Pastel de sono


pastel-de-feiraA Kombi azul-claro do final do século passado se chacoalha ofegante pelas ruas de São Paulo, quando o dia de sábado ainda está na sua quarta hora. Dois membros de uma família descendente do Japão ocupam o banco do motorista e do passageiro.

Dentro da perua estão pequenos “armários”, com massas e recheios de pastéis, que dona Carla preparara na tarde do dia anterior. Em cima da van, madeiras e lona (com listras azuis e brancas) que darão forma a uma barraca. Outros quatro membros da família seguem numa Brasília branca, que já está amarelada pelo tempo.

Os nomes serão trocados, a pedido dos entrevistados. “Não compromete a gente, moço!”

“A gente sai de casa às quatlo holas, mas acordamos às tlês”, diz dona Carla, que, aos 64 anos, diz ter herdado dos pais a mania de trocar a letra “r” pela “l”. O grupo trabalha em feiras livres da zona norte de São Paulo há no mínimo duas décadas. “Temos fregueses fiéis, esse trabalho, então, fica mais divertido do que pelo simples fato de a gente ganhar uma grana graúda”, conta Francisco, marido de Carla e fritador de pastéis oficial da família.

Os membros da família acordam uma hora antes de sair de casa, “quando o Sol nem está pensando em aparecer na janela”. O trabalho de Carolina e Juliana, filhas do casal, nesse horário, é colocar todos os pastéis em gavetas separadas por tipos de recheio: bacalhau, camarão, palmito, carne, banana, chocolate e tantos outros. São cerca de 20 tipos diferentes.

A barraca é montada pelos jovens Pedro e Julio em locais diferentes, de acordo com o dia da semana. A família trabalha em várias feiras. Para chegar ao local mais longe, perto do Horto Florestal, na zona norte, a viagem na Kombi azul demora cerca de uma hora.

Como a Prefeitura só permite que a feira livre comece às seis da manhã, muitos esperam o horário para montar a barraca. “A gente não, porque tempo é dinheiro e fiscal de feira não existe para ver se a gente começa ou termina no horário”, revela dona Carla. Às cinco e meia, a barraca está pronta e o óleo da grande frigideira começa a ser aquecido.

“A gente ganha bastante, porque o pastel custa R$ 3,50”, conta Julio, o filho mais velho de Carla e Francisco, que admite haver combinação de preços entre a maioria dos pasteleiros de cada feira.

“Mas é melhor a gente mudar de assunto, você não acha?”, pergunta Carolina, a caçula. Ao que dona Carla esponde: “Sim, é mesmo, o senhor quer um pastel de flango, né?”.

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