Assento preferencial


Dona Geralda embarcou às 7h40 de quarta-feira (19) na estação Santana do Metrô, rumo ao hospital onde trata um câncer no timo, glândula que fica entre o coração e o pulmão. Também diabética, aos 76 anos, ela enfrenta rotineiramente o transporte público lotado.

“O tratamento do tumor é feito sempre pela manhã, não temos outra opção para deixar de usar o trem no horário de pico”, conta a filha, Soliedade, que acompanha a mãe nas consultas. O vagão estava lotado. E dona Geralda precisava se sentar.

Com uma e outra ferida nos braços, não conseguiu chegar até um dos bancos, por causa da quantidade de pessoas que tentavam chegar ao trabalho, à escola, à faculdade, ou simplesmente ao ponto de encontro da batida de pernas.

Educadamente, algumas pessoas abriram o caminho para que ela se aproximasse do assento preferencial, num tom de azul claro e brilhante, que dói nas vistas quando iluminado pelo sol da manhã. Uma moça, jovem, olhou bem para dona Geralda e virou o rosto, pouco se importando.

Um rapaz, de camiseta azul, não se conteve. Disse em alto e bom som, atraindo a atenção dos amontoados passageiros: “Moça, dê licença para a senhora idosa se sentar, por favor”. Sua camiseta, não citada aqui à toa, trazia estampada a frase: “Precisamos ser a mudança que queremos ver no mundo”.

A mulher engoliu em seco e expressou a mais profunda cara de pau ao responder: “Mas ela já se segurou na barra, não precisa ficar sentada. Ela já tem em que se apoiar”. Foi a pior desculpa para uma situação desde faltar à aula avisando ter consulta no dentista.

Não vou dizer que todos os olhares se voltaram para a mulher sentada, porque muitas pessoas estavam dormindo nos espaços do trem. Mas foi gente suficiente para fazer a moça fingir estar passando mal. Ela fez cena até a estação da Luz – seis depois de Santana –, onde desceu.

Ao desembarcar, na estação São Joaquim, dona Geralda reclamou. “Todo dia é a mesma coisa, eu estou indo ao médico, não aguento mais ficar tanto tempo em pé, ninguém tem mais educação e não há mais respeito pelo próximo”, desabafou. “Na minha época não era assim…”

Ela e a filha, Soliedade, caminharam até o hospital A. C. Camargo para os procedimentos de  tratamento do câncer no timo, após posarem em foto para o Reticência Jornalística, na plataforma da estação.

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Enquanto isso, na fila do ônibus…

Dois ônibus estavam parados, no ponto final da linha que leva do Jardim São Paulo à Vila Amélia, na zona norte da Capital, no dia 12 de fevereiro. O primeiro carro estava lotado e os assentos preferenciais estavam desocupados.

A fila já estava formada para encher o ônibus de trás. Uma idosa, que apareceu no local, foi até o início da fila, para entrar no segundo veículo

O fiscal da empresa de transportes a avisou: “Os bancos reservados estão livres, senhora”. Ao que ela respondeu: “Tudo bem, eu espero o próximo ônibus, não gosto de sentar no banco preferencial, para não me sentir velha”.

E uma pessoa da fila completou, para vibração dos demais: “Mas para entrar na fila, à frente dos outros, a senhora gosta de se sentir velha, né?”. Fim da história.

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