O divã de histórias da morte


FOTO-Marcelo-MasagaoJoão Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro da Babilônia num barracão sem número.

Uma noite, escreveu Manuel Bandeira, ele chegou no bar Vinte de Novembro, bebeu, cantou, dançou, depois se atirou na lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.

Na perspectiva dessa única certeza humana, de que todos ­– tristes, felizes, fortes e fracos – morrerão, Marcelo Masagão (que está na foto ao lado) produziu seu “Nós que aqui estamos por vós esperamos” (Riofilmes, 1998).

O documentário de 73 minutos, produzido com R$ 140 mil, reúne obras de arte, fotografias e vídeos históricos e até mesmo cenas de filmes antigos, como “Viagem à Lua”, do francês Georges Méliès, um dos percursores do cinema.

Com uma trilha sonora em estilo erudito, o filme proporciona uma reflexão de vida, observando que não importa o que se faça, o fim será essencialmente o mesmo, ainda que de modos diferentes.

Antes de ilustrar as mortes, que em grande parte mostram o heroísmo dos personagens, ainda que de forma trágica, Masagão contextualiza quem assiste ao filme com um apanhado do século XX, relembrando as guerras, o fordismo e a revolução industrial, relacionados ao capitalismo, além da Revolução Russa, Picasso e seu cubismo, Freud e os dois volumes da Interpretação dos Sonhos e também Albert Einstein com a Teoria da Relatividade.

Cinco anos depois do primeiro voo da história, feito por Santos Dumont em Paris, o primeiro herói do documentário, um alfaiate francês, projetou em 1911 uma roupa com asas, para que pudesse, como um pombo (ressalta Masagão nas imagens), voar. Do topo da Torre Eiffel se lançou ao ar. Estatelou-se no chão.

Dando um salto ao final do século, em 1996 morreu o psicólogo e neurocientista americano Timothy Leary, amigo de John Lennon que inspirou “Come Together”. Sua vontade era de que suas cinzas fossem lançadas no espaço. Numa brincadeira com a edição, o diretor usa as imagens do filme para ironizar. Se os restos de Leary foram lançados em um foguete, atingiram diretamente o olho esquerdo da Lua, como na história cena do filme já citado de Méliès.

Uma família, quatro guerras. Primeira e segunda mundiais, Vietnã e Golfo. Quatro gerações perdidas. Bisavô, avô e pai mortos em confrontos, este último esquartejado – a imagem da perna arrancada do corpo e arremessada por um homem que sorri é chocante –, e o filho, atirando bombas de um avião na última batalha. O único que sobrevive. A bobagem de morrer por um país, ressaltam as frases ilustrativas na tela.

Ao Brasil, chega-se à relação da dança de Fred Astaire (1899-1987) e o futebol de Mané Garrincha (1933-1983). O gingado de um, o gingado de outro como uma coisa só. Afinal, por mais diferente que as pessoas sejam, a essência é sempre a mesma, a de correr atrás dos sonhos, sendo toda a nossa construção em vida eterna, mas nós mortais, apenas passageiros, com outro destino.

Masagão mais que um documentário tem uma peça de auxílio psicológico.

O filme está completo no Youtube. Assista:

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