Vem pra rua


manifestTerça-feira, 18 de junho de 2013. O sol já havia saído do horizonte, às 17 horas e meia, quando muitas dezenas de milhares de pessoas desciam a Benjamin Constant para o Largo São Francisco. Depois, seguiam a Líbero Badaró, onde trabalho.

Da janela da redação da Assessoria de Imprensa da Secretaria da Segurança Pública, eu conseguia ouvir os gritos, talvez até o balanço do chão sob o pé dos manifestantes sérios que gritavam “Vem, vem pra rua, vem, vem contra o aumento”, pouco antes de cantarem que são brasileiros com muito orgulho e com muito amor.

Até os moradores de rua da Praça da Sé passaram em frente à SSP-SP, com suas sacolas de roupas, pulando e vibrando com as pessoas que tinham mais emoção do que a torcida corintiana quando o time ganhou a Libertadores e colocou um fim ao futebol. Nunca na vida imaginei dizer isso.

Mais adiante, antes da metade da Líbero, numa esquina, fica o número 15 do Viaduto do Chá. Chá de camomila, para dar uma acalmada, nessa situação. Os manifestantes se uniram ali. Alguns, começaram a tentar invadir a sede da Prefeitura de São Paulo. Um, de branco, estudante de arquitetura, se destacou.

Até aqui, nenhuma novidade. O que poucos perceberam é que no momento em que o quebra-quebra se iniciou no centro da capital, a maior parte dos manifestantes voltou para a Praça da Sé, ponto inicial da passeata, de onde rumaram para a Avenida Paulista. Avenida, em que aliás, tudo correu na maior paz.

Menos de mil pessoas da bagunça permaneceram em frente à prédio em que fica o gabinete de Fernando Haddad, causando destruição. Atearam fogo à base da Polícia Militar, quebraram vidros bicentenários da paróquia de Santo Antônio, na Praça do Patriarca. A igreja, uma das primeiras do país, foi construída na segunda metade do século XVI.

Nas paredes da Prefeitura, inscrições como “seu mandato está com os dias contados“, “fora tucanos” (sim, isso na parede do governo municipal, que é do PT) e “fora PT” (agora sim) eram apagadas com jatos d’água  na quarta-feira pela tarde. Na fachada da igreja: “abaixo a ditadura“. Curioso que a tal ditadura foi eleita pela maioria da população votante paulista e paulistana. Não podemos jogar a culpa que é nossa, através da urna, nos governantes.

Feito pra você (destruir)

Por volta das 20 horas, quando acabou o meu expediente, encontrei funcionários da Rede Record de Televisão no hall do Edifício Saldanha Marinho, da SSP-SP. Eles pediam ajuda, pois o carro de transmissão havia sido incendiado. A repórter foi apedrejada por manifestantes.

Descobri, ainda, ao sair, que a entrada mais próxima da estação de metrô do Anhangabaú estava fechada. Fui para a estação da Sé, onde aconteceu a mesma coisa. Voltei, na tentativa de chegar à São Bento. Pela rua que leva o nome do santo, cheguei à esquina com a Rua Direita. Nesse momento, várias pessoas começaram a chutar e a bater numa loja da rede Marisa.

A entrada foi arrombada e diversas pessoas, que estavam no meio dos manifestantes, mas não manifestavam contra o aumento das tarifas do transporte coletivo, começaram a entrar na loja e carregar produtos. Algumas, tinham a cara-de-pau de procurar uma sacola e colocar roupas dentro delas. Outras, jogavam os lixos da rua no chão e utilizavam sacos pretos nos saques. Uma loja da Claro, uma das Lojas Americanas e uma outra cujo nome não recordo, também foram arrombadas. Tudo foi muito rápido. Saí de lá e voltei para a redação assim que algumas pessoas começaram a lançar bombas caseiras para todos os lados. Na Líbero Badaró, jornalistas estavam concentrados. Alguns, sem identificação para não apanhar dos manifestantes.

Enquanto isso, mais a frente, uma agência do Banco Itaú, aquele feito pra você destruir, foi completamente depredada. Fotos podem ser vistas no tumblr Reticência Fotográfica. Algumas pessoas, inclusive, tentaram incendiar o local. Famílias carentes moradoras de um prédio próximo, saíram de suas casas, com roupas, crianças, bebês e cachorros, fugindo para pedir a ajuda à Guarda da Polícia Militar com base da SSP-SP.

As famílias ficaram cerca de meia hora no saguão do prédio, até a situação se acalmar. Ao saírem, agradeceram diversas vezes à polícia e aos funcionários da Casa. Eu estava entre eles. Poucas vezes as reações das pessoas me comoveram tanto.

Futuro

Bem, as tarifas do transporte voltam a ser de R$ 3 na próxima segunda-feira (24), na cidade de São Paulo (ônibus) e no estado (Metrô e CPTM). O que interessa é saber se as manifestações terão uma continuidade, o que é extremamente positivo.

O Reticência Jornalística apoia totalmente todas as manifestações pacíficas pelo país. Depois de tantos anos, desde que o Collor foi derrubado, já era a hora de a juventude novamente acordar. E estamos dentro dela, junto com crianças, idosos e “reincidentes” em protestos (no lado positivo, completamente, da expressão) contra a ditadura militar, a favor das eleições diretas e outras coisas.

Falta, apenas, lideranças para esse caminho não seja desviado, como deve ser, já que o Movimento Passe Livre se entregou aos partidos políticos oportunistas. Vamos ver no que dá. Estamos acompanhando. Vamos para a rua.

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