Órfão da simplicidade


Orfandades-O-destino-das-ausenciasEu posso jurar que não acreditei quando li a frase “quero que essa vaca morra sapecada no inferno” no livro escrito pelo padre Fábio de Melo. Talvez eu seja conservador para essa rebeldia literária do padre ou o padre seja muito revolucionário para a minha compreensão. E isso é ótimo!

O livro se chama “Orfandades”. Foi lançado em 2012. A sinopse da obra diz que a temática é um olhar poético sobre as ausências humanas. E, como toda boa propaganda, diz que a narrativa é envolvente e que o autor nos convida a uma aventura literária que investiga a crueza e os avessos dos sentimentos humanos. Quando li o livro pela primeira vez, achei que não investigava absolutamente nada, mas era eu quem não tinha a sensibilidade necessária para compreendê-lo. Por isso, o texto original (de 13/01/2013) está sendo atualizado em 22/07/2017.

Orfandades não é um romance, mas um livro de pequenos contos, se assim posso chamar, que mostram histórias de pessoas que perderam alguém. Histórias sobre mortes, digamos. Ideia legal. Os contos são feitos como relatos de algum dos personagens (que são diferentes em cada capítulos e quase todos com nomes esquisitos), mas cada história parece não ter objetivo. Como se a pessoa falasse por falar, para encher linguiça. Não é bem isso. É um exame de consciência, de sentimentos.

Algumas frases ou trechos maiores, apenas, são interessantes. Leia o trecho da história “Madame Gerúndia”:

“(…) Coloquei minha alma no varal. Quero que morra seca. Melhor assim. Não quero mais sofrer de esperança. A indiferença é um caminho seguro que resolvi trilhar. Deu certo. Minha descrença não é sem razão. Ainda não pude retirar o calo que Jerônimo me causou. É minha forma de fazer justiça ao sofrimento que o desgraçado me causou. Acordou-me para o sonho do amor eterno e depois se foi. Chegou quando minha alma estava desprevenida. Eu vivia a morte trágica de meus pais. Morreram atropelados na linha ferroviária. O carro enguiçou bem no cruzamento. Não houve tempo de fugir. Fiquei sozinha no mundo. Quando terminou a missa de sétimo dia, lá estava ele plantado à parte da matriz. Deve ter agido motivado pela caridade. O maldito me retirou a pureza, tomou posse de mim e depois partiu, sem mesmo curvar os olhos para ver o que deixava. A última fala que dele ouvi foi: ‘Vou ali no Vicente Venâncio negociar uma bicicleta, mas já estou voltando’. Até hoje o verbo permanece em aberto, sem definição, sem comprometimento. Uma ação desprendida no tempo. ‘Já estou voltando.’ Mas onde está esse desgraçado que nunca chega?”

Talvez você não acredite, mas em toda a leitura das 160 páginas do livro, esse foi o parágrafo que mais me tocou, talvez porque a primeira leitura aconteceu no mês que se seguiu à morte do meu pai. Daí o motivo de citar ele aqui.

Padre Fábio de Melo é muito inteligente em sua escrita e tem um estilo poético que atrai grandes públicos às suas obras. Outra obra dele já foi criticada (no bom sentido) aqui no blog – “Tempo de Esperas” recebeu uma boa avaliação. Destaquei, na resenha, a simplicidade da história e da linguagem, que eram o grande atrativo.

Em Orfandades, porém, a linguagem é um pouco chata. Isso tudo torna o livro maçante. Muito maçante. Gostaria de lê-lo na linguagem que o padre Fábio de Melo utiliza em seus sermões, em suas falas em geral e nos outros livros incrível que já escreveu.

O autor usa alguns termos que poderiam ser chamados de preciosismos ou até de arcaísmos. Esse rebuscamento faz parte da essência nostálgica do texto, é um bom método, mas acaba afastando parte do público.

Afinal, a proposta do livro não foi aproveitada como deveria, o texto e a linguagem ficaram abaixo do que se espera de um grande escritor, grande pensador religioso, como é Fábio de Melo. Até porque, como está gravado na orelha do livro, o padre é “radicado no ofício de conhecer de perto as dores do mundo”. A simplicidade, que era destaque nele, teve o seu oposto nesta obra, com um vocabulário inadequado, na minha opinião.

Se a promessa da obra era fazer o leitor chorar, pensar e sorrir, a única que conseguiu (ao menos comigo) foi proporcionar um passatempo. Afinal, nem Machado de Assis exagerava tanto – e olha que ele é da época em que os arcaísmos eram palavras extremamente usadas.

E é como diria Leonardo Da Vinci: a simplicidade é o último grau de sofisticação. Esse é o segredo.

Informações do livro: “Orfandades – O destino das ausências” (2012), escrito por padre Fábio de Melo e publicado pela editora Planeta. Custa, em média, R$ 18, e tem 160 páginas. Avaliação: regular.

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