Vida e morte de Hildegard


Hildegard caminhava por uma rua que ainda tem vontade de ser avenida. Esperta, caminhava pelo canto da calçada que é próximo das grades dos prédios que enchem o bairro da zona norte de São Paulo. Seus passos eram rápidos. Às vezes, ela parava e com um pequeno arrepio na espinha olhava para trás. Tinha medo de cachorros e talvez o pensamento sobre eles a fizesse andar tão apressadamente.

Conste que esta crônica deveria começar com Gil Gomes mexendo a mão e dizendo “aqui, neste lugar”. Mas, voltemos ao que interessa.

Escondida no silêncio e na escuridão da noite de um local cuja iluminação é precária, seus olhos brilhavam ao refletir os faróis dos carros. Quando esses carros, então, se escondiam em outras vielas, ela olhava calmamente para os dois lados e atravessava. Curiosamente, ela nunca andava pela faixa de pedestres, porque se assustava com as pessoas. Antes de atravessar, sempre ficava parada sobre um bueiro.

Nesse dia, porém, um carro em alta velocidade apareceu enquanto Hildegard atravessava. Ela ficou parada no meio da rua, sem reação. O carro freou. Seria tarde. Hildegard estava embaixo do carro. O motorista saiu e foi olhar o resultado do acidente. Uma sombra negra saiu correndo no escuro. Nada de grave havia acontecido, nenhum ferimento.

Aos cinco anos, Hildegard quase morrera atropelada. Deixaria três filhos órfãos. Ela era uma gata vira-latas que rondava o mundo.

Antes de ter seus filhotes, outro milagre já salvara sua vida: no cio, foi envenenada. “Tinha que dar veneno mesmo, aquela bicha insuportável deixava o prédio inteiro acordado a madrugada inteira”, contou uma moradora, que já tem a idade bem avançada. “Se eu estiver morrendo aqui, ninguém vai me ouvir, porque a gata grita mais alto.”

Não muito tempo após o quase-atropelamento, seus filhotes foram adotados por moradores do mesmo bairro. Hildegard ficou na solidão. Passou a vagar apenas à noite, quando tentava encontrar alguns ratos para se alimentar. Procurava água parada em vasos para não morrer de sede – e não deixar que os humanos morressem com dengue. Ela também tentava comer alguns passarinhos, escalando algumas árvores atrás de ninhos, mas desistiu quando caiu, certa vez.

“É uma gatinha bonita, pena que a gente tem um cachorro”, disse uma criança a mãe que a carregava no colo, enquanto Hildegard fazia suas necessidades em um jardim.

Alguns meses de tranquilidade se passaram e a gata Hildegard continuava sobrevivendo como conseguia. Até que, primavera atual aqui, uma onda de violência aterrorizada a sociedade felina da pauliceia. Para os gatos, foi a volta de do outono de 1888 de Londres numa versão do reino animal. Naquele ano, o até hoje desconhecido batizado de Jack estripava prostitutas tristes de Whitechapel, que não valiam mais do que três patacas furadas. Sua última vítima foi Mary Jane Kelly, que dizem ter sido a mais bonita das putas daqueles lados. Jack cortou a garganta dela até a coluna, tirou quase todos os órgãos de dentro do corpo dela. E para dramatizar mais, Jack, o estripador, arrancou com as mãos o coração de Mary Jane.

Do lado de cá, em São Paulo, gatos estavam sendo mortos. Um aparecia morto a cada dia. Envenenados, principalmente. Ou atropelados intencionalmente. Ou atacados por cães de estimação soltos na calada da noite.

Como Jack, ninguém foi identificado com o serial killer de gatos. Mais de dez foram mortos.

Hildegard, esperta como era, se escondia a cada movimentação estranha. Quando acaba o barulho, saia esbarrando nas paredes. De repente, toda luz se apagou. O ar estava quente e Hildegard se debatia para todos os lados. Havia um balde sobre ela. De alguma maneira, o balde foi carregado com a gata dentro para uma outra rua.

Hildegard foi presa pelo pescoço, sua coleira era a mão de um homem desconhecido. Ela não gritava. Suas patas se mexiam com uma velocidade grande, com as garras preparadas para atacar.

O homem a mantinha longe de seu corpo. Mas, num instante, ela parou de se movimentar. Tinha sido atingida por uma martelada na cabeça. O homem e alguns amigos esticaram o animal no chão. Um segurou as patas inferiores e outro, as de cima.

O sequestrador de animais apareceu com um pequeno machado. E, num movimento muito lento cortou cada membro de Hildegard. Cada pata, o rabo e a cabeça.

Cada parte da santa gata Hildegard, que já sobrevivera a um quase-atropelamento, a envenenamento, a queda de árvore, a pedras dos estilingues dos moleques do bairro, era agora jogada num jardim. Com exceção de uma pata e da cabeça.

Uma pata foi jogada na rua no momento em que um carro passava por lá. Curiosamente, o homem que atropelou a parte de Hildegard foi também o homem que quase a atropelou naquela vez. Agora, ele não parou para ver o que acontecera, porque não sentiu nenhum impacto ao passar por cima.

Restava, então, a cabeça de Hildegard. O homem fez um furo na orelha e amarrou um barbante. Amarrou também uma pedra na outra ponta e jogou por cima de um fio da rede elétrica. Assim, a cabeça de Hildegard ficou pendurada, balançando, como o pêndulo de um relógio antigo.

Os homens foram embora. Nada aconteceu porque eles não foram identificados. A história é contada assim pelas pessoas. Os que odeiam animais dizem: “Maneiro!”. Os que amam os animais pedem justiça.

Naquela noite, porém, ninguém pensou nisso. E do alto do poste, o olhar morto de Hildegard contemplava o mundo.

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