bolinha de papel a ela. Ela desviou o olhar. E desamassou a folha. Havia uma frase escrita. Com a mão esquerda, ele segurou a mão direita dela. Eles se olharam nos olhos novamente. E pronunciaram a frase que estava escrita em vermelho na folha de papel.

“Quer se casar comigo?”

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