De frente com Francisco, o papa argentino


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De frente com o papa. (Foto: Rafael Iglesias)

A noite de terça-feira (23), com seu céu encoberto, mal chegava aos 10ºC. O vento cortante das ruas da zona norte da Capital não intimidavam os peregrinos católicos que se reuniam para encontrar o Papa Francisco, em visita a Aparecida. A basílica, do município interiorano, é a maior do mundo construída em homenagem à mãe de Jesus Cristo, Nossa Senhora – no caso, a da Conceição Aparecida, padroeira do nosso país.

O ponto de encontro para a viagem era a Paróquia Santo Antônio dos Bancários, no bairro do Mandaqui, de onde um micro-ônibus escolar sairia para seguir uma vida eterna pela Rodovia Presidente Dutra ­– a SP 60 ou BR 116, que liga São Paulo ao Rio de Janeiro, onde a Jornada Mundial da Juventude (JMJ) foi realizada nesta semana.

O veículo, branco com sua faixa “escolar” amarela, tinha disponíveis 25 lugares. Não possuía ar condicionado, nem bancos reclináveis, sequer um banheiro para uma viagem que duraria cerca de quatro horas. Os romeiros, entretanto, não desanimaram. Às 22 horas, eles rezavam no “Grupo de Oração” da igreja e pediam a intercessão de Nossa Senhora da Boa Viagem. Do lado de fora, o motorista esperava, observando os passantes que se protegiam do vento gelado enquanto caminhavam pela Rua Salvador Tolezano.

Padre Reinaldo Emílio, à frente da excursão, contou que, durante uma missa, jogou uma pergunta, por brincadeira: “Vamos ir até Aparecida para ver o papa?”. Eis que, ao final da celebração, Marcelo, responsável pelo transporte escolar de crianças, se ofereceu para levar fiéis até o Santuário Nacional de Aparecida. “Ele disse que queria ter o carro abençoado, eu falei que ele teria mesmo que nos levar, então”, conta, entre risos, o padre.

Com o atraso comum entre os peregrinos, o micro-ônibus saiu pelas ruas da cidade às 23 horas da terça-feira. Francisco, o papa argentino, somente chegaria à basílica às 10 horas do dia seguinte.

Na estrada

A madrugada em Aparecida. (Foto: Rafael Iglesias)
A madrugada em Aparecida. (Foto: Rafael Iglesias)

Os assentos do ônibus não foram totalmente lotados, cerca de 20 pessoas estavam lá. Atrás da poltrona deste jornalista, estava a última fileira, batizada de “cozinha”, lá duas mulheres organizavam a partilha de lanches, chocolates, bolos, tortas, café e chá para quem quisesse. Todos comeram as comidas trazidas por todos.

Na poltrona ao meu lado, em dado momento dos 168 quilômetros do roteiro, Reinaldo se sentou para papear. Ele, nascido em São José dos Campos, tem seus 55 anos e foi ordenado sacerdote em 1º de fevereiro de 1992, depois de estudar com muitas dificuldades na própria cidade do santuário.

“Na primeira visita de um papa ao Brasil, eu fui um dos seminaristas escalados para acompanhá-lo durante a pousada na basílica”, conta, se referindo à viagem de João Paulo II, em 1980, ao país. Na ocasião, o polonês ­– que deve ser declarado santo ainda este ano – percorreu 13 cidades em 12 dias de viagem.

Durante a conversa, lembramos que Karol Wojtyła (morto em 2005) disse, uma vez, que “se Deus é brasileiro, o papa é carioca”. Na chegada ao país, o atual líder da Igreja Católica, disse algo que pode ser colocado na mesma categoria de frases: “Deus é brasileiro e vocês ainda querem um papa?”. Foi assim que brincou Francisco, com “o bom humor de um argentino após a vitória com la mano de Dios”, como definiu um romeiro.

O que seria o primeiro contato de Reinaldo com um papa, entretanto, não aconteceu. No dia em que receberia o papa, ele machucou o pé e contraiu uma infecção, que o manteve afastado dos trabalhos. “Digamos que eu não tive muita sorte nessa primeira vez”, brinca.

Em 2007, houve a primeira viagem do líder seguinte, Bento XVI. Uma grande celebração foi realizada no Estádio do Pacaembu, na Capital. Reinaldo foi credenciado e ficaria ali, bem pertinho de Joseph Ratzinger. “Acredita, menino, que eu fiquei doente de novo e não encontrei o alemão?” O padre fez uma pausa dramática, pediu um café e mordeu uma fatia de bolo de coco.  “Acho que Deus não quer que eu veja o papa.”

Neste ano, quando confirmada a visita de Francisco ao país e à cidade – logo após a renuncia de Bento XVI e o “habemus papam” –, Reinaldo imediatamente levou seus documentos ao órgão religioso responsável pelo credenciamento dos padres.

“No dia de buscar a credencial, fui até lá e descobri que a secretária havia se esquecido de enviar meus documentos.” Ela registrou todos os padres interessados, mas não se lembrou de Reinaldo, que foi o primeiro a entregar os documentos. “Sorte dela que eu sou padre”, gargalhou.

Fila do purgatório

A chegada de Francisco. (Foto: Rafael Iglesias)
A chegada de Francisco. (Foto: Rafael Iglesias)

A torre do relógio da basílica marcava a terceira hora da quarta-feira (24), quando desembarcamos no estacionamento do santuário, no exato momento da terceira batida do sino.

Conversando com policiais militares e soldados do Exército Brasileiro, descobri que mais de 20 mil pessoas já estavam no local nesse horário.

Isso porque todos os lugares dentro da igreja (15 mil disponíveis) e as cadeiras do lado de fora já haviam sido preenchidas com senhas de acesso.

Restou a nós permanecer na fila para ficar de frente para a basílica, com visão do palco de fora, dos telões, de corredores por onde Francisco passaria com seu papamóvel, e com a visão do heliporto local. Entramos nessa fila às 3:30 horas. Chegamos ao posto de revista às 9 horas.

Reinaldo brincava com os fiéis: “Olha, queridos, no dia do juízo final, a fila do purgatório vai ser assim, vamos nos acostumando”. As filas faziam caracóis, saíam das muralhas do santuário. As mãos de quem estavam sem luvas – entre esse grupo, eu – ficavam roxas, perdíamos a possibilidade de dobrar os dedos. Uma garoa serenava por toda a madrugada.

No balcão onde a Polícia Militar revista absolutamente todas as pessoas, depois de cinco horas em pé na fila do purgatório, policiais passaram sobre mim o detector de metais. Como eu estava com diversos objetos, precisei tirar todos dos bolsos (câmeras, celulares e afins) para poder entrar no local. “Menino, quando metal, vai ver o papa ou construir um avião?”, brigou uma senhora de 74 anos, que estava atrás de mim.

As bandeiras. (Foto: Rafael Iglesias)
As bandeiras. (Foto: Rafael Iglesias)

O Papa

Dez horas da manhã. O helicóptero das Forças Armadas pousava com Francisco em Aparecida. Do lado de fora, o governador do Estado, Geraldo Alckmin, o recebia, na companhia do cardeal arcebispo da cidade, Dom Raymundo Damasceno Assis, também presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

Quando a primeira imagem do papa apareceu no telão, as dezenas de milhares de fiéis vibraram em palmas e gritos de “Francisco, Francisco”, como aqueles típicos gritos usados por torcidas de futebol em uma final de campeonato.

Com o papamóvel aberto debaixo de chuva, Jorge Mario Bergoglio rumou do heliporto até o corredor onde os fiéis o esperavam. Ele passou pelo outro lado de onde eu estava. Num pique, com todas as pessoas, saí correndo como nunca na vida, para conseguir ao menos uma foto. Passei literalmente por baixo de fiéis e cheguei à grade de proteção. Francisco, o papa, também olhou por este repórter, deu um sorriso e fez um aceno.

Com a câmera em mãos, registrei o momento para este texto. Mais à frente, ele abraçou e abençoou uma criança, em cena típica de seu papado. Assim, ele chegou e entrou na basílica para rezar a missa. E quanto ao padre Reinaldo, conseguiu, pela primeira vez, ver um papa.

Em papamóvel aberto. (Foto: Rafael Iglesias)
Em papamóvel aberto. (Foto: Rafael Iglesias)

Venerados irmãos no episcopado e no sacerdócio

Assim, com a frase que abre esta seção do texto, Francisco iniciou sua homilia (o popular sermão feito pelos padres após a leitura do evangelho). “Hoje, eu quis vir aqui para suplicar à Maria o bom êxito da JMJ e para colocar aos seus pés a vida do povo latino-americano”, disse.

Do lado de fora da basílica, todos os fiéis permaneciam em silêncio para ouvir as palavras do representante maior da religião. A eles, destacou três posturas simples para viver. A primeira é conservar a esperança. “Por maiores que as dificuldades possam parecer, Deus nunca deixa que sejamos submergidos”, afirmou.

Deixar-se surpreender por Deus é a segunda postura. Como exemplo, Francisco usou a própria história do santuário. Três pescadores, depois de um dia sem conseguir nenhum peixe no rio Parnaíba, conseguiram pescar apenas uma imagem: a de Nossa Senhora da Conceição. “Quem poderia imaginar que o lugar de uma pesca infrutífera, tornar-se-ia o lugar onde todos os brasileiros podem se sentir filhos de uma mesma Mãe?”

A última postura é viver na alegria. “O cristão é alegre, nunca está triste. Deus nos acompanha”. Pouco depois do final da celebração, o papa saiu ao palco montado na entrada da igreja, para abençoar os fiéis.

Debaixo de gritos de “viva” e muitos aplausos, abençoou os católicos e pediu, como no dia de sua posse: “Rezem por mim!”. E neste momento, um vento forte voltou a correr pela cidade e a chuva começou a cair novamente. “Chuva de graças”, comentou uma jovem que levantava a bandeira com a foto de Francisco.

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