O círio superfaturado


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Sede da Canção Nova, em SP

Há alguns anos, eu viajei pela primeira vez para Cachoeira Paulista, cidadezinha do interior que fica na região do Vale do Paraíba, a cerca de 193 quilômetros de São Paulo. Nunca senti tanto calor em um dia só. É lá que fica a sede da Canção Nova, comunidade católica de renovação carismática pela qual sempre tive muita simpatia.

O lugar é enorme e tem alguns pontos muito bonitos para se visitar. Mas o que me chamou a atenção foi outro detalhe – o mesmo que me fez nunca mais voltar ao lugar (ainda que eu continue consumindo alguns produtos da “rede”) e me decepcionasse completamente com o trabalho que desenvolvem.

Eu fui convidado pela Pastoral da Pessoa Idosa da Paróquia Santo Antônio dos Bancários, que fica no Mandaqui, zona norte da capital, a acompanhar a viagem de um grupo de vovôs e vovós, que não paravam de conversar nem por quinze segundos durante as quatro horas de trajeto, iniciado às cinco e meia da manhã. O motorista do ônibus resolveu somar mais meia hora ao tempo total de ida, porque se perdeu no caminho. Assim, chegamos lá às dez horas e acompanhamos uma missa com adoração ao Santíssimo Sacramento. Era uma quinta-feira e esse tipo de celebração é tradição nesse dia da semana.

Vi cantando na banda uma das cantoras que eu admirava (e até hoje admiro, pela voz que tem) e pensei comigo que iria procurá-la ao final da celebração para tirar uma foto – na época eu não estudava jornalismo, então, não me julguem por tietar alguém de quem admiro o trabalho e, no caso dela, a história de vida. O padre, eu não conhecia, mas não importa tanto, porque não foi ele o personagem. Nem a cantora, aliás, mas ela estava envolvida. Quando a missa, transmitida pela rede de televisão da Canção Nova terminou, a moça foi até o centro do palco (chamado oficialmente pela igreja de “presbitério”, porque lá é onde fica o presbítero, ou seja, o padre), pegou uma série de livros, que foram colocados por uma produtora em cima do altar onde as hóstias e o vinho foram transformados em corpo e sangue de Jesus Cristo, e começou a anunciá-los aos telespectadores, junto com promoções e possibilidades de parcelamento no cartão em até não sei quantas vezes sem juros.

Naquele momento, senti que perdia o chão com tamanha profanação do sagrado. Não porque eu seja um católico conservador – não sou e este texto mostrará um pouco de críticas, como esta –, mas porque nunca conseguiria sentir a minha Igreja, Católica Apostólica Romana, entrando de cabeça no sistema capitalista (selvagem) que tanto critica. Nunca mais voltei lá. E, aqui, lembrando o episódio, recordo também de uma frase do papa emérito Bento XVI, que li alguma vez em algum lugar e anotei: “A angariação dos recursos, os financiamentos, a produção, o consumo e todas as outras fases do ciclo econômico têm inevitavelmente implicações morais”. Se é assim, então, a moral e os bons costumes da Igreja estão um pouco abalados.

216668_551482394896204_700205284_nTanto tempo se passou (e eles não sabem o que é ser Gavião, que bobos) e eu pensei que aquele episódio não se repetiria diante dos meus olhos. Não da mesma forma. Afinal, passei a entender o fato da Canção Nova como um erro, já que a Igreja Católica, em teoria, considera no YouCat (Youth Catechism) que “um capitalismo que não esteja assente num ordenamento jurídico seguro corre o risco de se desligar do ‘bem comum’ e de se tornar um simples instrumento de ganância de alguns indivíduos. A Igreja rejeita isso decididamente. Pelo contrário, ela apoia uma economia de mercado que esteja a serviço do ser humano, impedindo os monopólios e garantindo o sustento de todos com bens essenciais e trabalho”.

Mas não foi bem assim. Entre a quaresma e o tempo pascal deste ano participei de missas na mesma Paróquia Santo Antônio – uso ela como exemplo da crítica, mas não deixo de reconhecer que é uma comunidade maravilhosa, localizada na Rua Salvador Tolezano, 164, no Mandaqui. Em uma das celebrações em que estive, um padre anunciou que havia um produto novo na “lojinha de artigos religiosos”, uma salinha na pequena cúpula à esquerda de quem chega que vende santos (tem uma imagem linda de Nossa Senhora Grávida lá, já comprei três para dar de presente) e algumas bugigangas com fotos de mártires e papas. Como era época de Páscoa, o novo item era uma réplica do Círio Pascal, símbolo da luz de Cristo ressuscitado. Para quem é religioso e tem uma pequena coleção de imagens em casa, a vela “estilizada” era bem uma tentação.

Ao fim da missa, fui até a tal lojinha e perguntei pelo novo produto. A moça vendedora virou de costas por um instante – o lugar é muito pequeno para dizer que ela andou até o armário para buscar – e desvirou, carregando a vela nas mãos. As informações, nas palavras dela própria: “Olha, Rafael, esta aqui é a réplica do círio que estamos vendendo. Isso aqui veio importado da Polônia e é de um material muito bom, resistente, e, aceso dura sete dias. Temos poucas peças. Custa dezoito reais”. O meu queixo, imagino, foi ao chão. O círio “polonês” (em aspas, aqui, pela ironia), nada mais era do que uma vela de sete dias branca com um adesivo (des)colado mal e porcamente imitando as inscrições do original. Os cravos, pregados em cada uma das pontas da cruz ilustrada na vela eram nada mais que alfinetes comuns, com cabeça colorida. Dezoito reais por isso. Não comprei, acho que também não respirei, tamanha foi minha estupefação (olha, palavra bonita).

Saí de lá e fui imediatamente até um mercadinho que fica na mesma rua e verifiquei: uma vela de sete dias custa, no máximo um real e cinquenta centavos, dependendo da cor. O preço mais baixo que encontrei (no mesmo estabelecimento) foi de noventa e nove centavos. Isso somado a mais cinquenta centavos de uma impressão colorida daria um máximo de dois reais para a produção do círio polonês. Ou seja, a paróquia aumentou em muitos por centos o preço de produção para a venda. Se dez peças fossem vendidas, haveria um lucro de cento e sessenta reais. Absurdo. Acho que ninguém foi tão bobo a ponto de comprar aquilo.

Confesso que fiquei tentado a abrir uma fábrica de círios pascais poloneses para competir com a igreja. Eu colocaria no mercado minhas velas a três reais, venderia mais e faturaria muito mais, mas sem explorar o consumidor com discursos furados e informações tão mentirosas que chegam a dar vontade rir. Sei que é difícil, mas o que eles vendiam era mais falso que uma chuteira da marca “Mike”, trazida do Paraguai e com entrada no Brasil pelo Mato Grosso do Sul. O cardeal Reinhard Marx, da Arquidiocese de Munique e Frisinga, da Alemanha, disse que “um capitalismo sem humanidade, solidariedade e justiça não tem moral nem mesmo futuro. Agora, me digam, essa lógica de mercado da Igreja tem seguido isto? Não mesmo.

A excelentíssima jornalista Eliane Brum (sou fã mesmo), que foi chamada de vagabunda por Silas Malafaia em entrevista ao New York Times em razão do texto que passo agora a citar – e que pode ser lido na íntegra aqui – ressalta que as igrejas são constituídas no modo capitalista, logo, são regidas pelas leis de mercado, usando o exemplo dos cultos protestantes. Recortei alguns pontos do texto e inseri alguns colchetes explicativos para mostrar que a minha ideia não é avaliar uma ou outra Igreja – o centro, aqui, no meu texto, é o catolicismo; no dela, não. Ao lerem o que seguem, por favor, captem a ideia como um todo.

“É possível […] pular de uma [Igreja] para outra, como um consumidor diante de vitrines que tentam seduzi-lo a entrar na loja pelo brilho de suas ofertas. Essa dificuldade de ‘fidelizar um fiel’, ao gerir a igreja como um modelo de negócio, obriga as neopentecostais [aqui, amplio às demais Igrejas] a uma disputa de mercado cada vez mais agressiva e também a buscar fatias ainda inexploradas. É preciso que os fiéis estejam dentro das igrejas – e elas estão sempre de portas abertas – para consumir um dos muitos produtos milagrosos ou para serem consumidos por doações em dinheiro ou em espécie. O templo é um shopping da fé, com as vantagens e as desvantagens que isso implica.

É também por essa razão que a Igreja Católica, que em períodos de sua longa história atraiu fiéis com ossos de santos e passes para o céu, vive hoje o dilema de ser ameaçada pela vulgaridade das relações capitalistas numa fé de mercado. Dilema que procura resolver de uma maneira bastante inteligente, ao manter a salvo a tradição que tem lhe garantido poder e influência há dois mil anos, mas ao mesmo tempo estimular sua versão de mercado, encarnada pelos carismáticos. Como uma espécie de vanguarda, que contém o avanço das tropas ‘inimigas’ lá na frente sem comprometer a integridade do exército que se mantém mais atrás, padres pop star como Marcelo Rossi e movimentos como a Canção Nova [olha ela aqui de novo] têm sido estratégicos para reduzir a sangria de fiéis para as neopentecostais. Não fosse esse tipo de abordagem mais agressiva e possivelmente já existiria uma porção ainda maior de evangélicos no país.”

Sede da Canção Nova, em SP.

Sede da Canção Nova, em SP.

Antes de continuar, cabem parênteses aqui: você sabia que a “missa do padre Marcelo” não é celebrada pelo padre Marcelo, mas pelo bispo que o acompanha? Ele é quem faz a consagração. E, além disso, a missa não deveria ser dele, mas de Deus. Às vezes parece que a loucura e o ego ultrapassam os limites do divino e da fé que eles próprios dizem exercer. Seria como alguns religiosos se intitularem “apóstolos” – os únicos apóstolos são aqueles doze, chamados por Jesus. Os demais, são seguidores, são discípulos.

No vigésimo quarto versículo do sexto capítulo do Evangelho segundo São Mateus, Jesus diz: “Ninguém pode servir a dois senhores; pois odiará um e amará o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Vocês não podem servir a Deus e ao Dinheiro”. Isso foi, inclusive, tema da Campanha da Fraternidade de 2010, realizada pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Falha ou não, a campanha pede que os fiéis coloquem uma doação, em dinheiro, dentro de um envelope, para entregar nas missas do Domingo de Ramos (abertura da semana santa) – o dinheiro é encaminhado para ações sociais da Igreja relativas ao tema proposto.

Não sou o dono da verdade, mas tenho um pouco de fé que poderemos melhorar a Igreja que seguimos e sei que isso é possível com a mudança dos nossos próprios hábitos. Justamente por isso escrevo este texto: para que vocês, especialmente os católicos, possam se sentir cutucados, incomodados com o que acontece atualmente em cada paróquia. Nós podemos mudar. Como disse Bento XVI, na carta introdutória do Catecismo Jovem da Igreja Católica, “vós próprios sois o corpo de Cristo, a Igreja! Trazei à Igreja o fogo inextinguível do vosso amor sempre que o seu rosto for desfigurado”. E o rosto da Igreja já está bastante desfigurado. Precisamos reconstruí-lo.

Como eu sei que serei bastante criticado pela publicação deste texto por pessoas que se dizem donas da moral e dos bons costumes – como certa apresentadora de televisão que se diz conservadora e cristã, mas ouve no carro o “666: The Number Of The Beast” do Iron Maiden – já vou lançar minhas desculpas antecipadas, usando as palavras do papa Francisco, em trecho que ele escreveu em sua primeira exortação apostólica (Evangelii Gaudium, 2013), ao terminar a seção em que falava justamente sobre economia.

“Se alguém se sentir ofendido com as minhas palavras, saiba que as exprimo com estima e com a melhor das intenções, longe de qualquer interesse pessoal ou ideologia política. A minha palavra não é a de um inimigo nem a de um opositor. A mim interessa apenas procurar que quantos vivem escravizados por uma mentalidade individualista, indiferente e egoísta possam libertar-se dessas cadeias indignas e alcançar um estilo de vida e de pensamento mais humano, mais nobre, mais fecundo, que dignifique sua passagem por esta terra.”

Resposta da lojinha:

Recebi uma resposta dos responsáveis pela lojinha da paróquia, dizendo que eu confundi os preços e os objetos. Entretanto, após a resposta conversei com duas pessoas que estavam comigo no momento em que verifiquei o objeto e ambos confirmaram o preço apresentado de dezoito reais pela vela de sete dias da maneira como descrevi. Segundo uma responsável pelo comércio, o círio polonês era outro e custava trinta reais, vinte a menos do que o preço cobrado na Catedral da Sé.

O objetivo do texto, contudo, não é discutir isso, mas o envolvimento desesperado da religião com o mercado para arrecadar dinheiro de todas as maneiras possíveis. Por fim, segue parte da resposta da responsável pela lojinha, a quem preservo o nome: “Também concordo que o comércio exagerado nas paróquias não deve fazer parte da fé, mas a abertura da mesma [da loja] foi devido a termos muitos idosos que não frequentam os centros comerciais e facilitar para aqueles que assim desejarem fazer uso de pequenos presentes“.

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