Pai


386337_522620094418576_1854480626_nOs olhos fitavam o infinito num horizonte distante, inexistente. As piscadas aconteciam pesadas e cansadas de um corpo que já não funcionava como antes. A respiração falhava. As pregas vocais produziam ruídos em busca de mais ar, sem sucesso. Atadas, as mãos ousavam tentar se mexer, mas não conseguiam se mover mais do que alguns inúteis centímetros. O suor frio escorria pelo corpo.

(…) “Sabe, a única vez que a minha mãe foi chamada na escola”, contava ele, “foi quando uma professora puxou a minha orelha e a rasgou, e começou a sangrar”. Ainda assim ele dizia que sempre foi arteiro, naquela época em que as professoras eram carrascas. “Eu aprontava tanto na escola, que dá até vergonha de contar”.

Estudou em colégio religioso, no qual só assistia à missa para poder jogar bola depois, no campinho da escola. Foi assim com a catequese também. “Me lembro tão bem, ele usou um terninho azul, que eu comprei para ele, e ele gostava tanto que queria usar o tempo inteiro, em todo lugar aonde ia”, disse sua mãe, nascida em 1931.

(…) Pai, senta aqui, que o jantar está na mesa. Fala um pouco, tua voz está tão presa…

(…) Sua esposa conta que ele era “alto, magro, bonito, bagunceiro, tinha cabelo até o ombro e estava sempre na moda”. Eram vizinhos, no Bom Retiro. Ele era amigo de uma irmã dela, Isabel. Se casaram em 1978, quando ele tinha 23 e ela 22 anos. Em 2012, completaram 34 anos de casamento, as bodas de oliveira.

“Sua mãe era loirinha e magrinha, olha só como está velha…”, brincava ele quando queria irritar ela. Desde março, parece, ele quis ficar mais ao lado dela.

(…) Era apenas uma noite no começo de março, o calor ainda incomodava as ruas, dia em que ele teria uma consulta com o médico. “Sente aqui. O pai está com câncer. Com câncer no pulmão. Ele vai ficar internado e, pelo que a médica disse, ele não volta mais para casa.” No dia 20 de abril, um mês depois da internação, ele recebeu alta e passou o aniversário, dois dias depois, em casa.

A quimioterapia começou, sem esperanças de cura, mas uma pequena possibilidade de estabilização da evolução do tumor, segundo o oncologista e a pneumologista. O câncer parou de evoluir. Só que já era tarde. A doença era metastática na coluna.

(…) A respiração falhava. As pregas vocais produziam ruídos em busca de mais ar, sem sucesso. A ambulância foi chamada e em cinco minutos estava na casa da família. “O que ele tem?”, perguntava o paramédico. “Câncer no pulmão, com metástase na coluna e provavelmente no cérebro. Foi o que a médica disse quando marcou uma tomografia para a próxima semana”. Ele já não reconhecia ninguém, apenas a esposa e a mãe, que agora passava a manhã e a tarde com ele, observando seu estado de doença. Ao hospital, apenas a mulher o acompanhou, já que assim ela mesma decidiu.

(…) “Ele fumava desde os 14 anos, também”, conta a mãe dele. “Desde os 14 anos.” Sua vida de fumante durou 42 anos, até a descoberta da doença.

(…) A esposa dele acabara de chegar do hospital, sozinha.

(…) “Meu filho, eu tinha um professor daqueles loucões, quando eu estudava numa escola fechada. Ele tinha um Fusca e saía com os alunos depois da aula, dava carona…”, contava ele. “Mas um dia, não sei o que aconteceu, ele estava na estrada, capotou o Fusca e morreu. Foi o melhor professor que eu já tive.”

Ele também gostava de dirigir. Um sobrinho fala que ele gostava de imitar o Ayrton Senna, mas nas Brasílias. “O tio adorava uma Brasília.” Depois de um tempo, ele parou de dirigir. Ninguém soube exatamente o motivo.

(…) Ele ficou internado. “Seu pai está no hospital, sedado, e está indo embora. Só estamos esperando o coração parar.” Era a madrugada de uma quinta-feira, dia 13 de dezembro de 2012.

(…) Eliana Ribeiro cantava: “Olhei para Deus e me recordei daquelas vezes que foste me buscar longe de casa e abandonada. Sei me esperavas para me corrigir, mas logo me amavas, pois teu coração se enchia de compaixão e os olhos, de lágrimas de ver tua filha voltar para ti”.

(…) No geral, ele nunca ficava mal-humorado. Estava sempre de bem com a vida, mesmo depois do diagnóstico de câncer. Fazia piadas o tempo inteiro, sobre tudo, inclusive a doença (como gostava de um humor negro…) e o fato de ter ficado careca por conta da quimioterapia, que, depois de um tempo, havia sido cancelada pelos médicos.

Ainda que neste último mês de dezembro não conseguisse reconhecer ninguém na maior parte do tempo, nos poucos momentos de lucidez fazia piadas e declarava o amor por todos, especialmente pela esposa, que ficou ao lado dele durante todos os momentos.

Durante as madrugadas, era o nome dela que ele chamava para pedir ajuda ou apenas para ter companhia durante suas faltas de ar ou suas dores causadas pela doença. E ela sempre respondeu ao chamado.

Laure Conan escreveu que quem espera as grandes ocasiões para provar a sua ternura não sabe amar. Mas o que entende essa canadense? O que entende ela do amor? Não sabe ela, e não é necessário inteligência para isso, que quem explica o amor é porque não ama? Ela nunca amou nem foi amada, por isso disse isso. Nunca precisou ficar ao lado de alguém realmente, nem ninguém realmente ficou ao lado dela.

Melhor ficar com o que disse Carlos Drummond de Andrade: “há vários motivos para odiar uma pessoa, e um só para amá-la; este prevalece”. Ou com o que disse Gabriel Marcel: “amar uma pessoa significa dizer: não morrerás”.

(…) A madrugada do domingo estava na metade de sua quarta hora, quando o telefone tocou. Ela estava em casa com seu filho, descansando, como os médicos do marido mandaram. “A senhora está com alguém? Com o filho? Podemos falar com ele?”, perguntou alguém do outro lado da linha telefônica. “Não, eu já sei o que vocês querem dizer, já estávamos esperando”, disse a esposa.

(…) Eu ouvia tudo do meu quarto, já que estava acordado desde antes do toque do aparelho de telefone. De repente, ainda sem ter certeza, minha mente foi tomada por várias músicas. Duas, já lembradas na (a)linearidade da minha mente, uma do Fábio Jr. (a tradicional para o momento) e a outra da Eliana Ribeiro. Outra foi incluída numa sequência com aquelas músicas, cantada por Fábio de Melo, que é padre.

(…) O telefone sem fio foi colocado na base. Passos, uma porta aberta e uma voz. “Seu pai foi embora.” A frase foi seguida de um abraço, que depois foi seguido de horas de lágrimas de saudade.

(…) As músicas continuavam na mente. A primeira, deixava um momento de raiva e negação: “Não, eu não vi a sua cura se cumprir, eu não vi o seu milagre acontecer, nada que eu pedi a Deus aconteceu”. Se bem que o que eu pedi a Deus foi que fosse feita a vontade Dele, assim na terra como no céu. Mas a mesma canção continua: “É, vou tentando achar o rumo por aqui, vou reaprendendo ser sem ter você, descobrindo em mim o que você deixou”.

A segunda música me dizia que hoje eu sei que (ele, o meu pai) está diante de Deus, olhando para mim.

E a terceira, a última – e com a qual este texto terminará agora –, é aquela que por um momento me faz perder o chão, foi fatal: “Pai, pode crer, eu vou bem, eu tô indo. Tô tentando, vivendo e pedindo com loucura pra você renascer…”.

Em memória de meu pai, Roberto dos Santos.

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2 comentários em “Pai

  1. Querido filho estas palavras sei que vem do fundo do seu coração,fico feliz em saber que seu pai onde quer que esteja,sabera o quanto o seu sentimento e profundo,nao esqueça o quanto ele te amou em vida e tentou fazer de tudo para que você se tornas-se a pessoa que é,filho querido continue sempre assim,que Deus continue a olhar por você.bjos.

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  2. Rafa,
    Você é uma pessoa iluminada! Senti isso logo quando o vi.
    A saudade é imensa….
    Mas a vida é eterna:
    “Pois quando o espelho é bom, ninguém jamais morreu”

    Beijos

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