Sempre, e até de olhos vidrados, amar


10155501_835934333087149_554985203_nQue pode uma criatura, pergunta Carlos Drummond de Andrade em um dos melhores poemas da história da humanidade, senão, entre criaturas, amar?

É hora de responder ao mestre.

Além disso, nada pode a criatura.

O que não ama está condenado às trevas eternas de seu próprio ser, um buraco negro dentro da própria alma que busca o fim justamente no coração.

E não busca aquele amor simples, mas o verdadeiro, o intenso – como o que eu sinto e talvez você também o sinta, leitor. O amor que dê existência a uma vida paralela à realidade, mas que seja o motivo central do estar mundo e fazer disso seu maior feito.

Nossa busca está fadada à sorte de alguém que mude a nossa vida.

Costumo dizer que se um dia eu for alguém importante – e não serei –, que desperte em um jovem escritor alguma vontade de escrever minha biografia, o pobre coitado terá um árduo trabalho em busca de meu passado. Por mais que ele seja conhecido, em fragmentos, por muitas pessoas, na realidade, ele não existe.

Quem procurar a minha história verá que eu não tenho passado.

Porque a vida me fez iniciar a escrita do meu destino apenas a partir do momento em que eu comecei a amar, e se hoje é dia dos namorados, daqui a três dias se completarão dois anos desde quando constatei essa possibilidade, hoje realidade.

O amor apaga todos os rabiscos que fizemos com o lápis no bloco de anotações divino, mas não nos faz esquecer nenhum dos episódios que criamos.

Pelo contrário, nos ajuda a passar a limpo, usando caneta, cada detalhe que nos transformou no alguém que somos, de maneira a nos permitir a correção de erros e a diminuição da luz de algumas qualidade.

Para que não sejamos tão ruins nem tão bons, mas humanos.

E quando eu digo ser humano, não é do sentido concreto da expressão, mas do sentido que não podemos palpar.

Ser humano de sentimentos, de emoções, de acordar e ligar para a amada – não é, Bruna? – às cinco e meia da madrugada apenas para dizer “bom dia”, numa vontade louca de ouvir a voz que te faz sorrir, mais ainda na saudade.

Não, não temos outra opção que não seja entrar na rotação universal, rodar também e amar. Não só o nosso amor, mas também todos os detalhes que à nossa vida ganham importância, ainda que bobos, porque são intrínsecos ao sentimento.

O sol poente, por exemplo. Que casal nunca sentou para ver a noite cair, naquele laranja intenso, que vai ficando roxo e, enfim, azul escuro, marcado pela luz do luar?

Desde que começamos a namorar, Bruna e eu sempre quisemos ver a cena divina da natureza, que nunca colaborava com a gente. A cada fim de tarde, sempre árvores, sempre prédios, sempre tudo escondia a beleza do céu.

A cena romântica vimos quando menos esperávamos. Voltávamos do cinema e enquanto passávamos sobre a Ponte Cruzeiro do Sul e o Rio Tietê, a bola laranja iluminava todo o mundo do ocidente. Como numa abertura de O Rei Leão, ele parecia se esconder, não atrás das montanhas do Reino de Mufasa, de Simba e também de Kiara, mas no horizonte das próprias águas poluídas.

Nunca antes na história deste país um rio foi tão bonito. Foi mágico. Com ela, tudo é mágico, não importa o que seja.

O amor é uma luz que não dei­xa

Camilo Castelo Branco dizia que o amor é uma luz que não deixa escurecer a vida. Essa luz da minha vida brota do olhar da Bruna. Por isso eu preciso tanto do olhar dela, já disse tantas vezes isso, mas aqui pela primeira vez.

Do corpo da mulher que a gente ama emana uma energia que repõe todas as nossas, que nos renova, que nos faz viver.

A voz da Bruna, quando conversamos, é como se um coral de anjos cantasse hinos ao meu ouvido, estou sempre atento ao que você diz, apaixonado pelas suas palavras ditas ao vivo.

Seu sorriso funciona como um secador para as lágrimas que vez ou outra fazem os meu olhos marejarem. Talvez assim seja com você também, que me lê, se você for apaixonado. Mas duvido que exista tanto amor quanto em mim. Todo amante assim imagina.

A mente dela é a que relaxa os meus pensamentos, porque eu me sinto acolhido pela sua intelectualidade, me sinto seguro nos seus pensamentos. Suas mãos me seguram firme, não me deixam cair, nunca imaginei que uma mulher tão pequena em tamanho pudesse ser tão forte para carregar a minha alma com apenas um dedo — e equilibrando tão firme, sem vacilar na condução.

O aroma, o perfume que sai de seu corpo é como o de flores terapêuticas, me faz sentir leve, me faz sentir relaxado, me faz sentir anestesiado de todos os problemas, de todas as dores.

Quando, no melhor abraço do mundo – que é o nosso, meu e dela –, os nossos peitos se encontram, sinto o meu coração pulsar em direção ao dela, os dois no mesmo ritmo, como se quisessem se grudar um ao outro, para não serem separados nunca mais.

Ultimamente tenho apenas tido a certeza de que meu sangue circula  pelo corpo com o único objetivo de poder olhar em seus olhos a cada momento, saber que ela está viva, que está bem, que o sonho de toda a minha vida é real.

Que Deus me deu o maior presente do universo sem eu merecer. Que eu tento a cada dia ser melhor para merecer seu amor. A vida passa a ter mais sentido quando a gente ama. Porque sei que o sonho é real, ela existe e o amor não é um mito, o amor é verdade. O amor é ela.

Afinal, terminando a minha viagem de pensamentos, Drummond, como sempre, tinha razão. Completa razão.

Este o nosso destino: amor sem conta, distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas, doação ilimitada a uma completa ingratidão, e na concha vazia do amor à procura medrosa, paciente, de mais e mais amor. Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa, amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

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