O drama na escada rolante


Pouco passava dos dez minutos da vigésima hora de sexta-feira, último dia 8 de novembro de 2013, quando eu tropeçava no vão para sair do trem e descer as lotadas escadas rolantes da estação da Sé.

Havia uma aglomeração fora do comum para esse dia, que geralmente é mais tranquilo. Com meu enorme tamanho, fui abrindo espaços entre os passantes e me aproximei para descobrir o que ali se desenrolava.

Não desenrolava.

032_panamericano_bue_07

Consegui depois de não muito esforço me aproximar da “entrada” das escadas. Uma senhora, de 78 anos, vestido branco e um lenço enrolado na cabeça, estava parada. Não sabia o que fazer. A expressão de medo era dramática.

Nascida no interior de São Paulo, na cidade de Araçatuba, ela percorreu bons 524 quilômetros até a capital, para visitar parentes. Na chuva, ela resolveu se molhar na descoberta de um novo meio de transporte – nosso amado e idolatrado, salve, salve, metrô.

Empacada na boca da escada, ela suava frio e tremia, dizendo aos familiares: “Meu Deus, me levem até uma coisa dessas de verdade, está me dando tontura”. Alguns passageiros riam da senhora, que em sua humildade não respondia, nem entendia o motivo dos risos.

Um enfermeiro apareceu, ele saía do trem que rumava ao Corinthians (Timão ê, ô, tcha, tcha, tcha) barra Itaquera. Colocou o braço em volta da idosa e disse: “Minha querida, segure aqui a minha mão, que eu vou te ajudar”.

Com toda a paciência, o rapaz, de 33 anos, ensinou como a velhinha deveria fazer para descer. “Coloque a mão aqui [no corrimão], agora, ponha um pé de cada vez, com firmeza, para não cair. Isso, muito bem.” Durante a descida, a mulher falava: “Ai, meu filho, tenho medo até de abrir os olhos para ver isso aqui”.

Próximo do fim do martírio, o homem explicou que ela deveria colocar o pé para fora da rolante e sair andando. Ao lado dela, como um companheiro, viu uma vitória. No final da cena, a mulher levemente tomou sua mão, onde deu um beijo de agradecimento.

“Filhinho, muito obrigada por me ajudar, acho que eu vou tentar subir de novo e descer de novo para não ficar mais com medo desse negócio aqui”, disse num misto de sorriso e simples emoção.

Antes de seguir seu rumo, ela olhou para um casal de parentes e, num espírito chespiritiano, soltou a máxima:  “Olhe para vocês, meus filhos, ninguém tem paciência comigo”. E se foi com eles. Talvez sua história tenha ficado imortalizada no vão entre o trem e a plataforma. Ou não.

Reticências abertas neste momento, algumas prolixas informações cabem aqui – ou não cabem.  Quando eu comecei a estudar o jornalismo (aqui, escrevo em inicial minúscula apenas por estética), como se fosse possível estudar o jornalismo, ouvi de muitos profissionais aposentados do mercado ­– que viraram professores exatamente por isso – que a editoria mais rica em histórias é a policial.

De dentro dessa seção há quase um ano, me resta discordar. Não que não existam excelentes histórias dentro de crimes e ações cinematográficas entre policiais e criminosos, como sequestradores e homicidas completamente malucos, ou como o desenrolar de investigações tão detalhadas que sabem até que a unha do dedinho do suspeito é deformada como se fosse uma batata da onda.

Nos trens metropolitanos, carinhosamente chamados de metrô, estão as mais diversas e esquisitas histórias da vida humana, cotidiana ou não. Apenas vida. Vida que se respira entre os poucos espaços de ar de horários de pico.

Neste espaço em que hoje encho de baboseiras, contei a história de uma mulher, grande, bem grande, deitada no chão numa pose de pequena sereia sobre a pedra sendo fotografada para aquela revista masculina na estação Anhangabaú (Linha Vermelha). Do jeito que veio ao mundo. Pelada, pelada, nua com a mão no bilhete único.

Em próprias escadas rolantes,  um homem — de terno azul e gravata vermelha, como manda a combinação — bateu com o braço em mim e falou: “Dá licença que eu sou advogado”. Virei e disse que era azar o dele. A riqueza da crônica está entre o espaço de um corpo e outro, no metrô.

Feliz daqueles que observam as pessoas e ouvem as conversas alheias no transporte público, porque deles será o reino do… não, não haverá reino, mas haverá alguma. Só não me pergunte o que será que será.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s