Confusão mental de um subversivo


TANTO TEMPO SE PASSOU E ainda tenho medo. Tenho medo porque vejo tudo voltar à tona, de maneira mais brutal. Talvez me seja fatal desta vez, se não foi da outra, simplesmente porque eu não havia ainda sido gerado no vente de minha mãe. Nem sei ao menos se verdadeiramente já existi algum dia. Eis, contudo, que preciso neste primeiro de abril do ano corrente declarar-me. Não é possível mais manter um grito calado.

Estou de pé no Marco Zero da cidade de São Paulo, na Praça da Sé. Eu inflo os pulmões, preparo o diafragma. Eu sou um subversivo. Não me contenho mais em minhas publicações, enquanto jornalista. Sou um criminoso dos mais perigosos da história. Meu maior delito, hediondo, é querer transformar em bom um mundo fétido, pútrido. Serei condenado por isso, por isso venho desculpar-me aqui. Não sei quanto tempo ainda me deixarão observar o nascer do Sol neste lugar, com o coração batendo.

A catedral ainda está fechada. É de manhã, é de madrugada, é de manhã, não sei mais de nada, é de manhã. Olho, eu vejo. Hoje, eu vejo. Dom Paulo Evaristo Arns está de braços abertos junto à réplica ali do Cristo Redentor. Como se fosse o último dia de outubro de 1975, quando nossa alma esteve revoltada contra os militares desgraçados que mataram nosso Vladimir, o Herzog.

Escapou do diabo, Hitler, para cair no tridente dos demônios maquiados de exército, com inicial minúscula, para que eles entendam que não impõem respeito desde o dia 31 de março do distante ano de 1964. E nunca reconquistarão isso. Aliás, é bem provável que nunca tenham conquistado uma veneração natural, já que para tê-la precisaram fazer sua imposição.

Violentos e estúpidos, eram eles. Não tinham a mínima capacidade de organizar uma farsa. Diziam que Herzog havia se suicidado com uma cinta do uniforme da prisão. O uniforme não tinha cinto. Além de tantas outras histórias de dribles à burrice dos censores da ditadura. Estupidez unida à vontade de assassinar.

Nem em uma possível terceira guerra mundial, disse-me alguém, eles seriam divinificados. É provável, continuava, que a sociedade se una aos inimigos para destruir quem causou destruição ao próprio povo. Aquela, uma guerra de brasileiros contra brasileiros. Sangue irmão derramado por ganas de poder. De glória. Ao inferno, com as suas glórias, malditos!

O arcebispo falava e suas palavras permanecem até hoje vivas, eternizadas agora em papéis pelo jornalista Audálio Dantas, em As duas guerras de Vlado Herzog: da perseguição nazista na Europa à morte sob tortura no Brasil (Civilização Brasileira, 2012, 406 páginas, ótimo, R$ 42):

“Deus é dono da vida. Ninguém toca impunemente no homem que nasceu do coração de Deus, para ser fonte de amor em favor dos demais homens. Desde as primeiras páginas da Bíblia Sagrada até a última, Deus faz questão de comunicar constantemente aos homens que é maldito quem manda suas mãos com o sangue de seu irmão. O Senhor da História não aceita a violência em fase alguma, como solução de conflitos. E no meio do Decálogo aparece a ordem, como imperativo inarredável, princípio universal, indiscutível: ‘Não matarás’. Quem matar se entrega a si próprio nas mãos do Senhor da História e não será apenas maldito na memória dos homens, mas também no julgamento de Deus”.

Quando Dom Paulo tinha acabado de chegar aos seus oitenta anos e eu era um coroinha com pouco mais de dez de idade, nos encontramos mais uma vez, numa missa de aniversário da Paróquia Santo Antônio dos Bancários, que ele fundou. Ao final da celebração, fui cumprimentá-lo. Ele me abraçou, com uma simplicidade sem tamanho, bateu nas minhas costas e disse que eu seria uma pessoa muito boa e que eu era especial para Deus.

Talvez ele falasse aquilo para todas as crianças. Mas eu levei a sério, como tudo que ele dizia sobre ser cristão: trabalhar para que haja justiça e solidariedade em todos os lugares. O cardeal da resistência, cuja história me fez pensar pela primeira vez em mudar o mundo, o motivo pelo qual, anos atrás, eu escolhi a profissão que hoje eu exerço com paixão. O Brasil precisa de mais novos Arns (ou ares), de braços abertos como naquele dia.

Vlado

MINHA ALMA ESTEVE PRESA NOS porões, como a sua. E de lá, temo, nunca sairemos, nossa pátria nunca será liberta. Ainda que agora estejamos livres. Realidade é que, diria algum escritor fugitivo de minha memória já desgastada, você sai de lá, mas o lá não se desgruda da sua pele, te sufoca, te arranca os nervos e fere a alma de maneira tão forte que você não tem forças para desistir de sentir dor e se entregar completamente aos braços da morte. A vida sempre será mais forte que a morte. Sinta isso em suas veias e concorde comigo.

A história se passa diante de meus olhos, em alguns momentos não sei se realmente vejo ou se apenas morri com as pálpebras abertas e meus olhos registraram tudo que acontecia antes de meu sangue decantar nas partes baixas, se coagulando e deixando rígido meu corpo. Se existe inferno, foi isso que eu vi. E o que eu vi, todos vocês, leitores, também viram, e guardam agora o dever de repassar a experiência para o mundo.

É preciso ajudar o povo a se libertar, ainda que estejamos sempre presos a nós mesmos. Como diria o senhor torturador Sérgio Fernando Paranhos Fleury, vamos “viver morrendo”. Isso a cada dia de lembranças sobre a Ditadura Militar brasileira.

Interessante notar que, em terra de palmeiras onde canta o sabiá, ao contrário do restante do mundo, o carrasco não usa máscaras. Está ali, de cara limpa. Encapuzados se tornam as vítimas. A ostentação da crueldade não tem limites, não teve, nunca terá. Ainda mais aqui, podemos ver. Principalmente quando revemos os conceitos difundidos por aí de “bandido bom é bandido morto” e “Direitos Humanos para humanos direitos”.

Criminosos são os que inserem esse pensamento vergonhoso na sociedade. Adotemos um ladrão, chame, chame o ladrão, chame o ladrão, à sugestão daquela senhora persona non grata no jornalismo de boa qualidade.

Até Saddam Hussein, enforcado em praça pública no ano de 2006, teve preservado o direito – se é que podemos assim dizer – de não olhar para o rosto de seus matadores. A situação era, sim, diferente, eu sei, mas tomamos o exemplo para dizer que esses fantasmas não tinham rostos.

No Brasil, as assombrações têm face, olhos, boca, nariz, cabelo e podem, ou poderiam, ser encontradas na rua, a qualquer momento. É a tortura sem fim. Não é de espantar que o suicídio tivesse sido uma saída para escapar à dor eterna, como Frei Tito, que não foi morto na violência, mas entregou sua vida por não aguentar mais suas recordações.

ditadura_2_620

CONHECEMOS BEM OS MÉTODOS DE tortura utilizados pelo Ministério do Amor do Brasil. Era este, segundo George Orwell, em 1984, o órgão responsável por manter a lei e a ordem. De todos os ministérios, esse era o mais apavorante.

“O edifício não tinha nenhuma janela. (…) Era impossível entrar no prédio sem uma justificativa oficial, e mesmos nesses casos só transpondo um labirinto de novelos de arame farpado, portas de aço e ninhos ocultos de metralhadora. Mesmo as ruas que levavam até as barreiras externas eram percorridas por guardas com cara de gorila vestindo fardas negras e armados de cassetetes articulados.”

Talvez fosse uma espécie de Destacamento de Operações de Informações somado a um Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi) das memórias do escritor.

O quarto 101 da história. “Faça o que quiser comigo!”, gritou um personagem com cara de caveira. “O senhor está me matando de fome há várias semanas. Acabe com o assunto de uma vez e me deixe morrer. Me dê um tiro. Me enforque. Condene-me a vinte e cinco anos de prisão. Tem mais alguém que o senhor quer que eu denuncie? É só dizer quem é, que eu falo tudo o que o senhor quer saber. Não me interessa quem é a pessoa nem o que o senhor vai fazer com ela. Tenho mulher e três filhos. O mais velho ainda não completou seis anos. Pode pegar eles todos e cortar a garganta deles na minha frente que eu aguento e fico olhando. Mas não me leve para o quarto 101!”.

Nessa sala, os torturadores brasileiros, machos-alfa, brigavam para ver quem seguraria o pênis da vítima, como desculpa para prender no órgão os fios que seriam usados para eletrocutar a pessoa. Os gritos de dentro do prédio são ouvidos até hoje, cinquenta anos depois, pelas ruas da cidade, não apenas na Tutóia, onde ficava sediado o calabouço.

O mundo ouve os berros de dor, de depressão. Famílias até hoje choram. Você devia chorar também, assim como eu tenho vontade. Envergonhe-se do passado. Lute por um futuro melhor.

dilma

A PRESIDENTE DA REPÚBLICA, DONA Dilma Rousseff, disse ontem (31) em seu Twitter que  por 21 anos nossos sonhos foram calados. Esse foi período que durou a ditadura militar (1964-1985).

“Esforço de cada um de nós, de todas as lideranças do passado, dos que vivem, dos que morreram, fizeram com que ultrapassássemos essa época. As cicatrizes podem ser suportadas e superadas, porque hoje temos uma democracia social e podemos contar nossa história. O dia de hoje exige que nos lembremos e contemos o que aconteceu. Devemos isso a todos os que morreram e desapareceram, aos torturados e perseguidos, às suas famílias, a todos os brasileiros. Assim como reverencio os que lutaram pela democracia, também reconheço e valorizo os pactos políticos que nos levaram à redemocratização. Quem dá voz à história somos nós, quem no cotidiano afirma, protege, e amplia a democracia no nosso país”, escreveu.

Acho questionável a observação de que as cicatrizes podem ser suportadas e superadas. Não creio. Se assim fosse, não teríamos tanta movimentação diária sobre o tema.

Mais tarde, em um evento, Dilma voltou a falar no assunto: “Lembrar e contar faz parte de um processo muito humano, desse processo que iniciamos com as lutas do povo brasileiro, pela anistia, Constituinte, eleições diretas, crescimento com inclusão social, Comissão Nacional da Verdade, todos os processos de manifestação e democracia que temos vivido ao longo das últimas décadas. Um processo que foi construído passo a passo, durante cada um dos governos eleitos depois da ditadura”.

Já falamos de mais. Terminemos com uma paráfrase da presidente, que destacou a instalação da Comissão Nacional da Verdade, dois anos atrás. Disse ela, à ocasião que, se filhos sem pais, pais sem túmulos, não haverá uma história sem voz, às escuras. “E o que dará voz à história são os homens e mulheres livres sem medo escrevê-la. Quem dá voz à história somos nós.” Eu e você.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s