Chocolate por fora, creme por dentro


Condenado por injúria no início de julho, o jornalista Paulo Henrique Amorim (TV Record) foi acusado de preconceito ao chamar outro jornalista, o Heraldo Pereira (Globo), de negro de alma branca.

Em seu site, “Conversa Afiada” – onde, afinal, não havia conversa, mas um monólogo –, PH disse ainda que o colega, em sua trajetória, não conseguiu revelar nada além de ser negro e de origem humilde. O assunto é um tanto quanto antigo, mas não pode ser esquecido – ou pode.

Amorim foi condenado a um ano e oito meses de cana, mas, evidentemente, não ficará preso. A ação criminal movida pelo Ministério Público do Distrito Federal (MP-DF) será substituída por alguma restrição de direitos, seja lá o que signifique isso.

captura-de-tela-2013-07-20-c3a0s-12-48-06

A decisão da mulher cega diz que o réu divulgou artigo jornalístico que se restringe a criticar a vítima “sem qualquer dado concreto”. Opa, calma aí. Existe dado concreto para dizer que uma pessoa é negra, mas tem a alma branca? Pode isso, Arnaldo? Sim, pode, e a regra é clara. Está lá escrito na decisão. E é aí que se encontra o preconceito nas entrelinhas.

Como resultado de uma ação civil por danos morais, movida por Heraldo e concluída em 2012, PH apenas teve de fazer uma retratação pública (publicada em grandes jornais) e pagar uma grana a uma instituição de caridade.

Expressão parecida é utilizada em Belém da Fafá para explicar como um juiz negro (“o mais bondoso do Pará”) chamado Monteiro Lopes, incorporou seu nome a um doce. Chocolate por fora, creme por dentro.

A informação consta da grande reportagem “Existe preconceito de cor no Brasil”, de 1967, época da Ditadura Militar. Publicada pela histórica revista Realidade, o texto escrito em primeira pessoa foi assinado por Narciso Kalili e Odacir de Mattos. Este, um negro convidado a participar de experiências para mostrar se em terras sambistas existia ou não o tal preconceito de cor, como é definido pela matéria.

Numa levada do jornalismo gonzo, em que o produtor da notícia participa dela, os fotógrafos Luigi Mamprim e Geraldo Mori também figuraram nas linhas da história (com inicial minúscula e maiúscula), vivenciada por todos eles, num período de 20 dias, em seis capitais do impávido colosso.

Sem o objetivo de mostrar dados de uma pesquisa científica, a equipe de Realidade quis mostrar, no cotidiano, como funciona o preconceito em sua essência – em olhares, em falsetes, em palavras, em ações –, aqueles detalhes imperceptíveis, flagrados por câmeras, analisados e descritos com emoção pelo escritor-personagem.

captura-de-tela-2013-07-20-c3a0s-12-48-45

Antes de escrever este texto, subi a escadaria da Catedral da Sé, no centro de São Paulo, para observar os passantes do mesmo cenário da reportagem feita 46 anos atrás. O dia estava cinza, com cara de chuva, e as pessoas passavam com pés produzindo um “pá, pá, pá”, como no ritmo de todas essas palavras começadas com a letra “p”.

Como descrito por Kalili e testado na pele por ele, passava um casal. Um negro e uma branca, ambos bem vestidos, mas observados por olhares devoradores de outros passantes. Fiquei quase uma hora à espera de uma negra e um branco. A mesma cena se repetiu. Realidade foi um veículo tão histórico que sua realidade continua sendo realidade. Incrível como alguns minutos de atenção podem mostrar isso.

Os personagens se submetem às mesmas experiências, com resultados diferentes. Para matricular o filho em uma escola particular, o branco tem facilidade; o negro, não. Odacir não conseguiu colocar sua criança hipotética em nenhuma escola. E, junto com Narciso, duvidou da qualidade de um sistema educacional onde os produtores de conteúdo navegam em mares de preconceitos.

Em Belém, Recife, Salvador, São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre, os resultados das experiências foram os mesmos. A discriminação racial existe, sim, no Brasil. E não é apenas de branco em relação a negros, mas o contrário também, e, além disso, assustadoramente, entre as próprias etnias.

Se estivesse vivo hoje, Kalili veria, observaria entre as cidades que sua reportagem continua atual e mostrando como é a dinâmica discriminatória do Brasil. E quem duvida, que se sente na rua e olhe atentamente as pessoas por alguns poucos minutos.

Infelizmente, a reportagem só mostra como o preconceito fez raízes nos brasileiros. O ator Wagner Moura, famoso por “Tropa de Elite” (e apenas por isso) – além de pseudocantor – afirmou em um programa de televisão que fica irritado com negro pedindo direitos para o negro. “Negro não tem de pedir, tem de conquistar”, concluiu. Indiretamente, Kalili respondeu a isso, há muito tempo: negro não tem que pedir direitos, também não tem que conquistá-los. O negro tem direitos, natos, como você, eu e todo o resto. E ponto final.

Assim, não é anormal ter vontade de fazer como Minny Jackson, personagem que rendeu um Oscar ao filme “Histórias Cruzadas”. O que ela fez? Uma torta com suas fezes para a patroa que a discriminava.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s