Reinventar


Monica Martinez durante o lançamento do livro, em novembro de 2012.
Monica Martinez durante o lançamento do livro, em novembro de 2012.

“Havia dez anos que trabalhava como professor do ensino superior. Estava na hora de se reinventar.” Assim começa o livro de Monica Martinez. Lançado no final de 2012, “Professor de Ilusões” é a sua primeira obra de ficção, seja lá o que se entende por ficção.

O livro conta a história de Sidney, um professor de jornalismo que vivia a reclamar, nessas páginas, suas dores de falar para uma multidão de alunos que “não lia livros, não tinha referências culturais e escrevia pior que seu filho de treze anos, quando escrevia alguma coisa”.

Em algumas páginas, o professor parece fazer um desabafo universal, talvez em nome da própria Monica – enquanto professora – e de seus colegas.  Sidney é do tipo que se revolta com a impossibilidade de os alunos escreverem decentemente duas sentenças juntas desde os ensinos fundamental e médio.

Essa rotina deixava o personagem cansado. E foi aí que ele concluiu que seria necessário se reinventar. “Tinha sido muitas coisas nesta vida, as mais recentes jornalista e professor. O que seria agora? Sabia que não havia outra resposta que não a de escritor.” E assim, ele começa sua saga complicada para ser um escritor de ficção, buscando apoio da família e até, quem diria, de outros escritores.

As quase 250 páginas desse livro contêm uma leitura acolhedora, talvez essa seja a palavra. Iniciado o primeiro capítulo, é difícil parar. A dica é começar a leitura quando estiver com bastante tempo livre.

Monica Martinez é jornalista e sua experiência na área faz com que o estilo narrativo (ela é estudiosa do jornalismo literário) seja concretamente bonito e a linguagem atraente e simples ao ponto de ser romântica.

A autora é doutora em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo e pós-doutora em Comunicação Social pela Universidade Metodista. Foi minha professora lá nas Faculdades Integradas Alcântara Machado (FIAM), no ano de 2011, quando tive acesso a outras obras dela, como o clássico “Jornada do Herói: estrutura narrativa mítica na construção de histórias de vida em jornalismo”. Parece que, como a criatura, a criadora também sentiu a necessidade de se reinventar.

Por ter sido escrito por uma docente, o leitor mais atento vai perceber que algumas passagens podem ser reais ao ponto de nos mostrar realmente o que acontece na coxia do mundo dos mestres. Sidney conta que, na sala dos professores, o único momento em que os professores se uniam era na hora de falar mal dos alunos. Também descobrimos que as malas de rodinhas usadas pelos doutores são como uma extensão de um saber que não se acumulou totalmente onde deveria estar: no cérebro.

Como aluno da autora, tenho a oportunidade de perceber algumas reticências entrelinhas, já que conversei por várias vezes com a Monica. O quê? Por exemplo, sei que quando ela era uma menina, lia um livro adulto, “O Poderoso Chefão”, de Mario Puzo, e o escondia dentro de uma caixa de sapatos embaixo da cama, para os pais não descobrirem. Exatamente a mesma coisa fazia seu personagem, Sidney.

Professor de Ilusões, de Monica Martinez. Editora Prumo, R$ 29,90 (248 páginas). Avaliação: bom.
Professor de Ilusões, de Monica Martinez. Editora Prumo, R$ 29,90 (248 páginas). Avaliação: bom.

Na orelha do livro, o grande jornalista José Hamilton Ribeiro diz que a história desce como um bom vinho espanhol, “incluindo uma necessária ‘subidinha’”. Mas é bom lembrar que o melhor vinho do mundo é o produzido em Portugal, enquanto a Espanha é conhecida por fabricar, digamos, no atacado.

A obra é, acima de tudo, inteligente. E, quanto ao final, digamos que para todo bom leitor todo final é imprevisível, por mais que seja previsível – e todo final é previsível, por mais que seja imprevisível.

A pergunta a ser feita por mim é: até que ponto a história de Sidney é a história da autora, Monica Martinez?

E por que essa pergunta? “Havia dez anos que trabalhava como professor do ensino superior. Estava na hora de se reinventar.” Assim começa o livro de Sidney. Esse começo te trás alguma lembrança? Sim, com essas palavras também começa o livro de Monica.

Como para um bom escritor, apenas um livro é suficiente para a eternidade, para o bom leitor, um pequeno trecho basta.

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