O drama de uma nação


davidluizO árbitro mexicano Marco Rodriguez nunca imaginaria que o som do seu apito, na quinta hora da tarde do dia 8 de julho de 2014, entraria para a história dentro do maior drama do futebol artístico em anos.

Afinal, foi ele quem autorizou o início do jogo em que o Brasil se deixou sacanear pela Alemanha de uma maneira tão humilhante que até Diego Maradona sentiria remorso em fazer brincadeiras com o resultado.

O barulho ecoaria a cada um dos gols sofridos e de um único marcado, numa tortura sonora sem fim, enquanto Luiz Felipe Scolari apenas olhava o show dos alemães no palco brasileiro.

Talvez o começo do jogo tivesse algo do início de alguma obra shakespeariana, como Hamlet. Algo assim. O soldado Francisco diz a alguém: deixa-te reconhecer. E o alguém, que é um oficial, responde: viva o rei! (Que rei, Pelé?) O soldado questiona: Bernard? Ele diz: Eu mesmo. E o outro: ferrou!

Talvez, ainda, o começo do jogo tivesse algo do início de outra obra shakespeariana, Hamlet. Algo assim. O soldado Francisco diz a alguém: deixa-te reconhecer. E o alguém, que é um oficial, responde: viva o rei! E o soldado: Bernard? Ele diz: Eu mesmo. E o outro: ferrou!

Antes de tudo começar, o retrospecto não era tão ruim. Eram 21 jogos realizados, com 12 vitórias brasileiras (39 gols marcados) e quatro alemãs (24 gols). Quase todos foram amistosos. Os dados estão na Wikipédia para quem quiser ver (ou acham que eu sei toda essa baixaria de cor?).

Em partidas oficiais, uma disputa no Mundialito de 1980-1981, com vitória do Brasil, duas em Copa das Confederações (1999 e 2005), também com saldo positivo para os tupiniquins. Na primeira, a então maior goleada do histórico: 4 a 0 para a gente.

Não vamos aqui lembrar um por um os gols da Alemanha – Thomas Mueller aos 11, Miroslav Klose (o novo Ronaldo das Copas) aos 23, Toni Kroos aos 24 e 26 e Sami Khedira aos 29 minutos do primeiro tempo; e dois de Andre Schuerrle, que entrou no segundo tempo. Menos ainda destacar o gol (sem honra) do franzino Oscar nem da inércia de Fred e Hulk, postes sem luz, nem energia, muito menos brilho.

O que é digno de se destacar é a frase de David Luiz, melhor jogador da Seleção Brasileira (quiçá da Copa) e verdadeiro capitão do time – mas que deu uma furada monstruosa no desastre contra o flamenguista time alemão: “Eu só queria poder dar uma alegria ao meu povo, para minha gente que sofre tanto com tantas coisas”.

Nem o choro foi tão comovente quanto essa frase do grande jogador de cabelo esquisito. Uma vez, na época da queda do Corinthians para a Série B do Campeonato Brasileiro, li um texto que dizia algo como: “nada como o Corinthians para por a gente em guerra ou por a gente em paz”. Não lembro o autor nem prometo ter sido fiel à citação. Mas o que importa é ver como um esporte é capaz de levar tantas pessoas às mais diversas emoções, seja com vitórias ou derrotas.

Meu pai, já falecido, caía em prantos a cada vez que seu time, o Santos, perdia e, mais ainda, quando ganhava. Com o time nacional era a mesma situação. Quantas pessoas vi arrasadas nas ruas do centro de São Paulo, após o fim do jogo. Está certo que também vi um meliante com a camisa da Alemanha soltar um “Brasil-sil-sil” dentro do metrô, mas isso acabou despertando mais risos nas pessoas do que xingamentos ao sem-vergonha.

oscarwilde

O escritor irlandês George Bernard Shaw disse uma vez que quando um idiota faz alguma coisa de que se envergonha esse idiota afirma que está apenas cumprindo seu dever. No momento do jogo, quem mais foi ofendido (mais ainda que nossos atacantes) acabou sendo o técnico. Ainda que ele tenha assumido toda a responsabilidade, concordou que estava fazendo sua parte, ainda que com erros.

Seria importante aqui pedir que todos xinguem, o Felipão, os jogadores, todo mundo. E até que eles nos ofendam também. Afinal, como afirmou o escritor norte-americano Mark Twain, em certas circunstâncias, um palavrão provoca um alívio inatingível até pela oração. Só Jesus na causa.

A Copa do Mundo acaba com o Brasil na lama, mas não deixou de ser o melhor de todos os mundiais realizados até hoje, pelas surpresas e pelos bons jogos que tivemos até agora (com exceção de Irã x Nigéria, todos foram legais de assistir).

A vida continua e os sete a um entram na história como a maior goleada já levada na história dos brasileiros. Em 100 anos de seleção, o recorde era do Uruguai, que em 1920, durante a Copa América, enfiou um 6 a 0. Em 1944, em um amistoso no Rio de Janeiro, o placar se repetiria com o acréscimo de um gol de honra para a gente. Bola pra frente, mas não entre as mãos de Julio Cesar, o goleiro chorão.

O hexa não veio, e como diria agora Carlos Drummond de Andrade, a festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou (…), o dia não veio, o bonde não veio, o riso não veio, não veio a utopia, e tudo acabou, e tudo fugiu, e tudo mofou.

Mas de sete a um?

A imagem foi compartilhada pela página "Desimpedidos", no Facebook. Clique aqui para acompanhar as publicações.
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Colaborou Bruna Alves.

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