A pelada do metrô


A noite da segunda-feira estava na sua segunda hora. O relógio antigo da sala de espera do gabinete da Secretaria da Segurança Pública badalava as 20 horas. O céu estava coberto por algumas nuvens perdidas na imensidão de um tempo é frio, mas depois de cinco minutos fica quente. E isso se repete num círculo, como um disco voador dançando que chorando se foi no espaço.

Era hora de deixar o Edifício Saldanha Marinho, que foi um jornalista, na Rua Líbero Badaró, outro jornalista, e liberar o badaró (como diz Claudio Tognolli) dos colegas da assessoria de imprensa e comunicação pela Rua do Ouvidor. A ladeira da penumbra, onde nem a luz do luar chega, dada a altura dos prédios.

Ao final da descida, pela direita, um lance de escadas leva à entrada da Estação Anhangabaú da terceira linha, aquela vermelha, do Metrô de São Paulo. Um, dois, três, quatro, catorze degraus e uma fofoca para cada um deles. Típico da vida de jovens que carregam pelas faculdades um bacharelado de comunicação social, com habilitação no falido jornalismo.

21126_551901248157127_1821571140_n

Uma meia lua faz a curva para o segundo lance da escadaria, que leva aonde se compram os bilhetes (bi-le-te, sem “h” e sem plural, como dizemos o povo) e aonde se entra para embarcar nas escadas que rolam para o infinito da escuridão, o lugar mais próximo de onde os ratos fazem amor: o vão entre o trem e a plataforma do que poderia ser o aerotrem. Por quê? Simplesmente porque eu adoro cantar a musiquinha do Levy Fidelix. Aquela: vem, vem, vem, vem que tem, Levy Fidelix é o homem do aerotrem!

Eu estava acompanhado de três colegas de trabalho. Favor diferenciar de coregas, que são aqueles a quem você dá um sorrisinho amarelo e depois disso, tira o sorriso e o guarda num copo com água no criado mudo que fica ao lado da cama, próximo da cabeceira.

A curva da meia lua se acabou (e na estrada de Santos eu não vou mais passar, mão, não eu não vou mais passar). Pausa dramática de dois minutos para digerir a imagem que ficou eternizada no espaço vazio da mente de alguém que vive de ler histórias bizarras do dia a dia do universo paralelo.

Alguns médicos e enfermeiros – bem, imagino que possam ser chamados assim – acompanhados dos guardinhas do trem metropolitano, chamado carinhosamente de metrô, cercavam uma moça.

A curiosidade que mata qualquer tipo de animal, especialmente os animais que tem uma pequena paixão pelo jornalismo, fez o olhar adentrar aquela roda de gente uniformizada de branco e de preto.

Uma mulher, grande, bem grande, deitada no chão numa pose de pequena sereia sobre a pedra sendo fotografada para aquela revista masculina. Do jeito que veio ao mundo. Pelada, pelada, nua com a mão no bilhete único.

Quem diria que depois de comércio irregular nos trens e na plataforma (denuncie), de funk em locais públicos (será proibido em breve, ou não) e gente fazendo o shake, shake, shake nas estações, a moda agora é ficar de bunda para a luz artificial do transporte coletivo.

Não contente, a moça tentou levantar. Imagine, leitor, aquela música clássica da época medieval: bota a mão no joelho e dá uma abaixadinha, vai mexendo gostoso, balançando a bundinha. Pois é. E ninguém teve coragem suficiente para segurar o tchan, amarrar o tchan ou tentar descer na boquinha da garrafa (é na boca da garrafa).

Estava mais para aquela saudosa música do nosso secretário municipal de São Paulo: tana, tanajura, jura… Mas não, querida, não jura nada. Coloca a roupa e finge que ninguém viu. Afinal, o horário de pico não tem tanta gente assim, não é mesmo?

O mais assustador de tudo era os marmanjos olhando. Eram os califas de olho no balanço das cadeiras dela. E os colegas e eu desistindo de observar toda aquela patifaria esquisita que talvez o Papa Francisco (que não é primeiro porque não tem segundo), torcedor do Maradona, possa nos explicar. Afinal, ela devia estar como o juegador de futebuelo.

Ao final, ninguém sabe qual foi o final da mulher. Feliz ou triste, o jeito é levantar, pelada, conferir se a depilação está em dia e seguir em frente, fazendo a virada sensual de cabeça da Fátima Bernardes na abertura dos encontros e despedidas da música da Maria Rita. A plataforma dessa estação é a vida…

Anúncios

Um comentário em “A pelada do metrô

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s