Primeiro encontro


Alguns meses já haviam se passado desde a primeira conversa. Eles precisavam se encontrar. A data combinada era o sábado dezessete de novembro. O horário, catorze horas. A princípio, o encontro seria sessenta minutos mais tarde, mas ela resolveu adiantar – e ele, até hoje, desconhece a razão.

O rapaz se arrumou, colocou uma camiseta de mangas longas, para evitar que o vento o fizesse arrepiar através de sustos repentinos. Pegou o ônibus meia hora antes (não queria se atrasar), colocou seu fone de ouvido e ligou o som na primeira música que havia mandado para ela pelo Facebook. Chegou quando faltavam quinze minutos para o horário e se sentou em um banco da pracinha cheia de árvores – o ponto de encontro.

lua

Ela já estava pronta em sua casa, mas demorou muito para sair. Ele esperava ansiosa e angustiadamente pela moça, mas quando o atraso dela passou para dezoito minutos, ele desistiu. Pensou em levantar e ir embora. Quando ele havia religado a música, para levantar e partir, avistou ela, de longe, mas fingiu que não a tinha visto, na tentativa de ficar surpreso. A passos de tartaruga (depois, ele perceberia que é o jeito natural de ela andar, calma e serena), ela chegou.

Sem dizer palavra, ele levantou e os dois se abraçaram profundamente. Para um primeiro encontro, o abraço de setenta e três segundos foi um pouco longo. Afinal, eles eram amigos. Quando se soltaram dos braços um do outro, se olharam nos olhos. E foi esse olhar que mudou tudo, silenciosamente, no modo de pensar dos dois.

Os dois haviam combinado de ir ao cinema, num shopping próximo da casa dela. Eles gostavam de caminhar ao ar livre e iriam a pé. Ele, que não conhecia o lugar, confessou não saber como chegar o centro de compras. A menina, num tom de seriedade, disse: “Eu também não sei. E agora?”. Foi o primeiro momento de falta de jogo de cintura que o garoto passou naquela tarde, a primeira de muitas. Não sabe se ficou vermelho ou pálido de vergonha, mas sentiu ao mesmo tempo um fogo e um gelo subirem pelo corpo até o rosto.

“Estou brincando, vamos”, disse ela na primeira ironia que participariam juntos. Ela tocou o ombro dele e saíram andando pelas ruas.

Foram conversando sobre a época da escola (quando não se conversavam). Em um momento, passaram pelo colégio onde ela havia estudado o ensino médio. Mas ele, encantado com o olhar dela, nem prestou atenção. Tentava o tempo inteiro beber daqueles olhos castanhos, no tom do pôr-do-sol. Numa dessas tentativas, tropeçou. Como poderia tropeçar no primeiro encontro? E enfiou o pé no barro largado na sarjeta da rua. Eis o segundo ponto alto. O que faria? Nossa Senhora dos Desastrados, rogai por ele.

Não sabia o que fazer. Ela manteve a seriedade e o olhar de ternura para ele, mas no fundo queria cair na gargalhada (e quem não ia querer?) e pensou com seus botões: “nossa, esse menino não presta atenção por onde anda!”. O homem tentou disfarçar dizendo que tinha tropeçado na guia da calçada e para não cair nem se machucar tinha pisado, de propósito no barro.

Evidentemente que ela não acreditou em paçocas cobertas com chocolate suíço. Mas disse que estava tudo bem e que ela mesma fazia tantas coisas parecidas… Ao seu íntimo, assumiu: “Coitadinho, deve estar morrendo de vergonha de mim, agora…”. E se entristeceu parcialmente com isso.

Um pouco mais a frente da escola, atravessaram uma rua. A moça se disse cansada e sentou rapidamente sobre um pequeno muro que separava o mundo humano de uma árvore. Ele desviou o olhar para um carro barulhento que passava e quando seus olhos míopes voltaram para a mulher, ela já estava de pé na frente dele, com as duas mãos nas costas. Disse o nome dele.

“Olha, isso é para você”, falou, entregando a ele uma flor daquela árvore, que havia surrupiado sem a percepção dele. Antes que ele pudesse pegar a flor, entretanto, ela a beijou. Ele guardou a lembrança na carteira – e a tem até hoje, junto a um papel onde está escrito o nome e o sobrenome dela, além de uma tampinha de lata de refrigerante, que ela duvidou que, de fato, ele guardaria.

Chegaram ao shopping. Foram à bilheteria comprar os ingressos para um filme de terror. Ele adora filmes de terror, ela detesta, fica sem dormir de medo. Mas acharam que era uma boa ideia e que seria divertido se assustar um pouco. Ele ficou com as duas entradas nas mãos e foram comprar refrigerantes.

Mais uma falha. Ela não pode beber refrigerante, por conta da gastrite. Ele não sabia disso até essa altura do campeonato, e ela também não contou. Disse que queria tomar refrigerante. Isso o livrou de sentir culpa, posteriormente. Enquanto comprava as bebidas, deu os ingressos para que a garota segurasse.

Quando estava com os refrigerantes – aqueles que podem ser – nas mãos, perguntou a ela dos ingressos. Ela havia guardado, mas não se lembrava de onde. Talvez pelo nervosismo ou pela ansiedade. Ficou com o rosto enrubescido e depois de bons cinco minutos, encontrou as entradas e subiram para a sala de cinema. Se sentaram na penúltima fileira, do lado direito. Ele na cadeira do corredor e ela à sua esquerda. O filme começou.

Quando ela havia saído de casa para o encontro, sabia que nada ia acontecer, nem no cinema, nem fora, nem nada. Porque sabia que ele era muito tímido, que ela própria ia ficar muito tímida. Pensava consigo que ela não ia tomar inciativa se ele não tomasse não tomar. Depois que o filme havia começado, um achava que o outro estava na defensiva.

“Ele deve estar se sentindo feio, achando que eu nunca mais vou querer me encontrar com ele, está se achando muito idiota por tudo que aconteceu hoje”, pensava ela. Ele, por outro lado, pensava a mesma coisa em relação a ela. Mas ele não entendia como ela poderia se achar feia. O filme rodava na tela, mas nenhum deles prestava atenção. Ele sonhava com ela, ela com ele. Muitos segredos já haviam sido trocados.

Ela tentava enxergar o coração do garoto. Ele gostava de sentir ela por perto, apesar de, ali, estarem muito distantes. Entenda como quiser. Emocionalmente, os dois já estavam muito unidos, se completavam, já estavam muito perto, porque mesmo sem se verem oficialmente, eles passaram a sentir “algumas coisas” um pelo outro.

Então, como a moça queria que o rapaz percebesse que o que ela falava em suas declarações era verdade – e era o que ela estava sentindo também naquele momento ­–, passou o braço direito pelo esquerdo dele e deitou sobre o seu ombro.

Foi como se as lembranças fizessem com que eles se aproximassem. O momento fez com que o toque físico se juntasse às ao toque das emoções que foram sentidas uma e outra vez. Como uma necessidade de ambos responderem sozinhos à mesma pergunta inexistente. Apesar da timidez, dele e dela, aquilo aconteceu, ela pensava sentir tudo o que eles disseram. Em apenas um toque. O primeiro toque. Depois, com carinho, ela sentiu as mãos se unirem. E a timidez acabou e um sentimento havia nascido.

Depois de uma hora e trinta e cinco minutos, o filme acabou. Os dois se levantaram. Ele disse um repentino “espera!” e ela virou. “Você é linda, sabia?”, assumiu. Ela o abraçou novamente e o puxou pela mão. Voltaram para o ponto de encontro.

Sem vergonha, agora, ele se lembrou de que ela sempre reclamava quando dizia que a moça era a criatura mais próxima da perfeição. “Você vai me encontrar e nunca mais vai dizer isso”, dizia, sempre. Naquela noite, foi a vez que o garoto teve para responder: “Continuo te achando perfeita”.

E aí… e aí… este texto vai terminar com a música de Renato Russo com a sua Legião Urbana com seus versos misturados: Lua de prata no céu, o brilho das estrelas no chão. Tenho certeza que não sonhava, a noite linda continuava e a voz tão doce que me falava: “O mundo pertence a nós!”. Num lugar escondido, um beijo aconteceu.

Escrito com a ajuda indireta de Bruna Alves.

Texto relacionado: Cómo nace el amor (10 de novembro de 2012)

Anúncios

2 comentários em “Primeiro encontro

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s