Artes cínicas


teatro-mascaraO homem caiu de joelhos, no corredor de um dos trens do sistema metropolitano, enquanto pesadas e longas lágrimas escorriam pelo seu rosto tomado por um completo pânico, e um misto de tristeza da dor. Uma expressão tão atormentadora que incomodava de olhar, mas eu nem ninguém conseguíamos deixar de observar. A vida deve ser vista.

Ele, um personagem sem nome, havia entrado no metrô do sentido Jabaquara na estação da Luz, mas somente na metade do trajeto até a São Bento se jogou ao chão, em seu pranto doído.

Ele tentou enxugar um pouco a água salgada que alagava cada ruga de sua pele envelhecida e até pegou um lenço para limpar aquilo que escorria de seu nariz e ia ao encontro de seu bigode branco – que vinha acompanhado de uma barba um tanto longa e cabelos despenteados, todos da mesma cor.

A sessão de limpeza terminou e ele colocou o pano branco dentro do bolso de uma calça cáqui. Ajeitou a camisa laranja escuro ao mesmo tempo em que dava soluços de choro e tentava organizar sua respiração em meio a tantos pensamentos até aqui desconhecidos.

Era por volta da primeira hora da tarde do final de janeiro ou começo de fevereiro, não me lembro exatamente. Havia um ou outro assento preferencial vazio, mas o trem estava como tradicionalmente: lotado. Todos assistiam à cena atentamente, de maneira dramática.

Então, começou a gritar algo como: “Por favor, me ajudem”. Um arrepio tomava conta de quem ouvia aquela voz ardida de dor. “Eu sinto tanta vergonha de estar aqui. Mas eu não sei o que fazer. A minha vida acabou. Minha filha morreu no interior [ele falou o nome da cidade, mas não me recordo qual é]. Ela morreu e eu não tenho dinheiro para enterrar ela. A prefeitura vai pagar o caixão. Mas eu não tenho dinheiro para comprar um botão de rosa para colocar em cima das mãos da minha filha que morreu. Eu não quero deixar minha única filha ser enterrada sem a honra de receber uma flor.

Confesso que fiquei um tanto abalado. Até imaginei ele recitando aqueles versos de Dorothy Parker, numa elevação do drama à poesia: aqui jaz ela, minha filha, vestida de cipestre, recebendo a fina flor dos vermes. Mas não chegou a esse ponto. Ouvi cochichos de todos os que estavam próximos de mim, no vagão. Alguns remexiam a carteira e procuravam por moedinhas.

Eu fiquei tentado a contribuir com aquele homem velho, mas algo me dizia que não. Não sei. Certas vezes temos uma sensação de que aquilo não é aquilo mesmo. Estava conversando com a minha namorada no momento em que isso acontecia (não sou patrocinado pelo WhatsApp para contar isso aqui) e relatei tudo e enquanto digitava, pensava comigo se aquela situação não era apenas um devaneio meu. Não era.

Robert Benchey dizia que o problema de certas peças de teatro é que, infelizmente, os atores enunciam o texto com excessiva clareza. E essa clareza, pelo menos em mim e em algumas outras pessoas, gerou desconfiança. Mas ainda há esperança de que as pessoas sejam boas, então, fiquei com remorso de não ter ajudado aquele senhor. Ele desembarcou pelo lado esquerdo do trem, na estação da Sé, e foi embora. Eu também fui.

Meses se passaram e eu estava no metrô, na segunda-feira, último dia de junho, por volta das onze horas da manhã. O destino e a linha eram os mesmos. E a pessoa que entraria no trem na estação da Luz, também. Dessa vez, o homem estava com uma calça marrom e uma camisa creme, a barba estavam um tanto mais longa e branca; o bigode, alaranjado, fazia pensar que ele havia caído no vício do cigarro, após a morte de sua única filha, meses antes. Eu sabia que era ele. Tinha certeza. Mas, apesar de redundante, a certeza absoluta chegou com o restante da cena.

Parecia piada, mas não era. Nelson Rodrigues, se estivesse lá falaria novamente que os inteligentes estão matando o teatro brasileiro e que um dia teremos de chamar os burros para salvá-lo. O problema é que eu a gente não conseguiria entender ou definir se aquele homem era o inteligente ou o burro. Não fazia sentido. E a minha cabeça coçava de curiosidade quando eu o vi cair de joelhos novamente no corredor do trem.

Era inacreditável. Mas o discurso era o mesmo. “Me ajudem, por favor. Não sei o que fazer. Minha vida acabou. Minha filha morreu na cidade tal. Não tenho dinheiro para enterrar ela nem uma rosa para colocar no caixão”. Et cetera. A diferença é que ele não disse que era a única filha, mas a mais nova de um casal. Era a segunda vez que ele assassinava a filha que fez nascer – talvez numa tentativa de abordo mental pós-nascimento. Não sei. Mas eu fiquei revoltado e até comentei com um rapaz que estava ao meu lado, tirando uma nota de dois reais do bolso, que aquela cena já havia acontecido antes. Ele guardou o dinheiro e balbuciou alguma ofensa ao velho.

Como um choro poderia ser tão natural em tamanha falsidade? Uma mulher deu uma nota de vinte reais para ele, que novamente desembarcou na estação da Sé. Dessa vez, eu também saí do trem e andei por algum tempo próximo dele e me postei atrás dele na escada rolante que dá acesso à linha vermelha no sentido Barra Funda. Ele virou de relance e nesse momento, foi a minha vez de falar.

A filha do senhor morreu, não é?”, perguntei. Ele, que já havia secado as lágrimas com o mesmo lenço da outra vez, voltou à expressão facial do metrô para me responder. “Sim, morreu.” De uma maneira mais desconfiada, após um pigarro, incluiu um “por quê?” à sua fala. Minha chance. “Outro dia, o senhor disse a mesma coisa no metrô e eu estava lá”, falei. Ele me olhou de um jeito meio envergonhado e começou a subir as escadas rolantes, me deixando parado, para trás. No topo, olhou para mim novamente, e pronunciou algum xingamento que eu não consegui entender.

Assim como não entendi a ofensa, também nunca vou compreender como ele matou duas vezes a mesma filha. Se foi por alguma necessidade, essa foi a maneira mais desumana de conseguir ajuda. Ou não. Cada um tem a sua história e não somos ninguém para julgar. Mas se for para ser assim, melhor fazer como disse Jerome Klapka Jerome: é sempre conveniente dizer a verdade, a menos, é claro, que você seja um excepcional mentiroso.

Esse punhado de ossos

O poeta Ivan Junqueira, membro da Academia Brasileira de Letras, morreu nesta quinta-feira (3), no Rio de Janeiro, por causa de uma insuficiência respiratória. Ele estava internado no Hospital Pró-Cardíaco há um mês. Junqueira escreveu um poema que se encaixa neste texto. Como homenagem ao escritor, que começou como jornalista e ainda terá livros inéditos publicados, compartilho com o leitor e o velho que matou a filha duas vezes.

Esse punhado de ossos que, na areia,
alveja e estala à luz do sol a pino
moveu-se outrora, esguio e bailarino,
como se move o sangue numa veia.
Moveu-se em vão, talvez, porque o destino
lhe foi hostil e, astuto, em sua teia
bebeu-lhe o vinho e devorou-lhe à ceia
o que havia de raro e de mais fino.
Foram damas tais ossos, foram reis,
e príncipes e bispos e donzelas,
mas de todos a morte apenas fez
a tábua rasa do asco e das mazelas.
E ai, na areia anônima, eles moram.
Ninguém os escuta. Os ossos choram.

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