Órfão da simplicidade


Orfandades-O-destino-das-ausenciasEu posso jurar que não acreditei quando li a frase “quero que essa vaca morra sapecada no inferno” no livro escrito pelo padre Fábio de Melo. Talvez eu seja conservador para essa rebeldia literária do padre ou o padre seja muito revolucionário para a minha compreensão.

O livro se chama “Orfandades”. Foi lançado em 2012. A sinopse da obra diz que a temática é um olhar poético sobre as ausências humanas. E, como toda boa propaganda, diz que a narrativa é envolvente e que o autor nos convida a uma aventura literária que investiga a crueza e os avessos dos sentimentos humanos. O leitor deve saber, e eu vou dizer isso, que o livro não investiga absolutamente nada.

Não é um romance, mas um livro de pequenos contos, se assim posso chamar, que mostram histórias de pessoas que perderam alguém. Histórias sobre mortes, digamos. Ideia legal. Mas não bem aproveitada. Os contos são feitos como relatos de algum dos personagens (que são diferentes em cada capítulos e quase todos com nomes esquisitos), mas cada história parece não ter objetivo. Como se a pessoa falasse por falar, para encher linguiça. Isso funciona muito bem na linguagem falada, mas não é nada interessante na linguagem escrita.

Algumas frases ou trechos maiores, apenas, são interessantes, isolados. O contexto na maior parte do livro é ruim. Como em livros de autoajuda: algumas partes ajudam, mas o livro, como um todo, merece ser jogado fora – mas não jogue livros fora, é um pecado imenso. Leia o trecho da história “Madame Gerúndia”:

“(…) Coloquei minha alma no varal. Quero que morra seca. Melhor assim. Não quero mais sofrer de esperança. A indiferença é um caminho seguro que resolvi trilhar. Deu certo. Minha descrença não é sem razão. Ainda não pude retirar o calo que Jerônimo me causou. É minha forma de fazer justiça ao sofrimento que o desgraçado me causou. Acordou-me para o sonho do amor eterno e depois se foi. Chegou quando minha alma estava desprevenida. Eu vivia a morte trágica de meus pais. Morreram atropelados na linha ferroviária. O carro enguiçou bem no cruzamento. Não houve tempo de fugir. Fiquei sozinha no mundo. Quando terminou a missa de sétimo dia, lá estava ele plantado à parte da matriz. Deve ter agido motivado pela caridade. O maldito me retirou a pureza, tomou posse de mim e depois partiu, sem mesmo curvar os olhos para ver o que deixava. A última fala que dele ouvi foi: ‘Vou ali no Vicente Venâncio negociar uma bicicleta, mas já estou voltando’. Até hoje o verbo permanece em aberto, sem definição, sem comprometimento. Uma ação desprendida no tempo. ‘Já estou voltando.’ Mas onde está esse desgraçado que nunca chega?”

Talvez você não acredite, mas em toda a leitura das 160 páginas do livro, esse foi o único parágrafo que eu li com gosto, interesse e atenção, daí o motivo de citar ele aqui.

Padre Fábio de Melo é muito inteligente em sua escrita e tem um estilo poético que atrai grandes públicos às suas obras. Outra obra dele já foi criticada (mas no bom sentido) aqui no blog – “Tempo de Esperas” recebeu uma boa avaliação. Destaquei, na resenha, a simplicidade da história e da linguagem, que eram o grande atrativo.

Em “Orfandades”, porém, além de uma ideia mal aproveitada, a linguagem é chata. Isso tudo torna o livro maçante. Muito maçante.

O autor usa alguns termos que poderiam ser chamados de preciosismos ou até de arcaísmos. Ele parece ter o objetivo principal de tornar o texto rebuscado e com palavras que nem a senhora minha avó, lá nos seus oitenta e tantos anos, teria coragem de usar, de tão jogadas às traças que estão.

Fiz uma lista de expressões esquisitas usadas por Fábio de Melo no livro, que segue, em ordem alfabética: conforto simbiótico (ele adora a palavra simbiose), fenestrou o peito com a adaga, malogros adâmicos, mãos sem escatologia (esta palavra é repetida dezenas de vezes no livro), matéria idílica, minudência dos dias, monocromático da alma, morada ontológica, óbice futuro, palavra peremptória, parede de adobe (o photoshop?), presença epifânica (amém, Deus!), riscos sorumbáticos, rodopios intermitentes, sementes cordatas e sermões domingueiros. Esta última expressão, poxa vida, poderia ser substituída pelo simples sermão do domingo.

O leitor pode achar que eu sou chato e exagerado – e, de fato, sou mesmo – mas essas expressões seriam muito melhor colocadas em textos acadêmicos do que numa literatura comum. Não é a linguagem que o autor costuma usar em seus outros livros, salvo algumas palavras.

E falando em palavras, vamos ver as que ele gosta de usar e que são completamente desnecessárias: arcanos, cimitarra, colmada, conspuscar (opa, saúde!), desacorçoada, empedernidos, espargido, fímbria, idiossincrasia, litania, parideira, partejar, premida, senectude, sortilégios, trempes, urdidura e ventrifixada. Outras, ainda que mais comuns, poderiam ser dispensadas, como alforje, compungir, cumeeira, esquife, lida e urdidura.

E olha que eu dispensei muitas palavras quando fazia a revisão para escrever esta resenha. Não sei o que se passava pela cabeça do escritor, quando escolheu essas palavras, mas se foi uma coisa natural, nós precisamos dar a ele um dicionário de sinônimos para ser usado com urgência.

A proposta do livro não foi aproveitada como deveria. Até porque, como está gravado na orelha do livro, o padre é “radicado no ofício de conhecer de perto as dores do mundo”. A simplicidade, que era destaque nele, teve o seu oposto nesta obra – o que comprovou que conhecimento demais só atrapalha, quando exibido.

Se a promessa da obra era fazer o leitor chorar, pensar e sorrir, a única que conseguiu (ao menos comigo) foi proporcionar uma vontade de chorar de desgosto. Afinal, nem Machado de Assis exagerava tanto – e olha que ele é da época em que os arcaísmos eram palavras extremamente usadas.

E é como diria Leonardo Da Vinci: a simplicidade é o último grau de sofisticação. Esse é o segredo.

Informações do livro: “Orfandades – O destino das ausências” (2012), escrito por padre Fábio de Melo e publicado pela editora Planeta. Custa, em média, R$ 18, e tem 160 páginas. Avaliação: ruim.

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