O latido silenciado


A escadaria estava vazia, ontem à noite, quando cheguei em casa. Eu já sabia, mas ainda não acreditava, como ainda não creio que isso pudesse realmente ter acontecido. Todos os dias, no mesmo horário, quando a porta se abria, ela a primeira a correr para me receber. Mas tudo foi silêncio.

De manhã, quando ela tremia um pouquinho, eu segurei sua cabecinha com as duas mãos, virei seu rosto para o meu e, olhando em seus olhos, perguntei: “O que você quer que eu faça?”. Eu esperava por uma resposta que eu sabia que não viria do modo convencional, mas que viria, em algum momento.

Seu olhar já estava perdido no espaço, esbranquiçados, e num momento, quando eu fiz a pergunta, me pareceu que eles deixavam escorrer algumas lágrimas, enquanto eu já me afogava em choro desde que me deixei cair como ficha dos telefones públicos antigos. Era o momento, mas eu nunca teria coragem de fazer aquilo.

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Ainda que perdido, esse olhar ainda era tão doce quando em 1997, quando apareceu por aqui pela primeira vez. Sua idade já era de quatro anos, mais ou menos, ninguém sabia estimar. Pequena, com pelos brancos e a cabeça marrom, dividida por um rastro de pelos também brancos. Patas rápidas e ágeis como as de um tigre e boca tão forte quanto a de um leão.

Eu já havia falado com quatro veterinárias. A Tica já não estava bem há algum tempo, algo como dezesseis meses diferentes, desde que meu pai morreu de câncer em 16 de dezembro de 2012. Depressão. Seus dentes estavam caindo. Apenas sobravam dois, os caninos de baixo. Havia tão poucos dentes que a língua já nem ficava presa dentro da boca.

E essa boca tem histórias para contar. Como na vez em que correndo pela rua, sozinha, voltou à janela de casa com uma dentadura. Se algum dos meus vizinhos perdeu os dentes e não sabia onde guardou, eis a hora de confessar que eu vi algo relacionado, quando era criança. Crescemos juntos, ela com a mesma idade que eu.

A escola que fica na rua ao lado estava em reforma e lá apareceu ela, uma Fox Paulistinha misturada com alguma coisa, resultando na mais linda vira-latas de toda a história da humanidade canina. Viveu mais um dois anos na rua, até que resolveu entrar pela janela da minha casa, para dormir no sofá todos os dias.

Nesse período, ela ficou prenha de quatro filhotes, um diferente do outro. Cavou um buraco de um metro na encosta do jardim e lá se meteu para dar à luz aos bichinhos, um marrom, um preto e branco, um cinza e um preto. Os dois últimos nasceram mortos, os outros dois morreram depois de anos de vida, antes da mãe. O marido abandonou a esposa.

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Foi com os filhotes fora da barriga que ela descobriu que passava pelas grades de casa e resolver sentar no sofá, de onde nunca mais saiu. Depois de alguns dias, ela já dormia na cama, comigo ou com meus pais. Fazendo questão de se deitar embaixo do cobertor, com a cabeça no travesseiro. Às vezes, quando tocava o despertador, ela fazia questão de nos lamber, para que acordássemos e a levássemos para passear.

Ela nunca fez xixi dentro de casa, até a idade chegar e com essa idade a falta de controle sobre o corpo, que já caía a cada tentativa de andar. Os olhos pareciam profundamente vazios, às vezes, quando parecia pedir ajuda para um sofrimento silencioso. Era a hora de levá-la à quinta médica.

Ela foi para a quarta fadada ao sacrifício. A veterinária disse que a mataria, já que não havia mais chances de que ela tratasse seus problemas, por causa da idade já tão avançada quanto o mais velho dos seres humanos vivos. Desolado, passei a primeira noite da minha vida sem ela.

No outro dia, quando cheguei em casa, era ela quem me esperava à porta. Ressuscitou. Ou não bem isso. Os exames não apontaram nenhum problema de saúde e a médica desistiu da eutanásia, graças a Deus. Estava tão bem que até quiseram adotá-la. Nunca seria capaz de permitir. Ela estava de volta.

Ontem, porém, precisou ir para o pronto socorro novamente. Eu já sabia que seria a última vez. Assim como os animais, os seres humanos também conseguem pressentir a iminência da morte (e não é preciso ser doutor para isso). Ela se foi, imaginava eu, para o lugar em que a matariam em silêncio.

Peço ao leitor que não me julgue. Com toda a certeza do mundo digo que essa não é uma decisão fácil a se tomar: permitir que tirem a vida de seu animal de estimação, companheiro de décadas. Ainda mais imaginá-lo receber uma injeção letal que o fará dar um respiro profundo antes de liberar sua alma para o paraíso. É doloroso demais. Mas seria ainda mais doloroso para ela continuar assim.

No começo da tarde, uma pequena convulsão fez-lhe diminuir o ritmo. O coração, tum, já não conseguia, tum, funcionar, tum, com tanta, tum, força. Parou. A vida se esvaiu. A Tica se foi no dia 16 de maio de 2014, exatamente um ano e cinco meses depois de meu pai. Foi encontrá-lo.

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