Flores sobre trilhos


Próxima estação: Santana. Desembarque pelo lado direito do trem. Aquela voz altíssima que soava entre os vagões da primeira linha do metrô, a azulada, avisava aos passageiros que haviam saído da estação Jardim São Paulo que um quilômetro já fora percorrido no subterrâneo da cidade.

A parada do jardim também é chamada de Ayrton Senna, o homem da velocidade que é sempre lembrado pela lentidão, antes em rodovia, agora também no transporte público. Veja você. E Rubens continua por aí, no esquecimento. Engraçado, pensava, enquanto tentava me arrumar entre usuários, naquele 16º trem da frota nova.

Na estação, primeira de uma sequência “aérea” (alô, Levy Fidelix) que vai até a Armênia, quando as portas da esperança se abriram, uma manada estourou as cercas e saiu dando chifradas, cotovelas, chutes e barrigadas contra os pobres coitados que estavam enlatados no lugar.

Eis, contudo, que uma pessoa ocupava um espaço maior. E não, leitor espertinho, não era eu, este gordo que escreve. Era, pelo contrário, um rapaz magro, que aparentava ter, no máximo, seus 25 anos de idade. Duas décadas e meia. Nada mal, mas ele ainda não tinha direito ao assento preferencial, que poderia ajudá-lo.

Foto: Amantes de ferrovias.com.br

Não com mais de 1,60 metro, vestido de branco, negro e com olhos castanhos, ele tinha concretado em sua face um sorriso que buscava o infinito. Parecia vestido para uma data inesquecível e ostentava uma aliança prata na mão direita, que irradiava as mais de cem pessoas (mais de duzentas, trezentas, talvez) que olhavam para ele, naquele vagão.

Um casal de idosos, ambos com mais de 80 anos esboçados no corpo, se abraçaram quando perceberam que esse rapaz não era esmagado por uma simples razão: carregava em seus braços, como se ninasse um bebê recém-nascido, um grande ramo de flores. Eram rosas, rosas vermelhas.

“Hoje faz três anos desde que encontrei a menina da minha vida. Na faculdade, vou encontrá-la. Ela não sabe da surpresa, tomara que nem se lembre do dia que é hoje”, contou aos passageiros – entre eles, eu – que estavam em volta, curiosos pela situação.

“Mas, filho, até aqui está tranquilo, o que você vai fazer quando chegar na [Estação da] Luz?”, perguntou um homem de terno marrom e camisa horrivelmente laranja. “Não tinha pensado nisso, mas assim, se é Luz, que venha uma na minha cabeça”, falava, sorrindo, com uma voz ritmada, que mais parecia canção.

Passou o Carandiru, passou a Portuguesa à sombra da justiça desportiva, navegamos sobre o Rio Tietê, chegamos aos armênios e, depois, ao dentista enforcado. O momento de tensão se aproximava. Era a lendária estação iluminada, onde não só há o perigo misterioso do vão entre o trem e a plataforma, mas também da altura entre o trem e a plataforma.

O chão do embarque não se podia ver. Era escondido por sapatos, tênis, saltos, sandálias e um par de Havaianas azul e branco. O rosto do rapaz se desfez de felicidade e demonstrou o mais puro pânico, a mais depressiva desolação. Talvez Agostinho já fosse santo quando disse que para se conseguir uma grande alegria é sempre necessário passar por um grande sofrimento.

“Meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?”, deve ter pensado o rapaz, que teve os olhos tomados por um brilho aquoso de lágrimas contidas e não derramadas. Afinal, o drama por si já era demais para uma manhã de segunda-feira. O homem, então, piscou duas vezes, se esforçou para coçar a cabeça e teve uma ideia.

“Vocês podem ficar em volta de mim, para ninguém me destruir?”, pediu a mim e a outros três homens grandes que estavam por perto. Todos aceitamos e, então, formamos um deformado semicírculo colado à cabine do maquinista, onde o apaixonado estava encostado.

Um hematoma na costela foi o que conseguiu o moço mais próximo da porta, com a violência dos usuários do trem ao entrarem quando as portas duplas se arreganharam na estação da morte. Um, duas, vinte, trinta pessoas entravam na estação, cada uma delas com um olhar mais curioso sobre o drama que lá se desenrolava.

São Bento até que tentou ajudar, mas como houve uma “falha técnica” em alguns dos pontos do sentido Jabaquara, até o agora santo personagem de Machado de Assis lotou. Sete e meia da manhã. E foi o momento em que o primeiro botão do buquê desabrochou.

Rumo ao chão. Foi assim que desabrochou a rosa. Bem me quer, mal me quer, bem me quer, mal me quer. Assim, nesse ritmo, o rapaz viu sua tentativa romântica ser pisoteada, pétala por pétala. Ora, mas foi apenas uma flor, de um ramo onde estavam presas outras trinta, no mínimo.

Autor de “O Médico e o Monstro” e também poeta, o escocês Robert Louis Stevenson dizia que você deve guardar seus medos para você mesmo, mas deve partilhar sua inspiração com todos. Foi o que fez o garoto. Cada minuto de sofrimento foi compensado pelo destino final a que ele chegaria.

E não, meu amigo, não falo da estação onde ele desembarcou. Estou me referindo à mulher que ele ama, que recebeu todas as flores, menos uma rosa vermelha, despedaçada, para representar que a paixão verdadeira supera todos os obstáculos e todos os sofrimentos.

O amor verdadeiro é capaz até de pegar o metrô. Quer prova maior de sinceridade, cumplicidade e fidelidade? Não há. O romantismo também pode se esconder na escuridão de um túnel. Resta acender a luz, mas não a da estação, por favor.

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